Cinco discursos equivocados de Osmar Terra que reforçam o proibicionismo

osmar terra Flickr Senado Federal cc 1 Cinco discursos equivocados de Osmar Terra que reforçam o proibicionismo

Conhecido proibicionista, o atual ministro da Cidadania, Osmar Terra, não hesita em se pronunciar, quando o assunto é a maconha, para reforçar sua posição — mesmo que use dados questionáveis para isso

À frente do ministério da Cidadania, pasta resultante da fusão dos ministérios da Cultura, do Esporte e do Desenvolvimento Social, Osmar Terra (MDB-RS), que também foi deputado e ex-ministro do governo Temer, é quem conduz, entre outras iniciativas, a campanha de prevenção às drogas do governo federal, criticada por especialistas por não informar e educar, mas censurar e descriminar o uso.

— As campanhas do governo sobre drogas têm sempre um apelo emocional, como a que foi lançada (em junho passado) pelo ministro Osmar Terra — diz a Professora da Universidade de Brasília (UnB) e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR/FCE/UnB), Andrea Galassi, ao jornal O Globo, referindo-se à campanha de slogan “Você nunca será livre se usar drogas”, cujo material não fornece dados sobre drogas, e tampouco sobre prevenção ao abuso ou tratamento de dependência. — Com campanhas assim, a população não tem acesso a informação correta e pragmática sobre drogas , e as pessoas constroem seus conceitos baseados no medo, no temor da dependência . Existe um estigma social absurdo, como se o dependente fosse um fracassado.

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Ao longo de sua trajetória política, e sobretudo desde o início do ano, o ministro tem se pronunciado sobre assuntos que envolvem a maconha e a política de drogas, em geral, buscando reforçar o discurso proibicionista que lhe é próprio. O problema é que, nem sempre, os dados de Terra são condizentes com a verdade. Selecionamos cinco episódios em que o ministro traz dados questionáveis sobre o tema, a seguir:

Desastre no Colorado

Ainda como ministro do Desenvolvimento Social de Michel Temer, em novembro de 2016, Osmar Terra relacionou no Twitter pesquisa sobre suposto aumento no número de homicídios, acidentes com vítimas fatais e estupro no estado americano do Colorado, onde o uso da maconha é legalizado; sem que a pesquisa relacione ou comprove, o próprio ministro atribui à legalização da maconha o aumento dos supostos indicadores negativos. A imprensa americana e a própria polícia do Colorado discordam do ministro.

E no Uruguai

Em 2017, o então ministro do Desenvolvimento Social fez algumas afirmações sobre a maconha no Uruguai que, checadas pela agência Lupa, se mostraram falsas, exageradas ou insustentáveis – como, por exemplo, a de que “aumentou o homicídio no Uruguai depois daquela coisa maluca de o governo cuidar da maconha”. Outras afirmações, como a de que a maconha causa esquizofrenia ou diminui o QI, também foram ditas por ele na ocasião.

No ano seguinte, o ministro voltou a atacar as iniciativas do Colorado e Uruguai pelo Twitter, mas, segundo análise, “fez uma interpretação parcial dos dados”.

Maconha medicinal não existe

Em 2018, Osmar Terra fez duras críticas a Marta Suplicy, então senadora e relatora da proposta que autoriza o cultivo de maconha para uso terapêutico pessoal, afirmando que “essa história de defender maconha medicinal demonstra um profundo desconhecimento. Sou médico, tenho mestrado em neurociência“. Mais recentemente, durante a audiência pública do Senado sobre o assunto, em junho de 2019, ele pediu a senadores que “não permitam” que a liberação do plantio da cannabis aconteça no Brasil. “Não existe maconha medicinal”, afirmou.

O que existe é uma epidemia de drogas

Ao comentar o engavetamento de estudo da Fiocruz sobre o uso de maconha e outras drogas no Brasil, que custou R$ 7 milhões aos cofres públicos, em junho deste ano, o ministro disse não ver ‘validade científica’ no levantamento feito pela instituição e que “é óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências”.

Único caminho

No lançamento da campanha nacional de prevenção ao uso de drogas, em junho deste ano, o ministro disse que “a epidemia de drogas vem acompanhada de uma epidemia de violência. Estamos em uma situação grave, violenta e em que o único caminho que temos para enfrentar isso, além da repressão da violência, é fazer com que diminua o consumo de drogas e a quantidade de drogas na rua para a nossa juventude”. Os meios para a repressão ao consumo, na visão do ministro, são ações como a internação involuntária de dependentes químicos – o projeto, criado por ele, foi sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro em junho deste ano.

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#PraCegoVer: fotografia (de capa) que mostra Osmar Terra em discurso durante audiência, ajustando o microfone de mesa. Foto: Flickr | Senado Federal.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.
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