Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

Cannabis Indica Sativa Híbrida ruderalis quais diferencas das plantas 1 Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

Conheça a origem dos termos e as principais características relacionadas a cada um, dos aspectos visuais aos efeitos associados

Você provavelmente já se perguntou de que variedade é aquela flor de cannabis que degustou. Certamente, os termos indica, sativa e híbrida ainda ditam as decisões de compras relacionadas à cannabis em países que já comercializam suas flores de forma legal.

Em países regulamentados, os três nomes são usados pelos produtores para categorizar as plantas com base em suas características de crescimento e no perfil químico resultante, o que, por sua vez, ajuda os varejistas na hora de descrever os efeitos de cada cepa aos consumidores.

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

Vale considerar que as classificações/nomenclaturas indica, sativa e híbrida também são utilizadas como referência para diversos usos terapêuticos, bem como no uso adulto.

Embora evidências informais apontem os tipos ‘indica’ para efeitos mais relaxantes e calmantes e ‘sativa’ para sensações mais energizantes e revigorantes, alguns pesquisadores e veículos especializados dizem que essas classificações são leigas.

“Existem cepas bioquimicamente distintas de Cannabis, mas a distinção sativa/indica, como comumente aplicada na literatura leiga, é totalmente sem sentido e um exercício de futilidade”, segundo Ethan Russo¹, em entrevista sobre os tipos de cannabis, publicada na revista Cannabis and Cannabinoid Research, em 2016. “Não se pode, de forma alguma, atualmente, adivinhar o conteúdo bioquímico de uma determinada planta de Cannabis com base em sua altura, ramificação ou morfologia das folhas”.

Ainda segundo Dr. Russo, o grau de cruzamento/hibridação é tal que apenas um ensaio bioquímico dirá a um consumidor o que realmente está na planta. “É essencial que o comércio futuro permita a disponibilidade de perfis completos e precisos de canabinoides e terpenoides”.

Acredita-se que as cepas indica sejam de efeitos sedativos, perfeitas para relaxar diante de sua série favorita na Netflix e que as sativas fornecem efeitos cerebrais revigorantes e estimulantes que combinam bem com atividade física, reuniões sociais e projetos criativos. Já as híbridas ficam numa posição intermediária, oferecendo um equilíbrio de efeitos indica e sativa.

Origem dos termos

Os termos indica e sativa estão na base da cultura da maconha desde meados dos anos 1700. Em 1753, o botânico sueco Carl Linnaeus identificou plantas de cannabis psicoativas como Cannabis sativa em sua obra Species Plantarum. A espécie ficou, então, denominada como Cannabis sativa L., onde o L. vem do sobrenome Linnaeus. Em 1785, o biólogo francês Jean-Baptiste Lamarck identificou a Cannabis indica como uma espécie diferente, após observar as características físicas das plantas de cannabis cultivadas na Índia. Lamarck argumentou que as plantas de C. indica apresentam folhas em um verde mais escuro e mais largas do que as folhas da C. sativa.

Saltando no tempo, para 1924, o botânico russo Dmitrij Janischewsky identificou a Cannabis ruderalis como sendo uma terceira espécie do gênero Cannabis. Desta vez, não foi o resultado de expressões físicas, mas de características únicas no ciclo de floração da planta. Janischewsky notou que, enquanto a maioria das plantas de cannabis começa a florescer com a mudança da luz solar disponível (fotoperiodismo), as plantas ruderalis iniciam a floração automaticamente quando completam sua fase de crescimento vegetativo, independente da disponibilidade de luz.

Muitos talvez nunca tenham ouvido falar sobre as cepas “ruderalis”, uma vez que os botânicos ainda não chegaram a um acordo sobre uma taxonomia definitiva da cannabis.

C. sativa, C. indica e C. ruderalis. Afastando-se um pouco de Linnaeus e Lamarck, os biólogos americanos Loran Anderson e Richard E. Schultes caracterizaram uma distinção entre as plantas com base na proporção dos canabinoides THC e CBD. Observaram uma diferença entre as cultivares com alto teor de THC e baixo teor de CBD (C. sativa), aquelas altas em THC e CBD (C. indica) e aquelas com alta relação CBD/THC (C. ruderalis).

Em 1976, na época em que Schultes e Anderson estavam fazendo suas reivindicações, Ernest Small e Arthur Cronquist argumentaram a existência de apenas uma espécie central de cannabis, que eles chamaram de C. sativa. Segundo eles, a intervenção humana criou duas subespécies: C. sativa (cânhamo com baixo teor de THC) e C. indica (cannabis com alto teor de THC).

