Cannabis e depressão: potenciais e riscos

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O texto de estreia da coluna do Girls in Green na Smoke Buddies aborda questões fundamentais sobre cannabis e a depressão, confira

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Pé de cannabis em desenvolvimento. Foto: Girls in Green.

Tristeza que não passa, angústia, falta de interesse nas atividades que antes eram tão amadas — todas essas podem ser as faces da depressão. A gente sabe o quanto é difícil falar sobre isso abertamente: familiares, afetos e mesmo nossos amigos mais próximos podem não entender o que se passa, o que pode aumentar ainda mais aquela sensação de isolamento. De estar só. Mas você não está, e é por isso que resolvemos abrir essa conversa por aqui.

O estigma sobre esse assunto misterioso é grande, mas a necessidade de trabalhar o tabu e conversar sobre ele de uma maneira muito mais aberta é maior ainda. Diferente das mudanças de humor e tristezas que todos nós experimentamos na vida (sim, isso é normal), a depressão é cruel — e pode ser um desafio ter suas crises sanadas sem o tratamento adequado.

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A automedicação é uma questão complexa e que precisa de atenção, seja com antidepressivos ou com cannabis e outras substâncias psicoativas. Vamos tocar nesse assunto mais adiante no texto.

Para conversar conosco, chamamos o médico psiquiatra e redutor de danos Rafael Baquit. Em uma live, batemos um papo sobre esse questão, suas relações com a cannabis, e também sobre a ansiedade — transtorno muito relacionado a ambas as temáticas.

E aí? Vamos descobrir como a cannabis pode ajudar e quais são os riscos nessa situação? A gente te mostra aqui!

Ansiedade, depressão e conceitos

Antes de tratar a ansiedade e a depressão, é preciso conhecê-las. Segundo nosso redutor de danos e médico favorito, essas doenças não têm um conceito duro, pois não acontecem apenas de uma maneira. As duas coisas podem também partir de estados normais, inerentes à experiência de existência do ser humano.

“Em parte, a ansiedade é normal e necessária; é nosso estado de alerta, de se antecipar. É importante até para nossa sobrevivência”. Ao mesmo tempo que é uma chave fundamental para a sobrevivência, na sociedade moderna tornou-se um transtorno. De acordo com o médico, alguns sintomas físicos, que vêm da somatização desse sentimento, são:

  • Medo excessivo sem razão específica, como fobia;

  • Sintomas obsessivos;

  • Tremor;

  • Falta de ar;

  • Dor de barriga.

A ansiedade, na nossa sociedade moderna, também tem muito a ver com o contexto no qual os indivíduos vivem, com as questões estruturais, os conflitos, traumas, o entorno e seus determinantes sociais.

A depressão é um assunto sério e pouco reconhecido: categorizada como um dos males do século, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Ainda de acordo com o órgão, o distúrbio é a principal causa de incapacidade no planeta, e contribui de forma importante para a carga global de doenças. As mulheres são mais afetadas que homens e, no pior dos casos, a depressão ainda pode levar ao suicídio.

O distúrbio também tem um paralelo do que é uma dor normal e do que é a doença em si. Para Rafael, uma das situações que vivemos que pode se assemelhar ao estado da depressão é o luto, acarretado pela perda de algo ou alguém muito importante — e pode ter a ver com uma perda real ou até simbólica. Ela pode ir de sintomas físicos, como mudanças no apetite e no sono, e pode ser tão grave e debilitante a ponto da pessoa não conseguir levantar da cama. Mas entender quando isso pode ser um sintoma de um sofrimento mais profundo pode ser superdesafiador…

O sofrimento psíquico pode se dar de várias formas, por isso que não faz sentido falar apenas de depressão e ansiedade.

Qual ponto é o limite?

“Sofrimento é inevitável. Somos seres apegados, então a gente sofre. Todo mundo sofre, e a gente fica arranjando formas de lidar com o nosso sofrimento. […] Mas o sofrimento é uma coisa, e o adoecimento é outra”.

A visão do psiquiatra é que um grande ponto de alerta é quando nosso sofrimento passa a nos prejudicar, nos afastando de atividades que gostamos, e até mesmo de hábitos diários. Quando nossa tristeza nos coloca em risco, podemos estar experienciando um episódio depressivo. 

Para ele, uma visão interessante na psiquiatria é aproximar a experiência do indivíduo e de sua vivência, ao invés de trazer um diagnóstico fechado, baseado apenas em sintomas isolados. Essa conversa ajudaria a criar uma narrativa e a elaborar essa dor, para entendê-la, compreender seus gatilhos, e não apenas suprimi-la com o uso de medicação — embora ela, ainda assim, seja um passo muito importante, principalmente em casos graves.

Nem depressão e nem ansiedade são “frescura”

Existem muitas pessoas que ainda têm um pensamento mais fechado, que não aceitam a depressão como um distúrbio real. Mas vamos lembrar que:

  • Depressão não é preguiça;

  • Depressão não é falta de deus ou de religião;

  • Qualquer um pode desenvolver a depressão, em qualquer fase da vida;

  • A depressão merece (e precisa) ser tratada.

Os tratamentos para a depressão não são únicos, mas conjuntos de terapias e experiências que podem ser benéficas para o organismo. Várias práticas já se mostraram eficientes para ajudar durante episódios de crise ou em casos de uma situação de depressão mais crônica: exercícios físicos, cuidado com a alimentação, medicações específicas, psicoterapia e acompanhamento médico são algumas das principais indicações. Como falamos no início do post, a automedicação é algo que temos que ter cuidado, é sempre bom estar acompanhado de um médico nesse processo de ingestão de substâncias que tenham efeitos intensos no nosso organismo!

