Cannabis e o direito à inteligência

quarentena Cannabis e o direito à inteligência

A proibição da planta é uma grande burrice histórica, que prejudica todo mundo no fim das contas

Uma das maiores virtudes do ser humano é a capacidade de pensar e chegar a conclusões racionais. Claro que essa premissa serve para no máximo metade dos sapiens, já que o restante tem a inteligência de uma capivara e não contribui para a evolução da espécie. No debate sobre a regulamentação da cannabis, a estupidez que assola boa parte do país fica ainda mais explícita. Apesar de tanta informação de qualidade disponível, algumas opiniões sobre o uso da planta parecem ter sido retiradas do fundo do baú de alguma masmorra medieval.

Uma convicção peculiar vem de gente que se acha esclarecida, mas cautelosa. Nesse contexto, não é raro ler ou ouvir que o cultivo medicinal da cannabis deve ser autorizado, contanto que o paciente já tenha tentado todos os tratamentos alopáticos disponíveis para seu caso, sem sucesso. Noutras palavras, o sujeito precisa ter sofrido como um cão e se intoxicado horrores para fazer jus à terapia natural. Precisa ter arriscado a própria vida numa desventura pela big pharma e saído vivo para contar a história. E não é exagero meu.

Leia também: Expectativa x realidade da maconha no Brasil

O tratamento convencional de dores crônicas, por exemplo, é feito à base de analgésicos, notadamente os opioides, que provocam milhares de mortes por ano em todo o mundo. No Canadá, onde a cannabis é legalizada, os opioides matam mais que a cocaína e a heroína juntas, e estão ligados a mais de dezesseis mil mortes anuais nos Estados Unidos. Já no Brasil, nos últimos anos houve um volume crescente nas prescrições e vendas desse tipo de analgésico, pulando de aproximadamente 1,6 milhão de receitas em 2009 para 9,04 milhões em 2015, um temerário salto de 465%. É a crônica de uma tragédia anunciada.

Por outro lado, a cannabis é um potente analgésico, sem efeitos deletérios. É uma planta consumida pelo menos desde 2.300 a.C., e não há um registro oficial de morte por overdose. Mas nada disso importa para o sabichão pseudo-humanista. Ele sempre dirá que ainda não existem estudos conclusivos sobre a cannabis, e que é um risco à saúde do paciente ele produzir o próprio remédio sem qualquer tipo de controle ou fiscalização estatal.

Leia também: Vende-se maconha

Se sob o ponto de vista medicinal a cannabis ainda é vilipendiada das formas mais covardes, no âmbito recreativo não é diferente. O tiozão pé de cana está sempre disposto a apontar o dedo para o maconheiro, sentindo-se um querubim imaculado. Mal sabe ele que o álcool, amplamente difundido e publicizado, é a mais nociva das drogas populares da atualidade, e causa mais danos físicos e sociais do que a heroína, o crack, a metanfetamina, a cocaína, o tabaco, a anfetamina e a maconha, nessa ordem. Não importa, para o tiozão a maconha não pode ser liberada de jeito nenhum.

Existem algumas causas que explicam esse esdrúxulo fenômeno de negação, como a falta de informação. Mas há também a invencível burrice, um dos maiores defeitos da raça humana. Uma pessoa burra é aquela que provoca mal a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter nenhuma vantagem para si mesma — ou até mesmo se prejudicando. Para ela, a única coisa importante é a própria convicção.

Mas a convicção é inimiga da verdade, mais do que a mentira. Se liga, tio vacilão.

Leia também:

No circo da maconha, o palhaço é você

#PraTodosVerem: foto que mostra uma folha de maconha, com sete pontas (folíolos) serrilhadas que partem de sua base, em fundo infinito de cor rosa-pastel. Imagem: THCamera Cannabis Art.

 Cannabis e o direito à inteligência

Sobre Leonardo Padilha

Leonardo Padilha é advogado canabista, jornalista e especialista em educação. leonardopadilha.advogado@gmail.com
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!