Dando mais um salto no tempo, em 2018, com as melhorias alcançadas na pesquisa científica e na infraestrutura da informação, os pesquisadores puderam analisar o DNA das plantas e, por fim, constatar que existe apenas uma espécie de cannabis.

Em artigo publicado na Cannabis and Cannabinoid Research, John M. McPartland2 aponta que, apesar da diferença morfológica, a C. sativa e a C. indica apresentam uma divergência genética muito baixa para serem consideradas espécies diferentes e sugere que a nomenclatura mais adequada seria C. sativa sativa e C. sativa indica, classificando-as como duas subespécies.

Se indica, sativa e híbrida não são preditivos de efeitos, então o que é?

Questionados pelo Leafly, os especialistas Ethan Russo e Jeffrey Raber, bioquímico que fundou o primeiro laboratório de testes independente para analisar os terpenos da cannabis em nível comercial afirmam que:

“A maneira como os rótulos sativa e indica são utilizados no comércio é sem sentido”, disse Russo ao Leafly. “Os efeitos clínicos da cannabis não têm nada a ver com o fato da planta ser alta e fina versus curta e espessa, ou se as folhas são estreitas ou largas”.

Raber concordou, e quando perguntado se os budtenders deveriam orientar os consumidores com termos como “indica” e “sativa”, ele respondeu: “Não há base factual e científica para fazer essas recomendações abrangentes, e precisa parar hoje. O que precisamos procurar entender melhor é qual a composição padronizada de cannabis está causando quais efeitos, quando administrados em quais modos, em quais dosagens específicas, a quais tipos de consumidores”.

Isto significa que nem todas as sativas serão energizantes e nem todas indicas terão efeitos sedativos. Os efeitos de qualquer cepa de cannabis dependem de vários fatores diferentes, incluindo o perfil do produto de compostos como terpenos e canabinoides, sua biologia e tolerância, dose e método de consumo.

Entender como esses fatores mudam a experiência é importante na sua busca da cepa perfeita.

Canabinoides

A planta de cannabis é composta por centenas de compostos químicos que criam uma harmonia única de efeitos, que é liderada principalmente por canabinoides. Canabinoides como THC e CBD (os dois mais comuns) são os principais fatores que influenciam os efeitos terapêutico e social (uso adulto) da cannabis.

  • THC — ou Δ9-tetraidrocanabinol — faz com que sintamos fome e efeitos associados ao uso adulto e alivia sintomas como dor, náusea e outros.
  • CBD — canabidiol — é um composto não psicotrópico conhecido por aliviar a ansiedade, dor, inflamação e muitas outras condições médicas.

A cannabis contém centenas de canabinoides diferentes, mas comece se familiarizando com o THC e o CBD. Em vez de escolher uma variedade com base em sua classificação indica ou sativa, considere basear sua seleção nos parâmetros abaixo:

  • As cepas dominantes em THC são escolhidas principalmente pelos consumidores que buscam uma experiência eufórica potente. Essas cepas também são selecionadas pelos pacientes que tratam dor, depressão, ansiedade, insônia e muito mais. Se você tende a se sentir ansioso com as cepas dominantes em THC ou não gosta de outros efeitos colaterais associados ao composto, tente uma cepa com níveis mais altos de CBD.
  • As cepas dominantes em CBD contêm apenas pequenas quantidades de THC e são amplamente usadas por pessoas altamente sensíveis ao THC ou por pacientes que necessitam de alívio com clareza mental.
  • As cepas balanceadas com níveis semelhantes de THC e CBD oferecem leve euforia juntamente com o alívio dos sintomas. Essas tendem a ser uma boa opção para consumidores iniciantes que buscam uma introdução ao consumo de cannabis.

Terpenos

Os efeitos experimentados de uma determinada cepa de cannabis estão diretamente associados à quantidade de THC e CBD, mas os terpenos — os compostos aromáticos comumente produzidos por plantas e frutas – devem ser levados em consideração. Os terpenos podem ser encontrados em flores de lavanda, laranja, lúpulo, pimenta e, claro, na cannabis.

Secretados pelas mesmas glândulas que expelem THC e CBD, os terpenos dão à cannabis aromas diversos e podem influenciar nos efeitos produzidos por cepas específicas.

Segundo o portal Leafly, existem muitos terpenos encontrados na cannabis e vale se familiarizar com os mais comuns:

Bisabolol (levomenol): com notas de camomila e óleo de ‘tea tree’, mais conhecida no Brasil como melaleuca ou árvore do chá, o terpeno bisabolol é pensado para reduzir a inflamação e irritação. Também pode ter efeitos microbianos e redutores de dor.

