Cannabis É Maconha Sim!

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O que menos precisamos no momento são rupturas e discriminação de termos cunhados para ilustrar uma única planta. Goste ou não, guarde o seu preconceito, pois Cannabis também é Maconha

Há mais de dez anos nesta peleja de informar, argumentar, pautar, promover e debater atos, situações e provisões legais para a regulação do uso e venda de maconha, ainda vemos em pleno 2021 tentativas frustradas de maquiar a maconha como cannabis.

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Um quê de racismo histórico

O que muitos podem não conhecer, ou fazem por onde, já que alguns minutos de busca no Google resolvem a questão, é a história da proibição da maconha no Brasil e pelo mundo.

Para uma breve elucidação, vale lembrar que, há muitos anos, muito antes dessa história de cannabis e todos os estudos que já ocorrem há algumas décadas, em uma ponta tínhamos homens brancos, ricos e racistas, que divisavam as pessoas da outra ponta, em geral homens e mulheres negros, como pessoas que deveriam continuar sendo castigadas e criminalizadas por conta do fumo d’angola, pito do pango — no Brasil — ou “la marihuana” dos mexicanos, como era chamada pelos estadunidenses que também usavam deste artifício para perseguir os imigrantes. A maconha foi o estopim para a perseguição e a manutenção de uma política proibicionista, racista e higienista pautada na guerra às drogas.

Segundo documento oficial do Ministério das Relações Exteriores, de 1959, “a planta teria sido introduzida em nosso país, a partir de 1549, pelos negros escravos, e as sementes de cânhamo eram trazidas em bonecas de pano, amarradas nas pontas das tangas”.

Em síntese, sabe-se que a planta não é nativa do Brasil. São inúmeros registros que falam sobre os usos de cannabis entre os escravizados africanos. Nos canaviais nordestinos existia o uso, principalmente no período de entressafra, daquilo que eles chamavam de “makana”, “diamba”, “liamba”, “pango” ou simplesmente “fumo d’angola”.

Entretanto, conhecer a erva não era uma exclusividade dos escravizados, afinal, em 1500, as velas e cordames das Caravelas e Naus portuguesas já eram de cânhamo.

Ma’kaña – A origem

Muitos descrevem, com pouquíssimo embasamento histórico, que o anagrama de C – A – N – H – A – M – O possa ter dado origem à palavra MACONHA.

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Etimologicamente,  prefiro crer na versão de que, apesar da ideia do anagrama encaixar muito bem, a palavra Maconha é uma referência ao termo original em Quimbundo — língua Banta, falada em Angola. O quimbundo emprestou muitas palavras e vocábulos à língua portuguesa utilizados até hoje, como Mvúka / Muvuca, Kazuli / Caçula, Mu’leke / Moleque, Kitanda / Quitanda, Makumba / Macumba, Kixima, que quer dizer Cachimbo, e quiçá a Ma’kaña / Maconha.

κάνναβις

Do grego κάνναβις (kánnabis), em latim Cannabis, que é originário das línguas citas ou do trácio. O termo está ligado com a palavra persa Kanab.

Em hebraico moderno, קַנַּבּוֹס qannabōs é usado, mas מַעֲלֶה עָשָׁן maʿăleh ʿāšān (portador de fumo) é o termo antigo. Os termos qunnabtu, do acadiano antigo, e qunnabu, do neoassírio e neobabilônico, eram os vocábulos usados para se referir à planta e que significam “uma maneira de produzir fumaça”.

Na botânica, a cannabis e suas subespécies, plantas da família Cannabaceae, foram descritas pela primeira vez por Carolus Linnaeus, daí o L. ao fim do nome nos estudos e ensaios, Cannabis sativa L.

Já em leis, projetos de leis e outros atos regulatórios, é bem comum vermos a maconha e o cânhamo serem descritos como Cannabis spp.

Entre as origens dos termos para os usos botânico, científico, industrial, jurídico, político, popular e até religioso, a única coisa certa é de que, respeitando suas diferenças biológicas, todas, sem exceções, são a mesma planta, independente do uso e da finalidade.

Pra que essa de separar o “Joio do Trigo”

A história das regulações da maconha/cannabis pelo mundo em geral não tem foco nos usos industrial e adulto. Em prática, as leis evoluem primariamente pelo uso medicinal/terapêutico dos canabinoides —substâncias extraídas da maconha, ou cannabis — como preferir chamar.

