Contra a poluição da indústria têxtil, grife aposta em tingimento natural

cilindro tecido petalas Contra a poluição da indústria têxtil, grife aposta em tingimento natural

Inspirada em roupas que “venham da terra e voltem para terra”, a estilista Flavia Aranha criou a marca que leva seu nome e ganhou destaque no mundo da moda consciente com a promoção do tingimento natural. Saiba mais na reportagem da Ecoa

Cinco mil anos atrás, a humanidade já usava algodão para fazer roupas. Na China, o cânhamo cumpria essa função. Nossas roupas vêm da natureza. Algodão, cânhamo, linho, rami: antes de serem matérias-primas, são plantas. De lá também vêm os insumos para o tingimento das fibras, como cascas de árvores, insetos e outras plantas.

Corantes sintéticos são uma novidade que surgiu apenas em 1856. Mas que, com o passar do tempo e o barateamento das substâncias, estabeleceram-se como padrão da indústria.

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O retorno à natureza motivou a estilista Flavia Aranha a criar, em 2009, a marca que leva seu nome. “O olhar atento para o ciclo natural da vida me inspirou desde sempre a pensar em roupas que venham da terra e voltem para terra”, diz. Ou, no trocadilho que seu sobrenome implica, “fazer roupas vivas para tecer uma teia de afetos”.

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Flavia Aranha, a grife, cria blusas, saias, vestidos, shorts, calças, casacos, macacões e outros artigos com o mote da valorização das culturas e dos biomas brasileiros — embora isso se estenda à América Latina, pois “bioma não tem fronteira política”, ela lembra: o índigo, tom de azul escuro, vem de El Salvador, por exemplo. Já o algodão vem de projetos agroecológicos no Ceará e na Paraíba. “Acreditamos e fomentamos a agricultura familiar, o extrativismo social e a agroecologia”, diz.

Mas foi a aposta no tingimento natural que fez com que Flavia Aranha se destacasse no crescente mercado da moda consciente. Corantes são um dos maiores problemas dessa indústria. A água usada no processo fica empesteada de enxofre, naftol, nitratos, ácido acético, compostos de cromo, metais pesados como cobre, arsênio, chumbo, cádmio, mercúrio, níquel e cobalto, entre outros elementos que a tornam uma sopa venenosa para plantas e animais.

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“Outros produtos químicos prejudiciais presentes na água podem ser agentes fixadores de corantes à base de formaldeído, removedores de manchas clorados, amaciantes à base de hidrocarbonetos, produtos químicos de tingimento não biodegradáveis”, escreveu Rita Kant, especialista em indústria têxtil, em um artigo da Universidade Panjab, na Índia. O país conhece bem as desvantagens dos artificiais: em 2017, a poluição de corante índigo em um rio de Mumbai estava tão alta que os cachorros que nadavam nele ficavam azulados.

Para além da estranheza de animais tingidos acidentalmente, as águas contaminadas são uma ameaça para a saúde humana e da natureza. “Esses materiais orgânicos reagem com muitos desinfetantes, especialmente cloro, e formam subprodutos que são frequentemente cancerígenos”, segue Kant. Corantes poluem rios, intoxicam o solo, matam animais e causam câncer.

As alternativas são investir em métodos menos danosos na indústria ou voltar as atenções aos corantes naturais. Na Flavia Aranha, o crajiru, planta nativa da Amazônia e cultivada por pequenos agricultores da região de Manaus (AM), colore linhos e sedas. A erva-mate, originária da América do Sul subtropical, dá um amarelo esverdeado às peças. Romã, faveira, catuaba, pau-brasil e cúrcuma são outras fontes para a estilista.

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O resultado são peças que nem sempre têm o mesmo tom, o que, para ela, é uma vantagem. É como se fossem safras. “Cada lote foi plantado e colhido sob condições únicas. Cada solo, dependendo da estação de plantio, da colheita, tem uma concentração diferente de minerais, e essas especificidades são de alguma forma a identidade daquele lote”, explica. “A gente quer celebrar essa possibilidade de cores únicas, que são memórias desse caminho que cada planta teve até chegar aos nossos caldeirões.”

Grandes panelas de inox servem para a produção dos tingimentos, mas a estilista investiu em uma técnica “natural industrial”, que permite aumentar o volume de produção sem desperdiçar nem poluir água. A empresária busca com isso democratizar o acesso a suas roupas, embora elas estejam longe do que se entende por “acessíveis”. Os preços dos vestidos, por exemplo, variam de R$ 450 a R$ 2.898.

As duas lojas físicas da marca ficam em bairros paulistanos habituados a vitrines com esses valores, Vila Madalena e Jardins. As vendas on-line correspondem a apenas um terço das vendas, ou seja, a maioria das clientes é do tipo que vai à loja, experimenta, pega na mão, conversa com os funcionários, o que condiz com a premissa da grife. Como diz sua fundadora: “Preferimos tudo que é vivo, que respira”.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra as mãos de uma pessoa com luvas plásticas que rolam um cilindro sobre um tecido marrom-claro coberto de sementes e pétalas de flor vermelhas. Foto: Flavia Aranha.

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