Cariofileno: a molécula apimentada e picante pode reduzir a ansiedade, aliviar os sintomas da depressão e melhorar as úlceras.

Eucaliptol: com notas de eucalipto e óleo de ‘tea tree’, essa molécula é refrescante e revigorante. Também pode reduzir a inflamação e combater bactérias.

Humuleno: este terpeno é profundamente terroso e amadeirado, como lúpulo ou cravo. As estirpes de cannabis com esta molécula podem reduzir a inflamação.

Limoneno: notas cítricas brilhantes e frescas vêm deste terpeno. É dito como melhorador do humor e redutor do estresse.

Linalol: diz-se que o linalol ajuda no relaxamento e a melhorar o humor com suas notas florais.

Mirceno: o terpeno mais comum na cannabis, essa molécula com notas terrosas e herbais pode ajudar a reduzir a ansiedade e a insônia.

Ocimeno: este terpeno produz notas de manjericão, manga e salsa e seus efeitos primários podem incluir o alívio do congestionamento nasal.

Pineno: como o nome sugere, esse terpeno produz um intenso aroma de pinheiro. Isso pode ajudar a aumentar a memória, reduzir a dor e aliviar alguns dos sintomas não tão agradáveis ​​do THC, como náusea e problemas de coordenação.

Terpinoleno: a cannabis com este composto pode cheirar a maçãs, cominho e coníferas. Pode ter propriedades sedativas, antibacterianas e antifúngicas.

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

#PraCegoVer: fotografia em alta resolução das partes de três folíolos, dispostos na vertical, lado a lado, das folhas de cannabis “Sativa”, “Indica” e “Híbrida”, respectivamente, com fundo em verde turquesa. Foto: THCameraphoto.

SATIVA

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

ORIGEM: a Cannabis sativa é encontrada principalmente em climas quentes e secos, com longos dias de sol, como na África, América Central, Sudeste Asiático e partes ocidentais da Ásia.

DESCRIÇÃO DA PLANTA: as plantas sativa são altas e finas, com folhas semelhantes a mãos (com os dedos representados pelos folíolos). Elas podem ficar mais altas que 3,5 metros e levam mais tempo para amadurecer do que alguns outros tipos de cannabis.

PROPORÇÃO DE CBD PARA THC: a sativa geralmente apresenta doses mais baixas de CBD e doses mais altas de THC.

EFEITOS: sativas geralmente produzem um efeito de “mente alta” ou energizante, que reduz a ansiedade. Se você usar cepas dominantes em sativa, pode se sentir produtivo e criativo, e não relaxado e letárgico.

USO DIURNO OU NOTURNO: devido ao seu impacto estimulante, você pode usar sativa durante o dia.

STRAINS POPULARES: três strains sativas populares são Acapulco Gold, Panama Red e Durban Poison.

INDICA

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

ORIGEM: a cannabis indica é nativa do Afeganistão, Índia, Paquistão e Turquia. As plantas se adaptaram ao clima geralmente severo, seco e turbulento das montanhas Hindu Kush.

DESCRIÇÃO DA PLANTA: as plantas indica são curtas e atarracadas, com folhagem espessa e folhas grossas que crescem largas e amplas. Elas crescem mais rápido que as sativas, e cada planta produz mais brotos.

PROPORÇÃO DE CBD PARA THC: cepas indicas geralmente apresentam níveis mais altos de CBD e menos THC.

EFEITOS: as indicas são mais procuradas por seus efeitos intensamente relaxantes. Também podem reduzir náuseas e dores e aumentar o apetite.

USO DIURNO OU NOTURNO: devido aos seus efeitos relaxantes, uma cepa indica é melhor consumida à noite.

STRAINS POPULARES: três strains indicas populares são Hindu Kush, Afghan Kush e Granddaddy Purple.

HÍBRIDA

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

ORIGEM: a cannabis híbrida foi criada a partir do cruzamento de plantas sativas e indicas. Acredita-se que a maioria das cepas referidas como “Indica” ou “Sativa” são, de fato, plantas híbridas com genética herdada de ambas as subespécies e são tipicamente cultivadas em fazendas ou estufas.

DESCRIÇÃO DA PLANTA: a aparência das plantas híbridas depende da combinação das plantas progenitoras.

PROPORÇÃO DE CBD PARA THC: as cepas híbridas de cannabis são cultivadas na busca de uma maior porcentagem de THC, mas cada tipo tem uma proporção única dos dois principais canabinoides.