Mas o que muitos omitem, esquecem ou até desconhecem é que o estopim de muitos movimentos originários de marcos regulatórios foi aceso por pessoas que obtiveram benefícios na saúde cultivando e produzindo caseiramente seus remédios e extratos de maconha. Sem muito separatismo de termos, foi e é assim em várias partes do mundo.

Por aqui, como já descrito no artigo “a maconha no Brasil: uma breve história do legal ao ilegal” e diante de tudo que vivenciamos por conta da fracassada política de guerra às drogas, temos uma dívida histórica com toda a população negra que continua sendo ceifada, em nome do combate ao tráfico de drogas, que domina o comércio de maconha.

Não por coincidência, a palavra maconha e termos como maconheiro são empregados de forma pejorativa em nossa sociedade. O que muitos ainda podem desconhecer é que foram os maconheiros que levaram, desde os anos 80, sob muita repressão, a luta e a evolução do debate sobre o tema até as casas legislativas e ao Supremo Tribunal Federal.

Volto a frisar, julguem como quiser, a onda da “Cannabis Medicinal” ou uso terapêutico da maconha ganhou visibilidade graças à proposta de sugestão para a regulamentação da maconha para os usos adulto, medicinal, industrial e religioso — a SUG8 — onde, na terceira audiência pública, pacientes e seus representantes expuseram condições de difícil controle que passaram a ser tratadas de forma eficaz com os extratos de maconha.

Junto a isso iniciou-se uma união dos movimentos sociais pró-legalização, como as Marchas da Maconha por todo o país, para amparar e dar visibilidade aos pais e pacientes em meio aos atos e ações. Foram estes também, os usuários de maconha, em grande parte cultivadores caseiros, que compartilharam com as associações, pais e pacientes conhecimentos e técnicas de cultivo, alguns que, mesmo sob risco de prisão, cultivam até hoje para muitos que se beneficiam do uso terapêutico de remédios à base de maconha.

Desde 2014, vemos muitas pessoas, marcas e até portais especializados levantarem a bandeira de “Cannabis não é maconha” ou “CBD não é maconha”, e, mesmo com as ‘melhores intenções’, sustentando, como a parábola do Joio e do Trigo, que a maconha é má e a cannabis é boa. Quase um Ruth vs Raquel, gêmea boa e gêmea má.

O que muito se sustenta para essa separação é a argumentativa de que a maconha é prejudicial, já que devido à proibição sua forma comercial mais popular é o prensado paraguaio — que realmente é repleto de impurezas e aditivos que podem causar danos quando comparado à maconha legal vendida nas farmácias uruguaias. Entretanto, junto a esse discurso se sustenta a criminalização dos consumidores adultos de maconha e uma guerra que segue vitimando quem nem é consumidor de maconha, cannabis, prensado ou como queiram chamar. Além disso sustenta o preconceito social com o consumo, da forma que for, da planta como um todo.

Se hoje a ‘Má’conha “é uma mistura de coisas, um mato cheio de química que o tráfico entrega por aí”, como recém dito, é por conta do proibicionismo e da ignorância. A cannabis prensada, afinal, antes de ser prensada, é uma planta como as das quais se extraem os óleos e extratos. Sem controle e todas as benesses que a regulação proporciona ao consumidor, as incertezas sobre o que está consumindo, se é algo que pode ser prejudicial à saúde, são reais. E ainda assim, muitas vezes, esse é o único meio através do qual pacientes de várias condições conseguem alívio, ao vaporizar e até mesmo fumar a planta.

Ou seja, tal como maconha é cannabis, o seu consumo, além dos óleos e extratos, também é terapêutico. Você não pode se manter no engano porque alguns querem ditar a narrativa do que é mais “socialmente aceitável” e será visto com menos preconceito.

Não se derruba preconceito e injustiças gerando mais preconceito por conta da terminologia desejada. Por todas as vidas negras e pobres, e pelo fim das injustiças: Maconha é Cannabis! Reflita!

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#PraTodosVerem: Fotografia em close-up do top bud de uma Purple Buddah Kush, onde vários pistilos de cor creme se destacam entre ‘sugar leaves’ rajadas de roxo. Foto: THCamera Cannabis Art.

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.
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