Como o tráfico de drogas se infiltrou em empresa global de suco de laranja

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Cabeça Branca, o maior traficante do Brasil, está preso, mas continua a assombrar as autoridades e até companhias brasileiras. As informações são da Veja

O maior traficante de drogas da história do Brasil não morava no topo de um morro do Rio de Janeiro ou comandava bocas de fumo em São Paulo. Tampouco pertencia a facções criminosas conhecidas nem se envolvia em guerras pelo controle da distribuição de cocaína. O bandido, cujo patrimônio superava um bilhão de reais — entre fazendas, aviões, mais de cem carros e caminhões — não ostentava uma vida de luxo e riqueza. Embora usasse de violência para eliminar desafetos, não contava com um exército particular, mas com alguns homens de confiança. Avesso à fama, fazia questão de agir nas sombras, utilizando documentos falsos. Por todos esses fatores, durante quase três décadas, a identidade do marginal que inundou os mercados americano, europeu e também nacional de entorpecentes permaneceu oculta. Ela só foi revelada em julho de 2017, com a captura de Luiz Carlos Rocha, o Cabeça Branca, 63 anos.

A operação, batizada de Spectrum por se tratar da caçada a um “fantasma”, acabou por colocar Cabeça Branca atrás das grades, apreendendo seus bens e imóveis. Foi um duro golpe para o bando responsável pelo maior volume de vendas de drogas do país — embora ele siga atuando. Desde que o megatraficante foi capturado, cinco outras operações foram realizadas. Uma delas, deflagrada em março do ano passado, revelou como o grupo liderado por Cabeça Branca se conectava com altas organizações criminosas estrangeiras para exportar drogas para o mercado europeu. “Ele tinha ligação com a Ndrangheta, a máfia calabresa que controla o tráfico no sul da Europa, além de elos com as máfias russa, albanesa e sérvia”, diz Allan de Abreu, autor do livro Cabeça Branca (Editora Record), que será lançado na segunda-feira (5).

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A Veja teve acesso a um capítulo que revela como as garras do fantasma chegaram até a brasileira Citrosuco, a maior processadora de suco de laranja do planeta. Pela primeira vez, vem à tona que um de seus navios foi utilizado para transportar cocaína do porto de Santos até Ghent, na Bélgica — sem que a companhia soubesse, segundo apontam as investigações. Ainda assim, o monitoramento feito pela Polícia Federal, que abarcou funcionários e representantes da Citrosuco no Brasil e no exterior, leva a gente ligada de alguma forma à companhia. Um dos nomes é do belga David Van De Graaf, que responde a uma ação penal que corre na 23ª Vara Federal de Curitiba. Na investigação, ele aparece como representante da Citrosuco na Europa. A empresa nega.

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Em agosto de 2018, quase duas toneladas de cocaína foram apreendidas no porto de Ghent, a bordo do Carlos Fischer, um navio tanque da Citrosuco equipado com uma pequena área para transportar contêineres. A droga estava escondida em um deles, no meio de um carregamento de pedras São Thomé, normalmente utilizadas como piso de área externa. Os policiais identificaram que o produto seguiu a mesma rota e modus operandi de outros carregamentos de Cabeça Branca: a cocaína era trazida de países produtores, como Bolívia, Colômbia e Peru, para o Brasil em pequenos aviões que aterrissavam em fazendas no Mato Grosso. Em seguida, seguia em carretas com fundo falso até galpões no interior de São Paulo, onde era acondicionada em cargas de outros itens que poderiam ser exportados legalmente.

A apreensão da droga na Bélgica aconteceu depois que a Polícia Federal monitorou a quadrilha e alertou as autoridades do país. “Os investigados brasileiros, aparentemente, ficavam encarregados das questões operacionais, como recebimento, ocultação, transporte e embarque da droga, assim como o desembaraço das questões portuárias e de comércio exterior”, diz o juiz Nivaldo Brunoni no despacho que autorizou uma das operações. Os trâmites para a exportação envolviam diversas etapas. É aí que entram em cena a Patagônia, uma empresa de comércio exterior pertencente ao argentino Fernando Verdura, e a Stroika, uma importadora de Yuksel Nurettin, um belga que possui CPF registrado no Brasil. No dia da apreensão da carga, Nurettin, o representante da Citrosuco, David Van De Graaf, e ainda um terceiro homem, o agente portuário Paul Collen, foram flagrados pela polícia no porto de Ghent e a partir daí passaram a ser monitorados. Em uma conversa telefônica, Van De Graaf desabafa e diz a Colllen que as coisas começaram a “dar para o torto” depois que eles começaram a utilizar a Patagônia nas transações, mas que haveria, sim, a possibilidade de voltar a utilizar os contêineres da Citrosuco no futuro. No mesmo diálogo, Collen conta que Nurettin já importava “pedras” por intermédio da Patagônia desde 2016. As acusações  contra a empresa foram arquivadas ao longo do processo.