EFEITOS: as híbridas são selecionadas por seus impactos únicos. Eles podem variar da redução da ansiedade e o estresse ao alívio dos sintomas da quimioterapia ou radioterapia.

USO DIURNO OU NOTURNO: dependerá dos efeitos predominantes da cepa.

STRAINS POPULARES: as híbridas são tipicamente classificadas como predominâncias indica ou sativa ou equilibrada. As strains populares incluem Pineapple Express, Blue Dream e OG Kush.

RUDERALIS

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

ORIGEM: existe um terceiro tipo de Cannabis, a cannabis ruderalis, no entanto não é amplamente utilizado, pois em geral não produz efeitos potentes. As plantas ruderalis se adaptam a ambientes extremos, como Europa Ocidental, regiões do Himalaia, Índia, Sibéria e Rússia. Essas plantas crescem rapidamente, o que é ideal para os ambientes frios e com pouca luz solar.

DESCRIÇÃO DA PLANTA: essas plantas pequenas e espessas raramente crescem mais do que 30 cm, mas crescem rapidamente. Pode-se ir da semente à colheita em pouco mais de um mês.

PROPORÇÃO DE CBD PARA THC: esse tipo geralmente possui pouco THC e quantidades maiores de CBD, mas pode não ser o suficiente para produzir os efeitos desejados.

EFEITOS: devido à sua baixa potência, a ruderalis não é usada rotineiramente para fins medicinais ou uso adulto.

USO DIURNO OU NOTURNO: por ter poucos efeitos, pode ser utilizada a qualquer momento.

STRAINS POPULARES: por si só, a ruderalis não é uma opção popular de cannabis, no entanto, os produtores de cannabis podem criar ruderalis combinadas com outros tipos de cannabis, incluindo indica e sativa. O rápido ciclo de crescimento da planta é um atributo positivo para os produtores, portanto, eles podem combinar cepas mais potentes com cepas de ruderalis para criar um produto mais desejável.

AFINAL, QUAL É A MELHOR? 

A resposta para a pergunta acima é: depende. A cannabis é uma experiência pessoal, e como você a seleciona também.

A primeira coisa a fazer na hora da escolha é definir alguns parâmetros focados na experiência que se deseja ter. Como vimos acima, as nomenclaturas podem se misturar e antes de escolher a variedade é melhor você saber o que pretende sentir ou tratar, isso ajudará a restringir as opções. Converse com um especialista em usos terapêuticos sobre suas metas, seja para tratar insônia, reduzir a ansiedade, aumentar as energias ou controlar uma condição como epilepsia, Alzheimer ou Parkinson.

Outras dica válida é entender a sua tolerância. Algumas cepas, como a Pineapple Express, são consideradas “de entrada”. Seus efeitos são tipicamente leves e toleráveis, cepas com níveis mais altos de canabinoides podem ser muito potentes para um(a) consumidor(a) iniciante. E sempre, sempre considere seu histórico médico. Embora natural, a cannabis pode causar efeitos intensos. Antes de experimentar é necessário considerar possíveis interações com suas condições médicas e medicamentos existentes. Em caso de dúvida, pergunte a um médico ou outro profissional de saúde sobre seus benefícios e riscos potenciais.

Estas informações destinam-se a fornecer uma perspectiva sobre quais qualidades procurar em uma subespécie ou cepa de cannabis.

¹Ethan Russo é doutor em medicina (MD), neurologista certificado, pesquisador em psicofarmacologia e diretor médico da Phytecs, uma empresa de biotecnologia que pesquisa e desenvolve abordagens inovadoras voltadas para o sistema endocanabinoide humano.

2John M. McPartland é professor assistente na Universidade de Vermont, EUA, e pesquisador do Departamento de Biologia Molecular da GW Pharmaceuticals.

Fontes consultadas: Botanical Society of America, Health Line, LeaflyMedical News Today, Weedmaps
Fotografias: Health Line / THCameraphoto.

#PraCegoVer: em destaque, fotografia em alta resolução das partes de quatro folíolos, dispostos na vertical, lado a lado, das folhas de cannabis “Sativa”, “Indica”, “Ruderalis” e “Híbrida”, respectivamente, com fundo em verde turquesa. Foto: Thcamera.photography.

lazy placeholder Cannabis Indica, Sativa, Híbrida e Ruderalis: quais as diferenças?

Sobre Smoke Buddies

A Smoke Buddies é a sua referência sobre maconha no Brasil e no mundo. Aperte e fique por dentro do que acontece no Mundo da Maconha. https://www.smokebuddies.com.br
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!