Cannabis medicinal abre oportunidade para pequenos negócios

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As pequenas empresas que fazem parte do chamado ‘cannabusiness’ caminham pelas bordas, promovendo serviços auxiliares no mercado da cannabis. Saiba mais na reportagem de Marina Dayrell para o Estadão

Entre alimentos, medicamentos, cosméticos, roupas, materiais de construção e biocombustíveis, existem cerca de 25 mil itens que podem ser produzidos a partir da planta cannabis nos países em que o mercado é regulamentado. No Brasil, onde a legislação permite desde dezembro de 2019 apenas a importação e a produção para fins medicinais (e onde o cultivo é proibido, salvo casos decididos por liminar), as pequenas empresas que fazem parte do chamado cannabusiness caminham pelas bordas, promovendo serviços auxiliares.

Na regulamentação que existe, entrar no âmbito farmacêutico acaba não sendo um jogo para as pequenas empresas porque a regulamentação é muito exigente. É mais fácil uma indústria que já trabalha nessa regulamentação inserir mais um produto no seu portfólio do que uma empresa que entende de cannabis virar uma farmacêutica. O papel das pequenas e médias agora é o de atuar como facilitadoras importando produtos, ajudando a registrar a qualidade e gerando serviços auxiliares, que não toquem diretamente na planta. É o que temos visto surgindo no mercado”, explica Fabrício Pamplona, farmacologista e diretor-científico da Proprium — multinacional que desenvolveu exame capaz de medir a capacidade do paciente de metabolizar canabinoides (compostos químicos produzidos pela cannabis).

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O setor pode ser lucrativo para empreendedores. Só em 2018, o mercado global de cannabis movimentou US$ 18 bilhões, segundo a consultoria norte-americana New Frontier Data, especialista no tema. A estimativa é que, atualmente, o valor total de mercado da planta na América Latina (incluindo mercados legais, regulamentados e ilícitos) seja de US$ 9,8 bilhões.

Nos próximos três anos, o Brasil pode movimentar R$ 4,6 bilhões, mas, para isso, é preciso ir além das barreiras atuais da desinformação, do estigma e do preconceito.

Mas o que é o cannabusiness?

Para entender o mercado da cannabis, é preciso primeiro compreender onde ele começa. A planta de gênero Cannabis (que tem espécies como a Cannabis sativa) dá origem a várias composições (chamadas de canabinoides). De uma maneira simplificada, uma das diferenças mais importantes entre elas é a capacidade de gerar THC (tetraidrocanabinol) e CBD (canabidiol).

Essas duas substâncias atuam no sistema nervoso central, mas é a quantidade de THC que faz com que a maconha seja utilizada para efeito psicotrópico, é ela que dá o “barato”. Já o cânhamo possui níveis muito baixos de THC — o cânhamo e a maconha vêm ambas da Cannabis sativa, mas modificações genéticas podem fazer a planta ter maior ou menor concentração de THC.

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Tanto o THC quanto o CBD possuem uso medicinal, mas foi o CBD que se popularizou nesse mercado nos últimos anos por ser uma substância muito segura. É ele que dá origem a uma variedade imensa de produtos, como os listados no início desta reportagem.

“A nossa grande luta agora é trazer para os legisladores essa diferença, sem deixar o THC como vilão porque ele não é, mas que o estigma que o THC tem não atrapalhe a indústria do cânhamo. Este pode gerar muitos empregos, impostos e produtos de alta qualidade”, diz Marcelo Grecco, cofundador da The Green Hub, consultoria e aceleradora de startups voltadas ao mercado da cannabis.

Em relação à legislação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) permite hoje a importação de medicamentos à base de cannabis, a partir de prescrição médica e autorização, e também a importação de matéria-prima semielaborada para que empresas nacionais fabriquem produtos para fins medicinais.

“A grande trava do Brasil hoje é a insegurança jurídica. Muitas iniciativas são baseadas em liminares, mas falta uma regulamentação firme, que deixe as regras claras para o mercado poder operar com a cannabis sem percalços”, explica Emílio Figueiredo, advogado especializado na questão da cannabis.

Para ajudar as empresas a entrarem no mercado da planta além das grandes operações da indústria farmacêutica, ele fundou, em 2018, ao lado de três sócios, a Sinapse Social — consultoria jurídica e estratégica para negócios de impacto social que atuam no setor de cannabis. Hoje, a empresa tem seis clientes ativos e chegou a ter mais de 50 consultas em 2020, com destaque para empresas estrangeiras que querem atuar no mercado brasileiro.

Também atuando pelas bordas e com foco no incentivo às empresas, desde 2017, a The Green Hub opera com inteligência de dados, consultoria e aceleração no mercado da cannabis. Formada por cinco amigos, a empresa começou no fomento à parte medicinal, mas hoje já foca no que chamam de visão global da cannabis.

“Fomos crescendo e percebemos a visão da cannabis como commodity, como agronegócio. Se a gente não começar a tirar o estigma e liberar o plantio de cânhamo, não vamos surfar essa onda que o mundo já está surfando e explorar esse potencial de bilhões de reais”, defende Grecco.

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Programa de apoio científico para negócios

Em parceria com a farmacêutica alemã Merck, a Green Hub abriu até o dia 13 de novembro as inscrições para a sua segunda chamada de aceleração de startups. Podem se inscrever projetos de todas as áreas, com exceção do uso de efeitos psicotrópicos da cannabis. As selecionadas terão apoio científico para desenvolver produtos e assistência na captação de investimentos.