Um dos alvos da PF no Brasil era uma funcionária da Citrosuco responsável pelas exportações de suco de laranja. Ela viajou para a Bélgica e esteve em contato com Van De Graaf entre 1 e 14 de dezembro de 2018. Dois dias depois, a polícia belga apreendeu mais 1,1 tonelada de cocaína alojada em tonéis congelados de polpa de laranja da Citrosuco desembarcados no porto de Antuérpia, também na Bélgica. Apesar das evidências, a funcionária não foi indiciada, mas perdeu o emprego.

A Citrosuco afirma que a empresa foi vítima de organizações criminosas e que as investigações contra ela já estão arquivadas. Dois brasileiros foram condenados e seis réus estrangeiros ainda aguardam julgamento, entre eles Collen, Van de Graaf e Nuretin. “Há outras fases em andamento acerca de mais braços financeiros ligados ao Cabeça Branca no Brasil e no exterior. Essas fases têm como ponto central buscar identificar esquemas de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas”, diz Elvis Secco, delegado da Polícia Federal que prendeu o megatraficante brasileiro. Mesmo preso, o “fantasma” ainda ronda o mundo do crime.

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Veja a nota da Citrosuco: 

A Citrosuco esclarece que jamais compactuou com qualquer conduta ilícita. A empresa, infelizmente, foi mais uma vítima de organizações criminosas que se aproveitam das exportações de mercadorias para clandestinamente transportar drogas ilícitas para outros países.

Assim que tomou conhecimento dessas ocorrências, a Citrosuco se colocou totalmente à disposição das autoridades do Brasil e da Bélgica, contribuindo com as investigações por meio de depoimentos de seus funcionários e o envio de documentos e informações. Após a devida análise e condução do inquérito criminal, a Citrosuco foi excluída das investigações por não ter tido nenhuma relação com os fatos.

A Citrosuco informa que o cidadão estrangeiro Sr. David Van de Graaf nunca figurou em seu quadro de funcionários ou teve autorização para representá-la, seja no Brasil ou no exterior.

Assim, atualmente, não há nenhuma acusação contra a empresa ou contra algum de seus funcionários pelos fatos tratados na operação Tifeu, deflagrada pela Polícia Federal.

A Citrosuco segue em constante aperfeiçoamento de medidas de segurança para impedir que organizações criminosas utilizem clandestinamente as exportações regulares da empresa para o transporte de drogas.

Após publicação da reportagem, a Patagônia entrou em contato com a Veja para esclarecer que as acusações contra a empresa foram arquivadas do processo. A empresa enviou a seguinte nota: 

A Patagônia quer deixar claro a Vv. Ss., e a quem interessar possa, que jamais e em momento algum ao longo de seus mais de seis anos de existência veio a praticar ou colaborar com qualquer conduta delituosa, quanto mais, compactuar com narcotraficantes e organizações
criminosas do gênero. Fatidicamente, a Patagônia nada mais foi que vítima do mencionado grupo criminoso o qual, se valendo das nuances que cercam os processos de exportação no país, forjaram uma operação clandestina de tráfico de drogas utilizando os serviços da Patagônia para tal, sem que em momento algum a mesma viesse a ter conhecimento das práticas criminais ocorridas.

Ademais, desde o instante em que tomou conhecimento da situação, a Patagônia, na pessoa do senhor Fernando Verdura, se colocou à disposição da Justiça e das autoridades policiais brasileiras, apresentando todos os documentos solicitados, prestando esclarecimentos,
depoimentos etc., sendo que, após profunda e detida análise de todas essas provas, as autoridades competentes concluíram não existir nenhum indício que sustentasse a implicação da Patagônia com a mencionada organização criminosa e os crimes praticados, tendo o inquérito em relação à empresa, representada pelo Sr. Fernando Verdura, sido arquivado conforme sentença proferida pelo juiz Nivaldo Brunoni. Dessa forma, sobre os crimes investigados no contexto da Operação Tifeu, nenhuma acusação, indício ou suspeita recai na pessoa jurídica da Patagônia e seus funcionários, sendo certo que todos têm se esforçado para esquecer os traumas, prejuízos e dissabores que a fatalidade desse episódio causou à imagem da empresa e seu proprietário.

Por fim importa destacar que a Patagônia faz parte de um grupo econômico que tem o senhor Fernando Verdura como presidente; grupo esse o qual movimenta em torno de 1,2 bilhões de reais anualmente, eis que atua em diversos setores da indústria, comércio e serviços no Brasil, sendo imensurável o prejuízo à sua imagem que essa reportagem possa vir a causar, por sinal, com conteúdo que até então se encontrava em segredo de justiça, desconhecendo-se, guardado o direito de proteção às fontes jornalísticas, como Vv. Ss. obtiveram acesso aos autos do processo.

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#PraCegoVer: fotografia de uma pessoa segurando as duas metades de uma laranja à frente dos olhos enquanto mostra a língua, vestida com um suéter de cor laranja-escuro, em fundo de tom mais claro. Imagem: Noah Buscher | Unsplash.

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