Cloroquina e Cannabis: quem defende o uso de um deveria apoiar o outro

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“Convidamos, assim, os leitores defensores da hidroxicloroquina que porventura ainda não apoiam a legalização da cannabis medicinal no Brasil a juntarem-se a nós e aplicarem a mesma argumentação e entusiasmo na defesa da cannabis. Não espere precisar para defender”. Entenda mais no artigo de opinião de Joaquim Dias de Castro, fundador da Clínica Gravital, e Pietro Vanni, diretor técnico médico da Gravital

Muito se fala sobre o uso da cloroquina — ou da hidroxicloroquina — para o tratamento da COVID-19. Os benefícios e a eficácia do remédio são relatados por médicos ao redor do globo. Esse conjunto de relatos, muitos publicados em revistas não científicas ou então diretamente pelos hospitais e clínicas, compõe o que é conhecido como evidências empíricas, ou anecdotal evidence, no original em inglês. São evidências colhidas de uma maneira menos rigorosa e muitas vezes baseada no testemunho pessoal do médico ou da equipe médica.

É muito comum que estudos científicos propriamente ditos sejam gerados justamente a partir da necessidade de se comprovar evidências empíricas iniciais. Por estudos científicos entendem-se aqueles que seguem métodos consagrados e que são, uma vez concluídos, postos à prova para revisão de outros pesquisadores independentes.

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Os primeiros estudos com rigor científico publicados, infelizmente, têm concluído que a hidroxicloroquina não é mais eficiente que outros tipos de tratamento e destacam a presença de efeitos colaterais na forma de aumento da chance da ocorrência de arritmia cardíaca entre outros. De todo modo, a existência de evidências empíricas já é suficiente para que políticos, pacientes e mesmo médicos defendam o uso amplo da substância para o tratamento da COVID- 19 já em estágio inicial, a despeito, ressalta-se, dos efeitos colaterais.

E aqui chegamos a uma incoerência explícita. Ela se materializa no fato de que existe uma discriminação no tratamento dispensado por muitos políticos e mesmo parte da classe médica ao uso de canabinoides, compostos derivados da cannabis, para o tratamento das mais diversas condições clínicas. Discriminação a despeito de consistentes estudos empíricos que, para a cloroquina, servem para defender seu uso amplo.

Qualquer pessoa com acesso à internet e capacidade de leitura em inglês irá encontrar incontáveis estudos que relatam evidências empíricas conclusivas sobre o uso de canabinoides, especialmente o canabidiol (CBD) e o tetraidrocanabinol (THC), como eficientes no tratamento, por exemplo, de dores crônicas e neuropáticas, espasticidade, náuseas e vômitos associados a quimio e radioterapia, epilepsia e convulsões. Inclusive, para algumas condições, há estudos já publicados em conceituadas revistas médicas internacionais, ou seja, ao contrário dos estudos empíricos com a cloroquina, estes passaram pelo rigor da revisão de pares da academia.

Os pacientes infectados com COVID-19 merecem alternativas de tratamento que melhorem o seu bem-estar até que se encontre uma cura definitiva. Por que então o paciente epilético, os acometidos por câncer ou os com graves dores neuropáticas não podem se beneficiar de forma simples de compostos com ampla base de evidências empíricas?

Há ainda uma diferença fundamental entre os canabinoides, particularmente o CBD, e a cloroquina. Trata-se do fato de o CBD ser considerado uma substância dita, no linguajar técnico, GRAS (Generally Recognized as Safe), ou seja, geralmente reconhecida como segura. Não à toa, nos Estados Unidos o CBD é de amplo acesso, inclusive tratado por vezes como suplemento alimentar, em que pese discussões regulatórias na FDA sobre o tema. No Brasil a Anvisa já aprovou um medicamento importado à base de THC e CBD para venda nas farmácias, e, recentemente, aprovou o primeiro produto nacional à base de cannabis.

Mas voltemos ao ponto: não há justificativa honesta intelectualmente para se defender o uso amplo da cloroquina com bases em evidências empíricas positivas e não defender o uso de canabinoides, cujo conjunto de evidências positivas é mais amplo e cujos efeitos colaterais são praticamente inexistentes em se tratando do CBD.

Deve estar claro que nos referimos aos compostos extraídos, em grau farmacêutico, da planta cannabis. Não há o mesmo nível de evidências, estudos e segurança quando se fala da cannabis in natura e fumada na forma de cigarro, principalmente se adquirida de forma ilícita cuja produção carece de qualquer controle. Há, entretanto, evidências positivas para o uso da planta in natura quando vaporizada em equipamentos específicos para tal.

Convidamos, assim, os leitores defensores da hidroxicloroquina que porventura ainda não apoiam a legalização da cannabis medicinal no Brasil a juntarem-se a nós e aplicarem a mesma argumentação e entusiasmo na defesa da cannabis. Não espere precisar para defender.

Leia também: Como a cannabis pode atuar na saúde mental durante a pandemia

#PraCegoVer: em destaque, fotografia de um frasco conta-gotas de cor âmbar e tampa preta e, à sua frente, um bud de cannabis, sobre uma superfície amarela que se confunde com o fundo. Foto: THCameraphoto.

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