Uma das empresas já aceleradas pela The Green Hub é a fintech Cannapag, que chega ao mercado no fim de outubro. O negócio surgiu em João Pessoa (PB), pela experiência do sócio Mizael Cabral na Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) — organização sem fins lucrativos que apoia famílias no tratamento de patologias com a utilização da cannabis medicinal.

“Quando foi abrir as suas contas bancárias, a associação teve diversos problemas. Nunca encontramos nenhum banco ou fintech que falasse a mesma língua e que entendesse o que estávamos fazendo porque o preconceito é muito grande. Tivemos inúmeros pagamentos não liberados pelas bandeiras de cartões, o que dificultava a aquisição de produtos pelos pacientes, então vimos que precisávamos de uma solução específica nichada”, explica Cabral.

A Cannapag já tem a Abrace e outras duas empresas como os primeiros clientes. Entre os serviços que serão oferecidos para pacientes e empresas estão conta digital, cartão de crédito, máquina para pagamento, contas salário para colaboradores, TED e DOC, e transferências.

Contato com pacientes orienta atuação de negócios

Ainda que pequenos negócios fiquem à margem da indústria farmacêutica quando o assunto é medicamento, o tratamento de pacientes a partir de cannabis medicinal também gera oportunidades para PMEs. O Centro de Excelência Canabinóide (CEC) — também acelerado por The Green Hub — foi criado em 2018 em quatro frentes: criação de conteúdo relacionado à cannabis para leigos, formação educacional para médicos e profissionais da saúde, publicações científicas e assistência médica.

A startup deu origem a uma clínica, que foi inaugurada em junho em São Paulo e fornece consultas, prescrição de medicamentos à base de cannabis, acompanhamento do processo de autorização de compra pela Anvisa e análise durante o uso.

“Quem nos procura, geralmente, são pacientes que têm enfermidades como Alzheimer, epilepsia, autismo, Parkinson, ansiedade e depressão. São pessoas que já tentaram de tudo. Os produtos à base de cannabis não curam, mas ajudam no controle da dor e na socialização, melhorando a qualidade de vida”, conta Marcelo Sarro, CEO do CEC. “Há também um outro grupo de pacientes que não procuram necessariamente por uma doença, mas para regular o sistema endocanabinoide e melhorar a qualidade de vida, em relação a estresse, concentração e desempenho”.

A clínica tem capacidade para atender até 350 pacientes por mês e, segundo o CEO, a meta é atingir esse número em até dois meses. Em outubro, o negócio irá crescer com mais duas novas unidades no Espírito Santo.

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Também no setor medicinal, a Dr. Cannabis surgiu da vontade de Viviane Sedola em criar um negócio de impacto social. Em 2018, a empresa começou a produzir conteúdos para médicos e pacientes, mas a demanda por profissionais que prescrevem medicamentos à base de cannabis fez com que a empreendedora automatizasse o sistema.

“Hoje a plataforma conecta médicos e pacientes por patologia e geolocalização. O paciente consegue ver detalhes sobre o médico, valores e até agendar consulta por telemedicina. Mesmo um médico que nunca prescreveu medicamento à base de cannabis consegue preencher a prescrição pela plataforma em menos de cinco minutos. Por ela, o paciente recebe a solicitação para pedir autorização à Anvisa e, uma vez autorizado, a gente o apresenta à marca prescrita, cujas procedência e qualidade já testamos”, explica Viviane.

A compra não é feita pela plataforma, uma vez que a importação precisa ser realizada pelo próprio paciente diretamente com a marca. A Dr. Cannabis tem cerca de 3 mil médicos registrados e 30 mil pessoas buscando tratamento.

Em fase de tração, a empresa iniciou em setembro uma segunda rodada de captação via crowdfunding. A campanha vai até o dia 7 de outubro, com meta de arrecadar R$ 2 milhões. A participação é feita na plataforma on-line Start Me Up (SMU) com investimento mínimo de R$ 5 mil.

Brasileira empreende no mercado americano

A estimativa é que hoje mais de 30 países produzam o cânhamo industrial, com a China e a França na liderança. Nos Estados Unidos, a planta foi legalizada em 2018, após 40 anos de proibição. Já a maconha tem a sua situação definida em cada um dos 50 estados americanos entre a proibição, a legalização para fins medicinais e também para uso recreativo (adulto).

De olho nesse mercado, a brasileira Maria Cordeiro, ao lado de dois sócios norte-americanos, resolveu empreender no setor de cannabis na Califórnia — um dos Estados mais avançados na regulamentação da planta. Em novembro, eles irão inaugurar a My Green Network, um espaço de coworking e laboratório para negócios criados a partir da cannabis.

Qualquer negócio que use a cannabis como base de produção pode ser um cliente do local, já que na Califórnia é permitida a fabricação de produtos a partir tanto do CBD quanto do THC.

Quando você vai fazer o pedido de licença de produção é preciso ter um espaço que esteja dentro da lei para produzir. Dentro do nosso espaço, conseguimos facilitar o processo da licença para as empresas. Temos capacidade para 30 clientes e já fechamos com 15. São empresas que produzem produtos variados, como cosméticos, vela, biscoito, energético, cerveja, comidas congeladas, sorvetes, chocolates, entre outros”, explica Maria.

Cada empresa deve pagar cerca de US$ 40 mil pela licença para produzir itens à base de cannabis, além do custo pago ao coworking, que pode variar entre US$ 1.450 e US$ 36 mil — a depender dos dias de uso, armazenagem e fornecimento de extrato de cannabis.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia de Emílio Figueiredo que, vestido com um paletó cinza, se encontra no meio de um cultivo indoor de várias plantas de maconha. Foto: Wilton Júnior | Estadão.

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