Cannabis como instrumento terapêutico

“A medicina nunca conheceu algo desse nível. A questão é que temos uma planta com centenas de substâncias, que não são apenas psicoativas, e temos o sistema endocanabinoide, que regula todas as funções do corpo — a homeostase. Mexem na raiz, no equilíbrio do corpo.”

É preciso pensar na cannabis como um possível suplemento, e não remédio. “Temos milhares de variações genéticas (de cannabis). O problema é quando ainda não se sabe, não se sabe muito bem, como a combinação funciona de maneira melhor. Se sabe muito pouco, mas é um potencial extraordinário”. O médico deixa evidente que é preciso pensar o adoecimento de uma forma crítica. “O tratamento é um processo, é um conjunto de coisas, não pode ser apenas uma planta. A cannabis medicinal tem um potencial extraordinário, e a medicina vai estudar ainda mais e descobrir ainda mais sobre isso”.

Existem, no mundo, pesquisas que mostram o potencial do CBD como um agente no tratamento da depressão. Observamos um crescimento no interesse clínico pela cannabis, em um uso regulado, como agente no tratamento da depressão, da ansiedade e de vários outros distúrbios. Mas isso não significa que a gente não tenha que tomar certo cuidado, nem consumir a erva achando que ela pode ser a solução dos nossos problemas!

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Cookies and Cream — altos níveis de THC e CBG. Foto: Girls in Green.

Ansiedade e a cannabis

Rafael conta um pouco da história da cannabis no Brasil para contextualizar um pouco a relação da substância com a ansiedade:

“Até os anos 80, a gente tinha a maconha solta, lá da região do Cabrobró. Nos anos 80, começou a rolar toda uma repressão, e dessa forma foi encolhendo toda nossa distribuição, e foi aí que começou a chegar o prensado. No Nordeste, até hoje ainda tem. E a maconha prensada tá em todo o território nacional, é a principal maconha no país, e a gente sabe que ela tem um efeito forte. É uma maconha provavelmente mais forte, com mais THC, e estragada, sabe-se lá os efeitos da degradação de tudo. O fato é que maconha solta é com baixas quantidades, e a prensada tem mais THC.”

Segundo o médico, a relação do THC com a ansiedade é muito interessante. Conforme você vai aumentando a dose do THC, vai aumentando a possibilidade de aparecerem sintomas de ansiedade. A forma como se usa a cannabis também pode ser a chave nisso tudo: a cannabis solta, em flor, costuma ter menores índices de THC do que o prensado.

THC demais gera ansiedade. Mas precisamos lembrar do entourage effect, o efeito comitiva: a reação do seu organismo à cannabis se dá de acordo com a relação entre os canabinoides presentes na erva, os terpenos, e demais substâncias. Para o médico, por essa razão, não é tão interessante falar apenas do CBD ou do THC, já que, juntos, eles ajudam a suprimir os efeitos negativos um do outro.

“Eu acho que coisa mais importante é a nossa autonomia, nossa capacidade de gerenciar as drogas na nossa vida. É isso que fazemos com a Redução de Danos.”

Sintomas de depressão agravados por uso de cannabis

“É comum acontecer, como psiquiatra clínico, que acompanha muita gente que usa cannabis, eu vejo isso. De fato, a cannabis costuma piorar os estados depressivos. Mas isso também tem muito a ver com a proibição. Saber o que se tem na cannabis é o mais adequado, além da forma que a gente usa. Se tivesse na farmácia, seria um pouco diferente”.

Segundo Baquit, nem tudo são flores (ainda mais no proibicionismo, onde quase tudo é, literalmente, prensado). Na situação que vivemos, não temos como saber a quantidade exata de canabinoides e o perfil do que consumimos, o que dificulta até mesmo os testes com a cannabis. Em outros países, onde a substância já é legalizada, existem muitos casos de pessoas que tratam distúrbios psiquiátricos com óleos e extratos — com acompanhamento. Mas fica muito difícil de replicar esse modelo na nossa realidade.

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Cookies and Cream Bubble Hash — altos níveis de THC e CBG. Foto: Girls in Green.

Temos pesquisas que mostram que o THC, em pequenas dosagens, é um ótimo antidepressivo — mas que em grandes quantidades pode ter o efeito reverso. Ou seja: o segredo está exatamente na dose. Entretanto, como ter esses dados em um país cuja demanda pela cannabis é sanada quase que exclusivamente pelo tráfico?

Bom, quem sabe num futuro próximo, né?

Outro grande problema é a compulsividade. A depressão pode levar o usuário a um comportamento obsessivo, no qual ele usa a cannabis de uma maneira com menos controle. De acordo com uma pesquisa americana, existem evidências de que indivíduos com depressão têm o dobro de chances de passar a consumir a cannabis de forma regular, ignorando seus riscos — algo que pode se tornar prejudicial.

Com a cannabis não é diferente: é necessário passar por períodos de reflexão sobre o seu uso, dosagem e frequência. Segundo estudos, o uso agudo e crônico de cannabis pode implicar em dificuldade de adesão aos tratamentos, e levar a uma piora em quadros de transtornos afetivos — como depressão e bipolaridade.

Convite ao cuidado

Tá fumando demais? A cannabis é a única coisa que faz sentido? Pode ser o momento de pedir ajuda. Durante a pandemia de Covid-19, dados mostram que os problemas como ansiedade e depressão apenas se agravaram. Se esse é o seu caso, ou o caso de algum amigo, familiar ou qualquer pessoa que você se importa, é interessante abrir esse diálogo. Reconhecer que há um problema é o primeiro passo para melhorar — e existem muitas e muitas abordagens e formas de tratamento para a depressão.

Hoje, existem muitas formas de encontrar um profissional que pode ajudar. Além dos terapeutas particulares ou por convênios, que podem estar fora da realidade de grande parte da população, temos centros de atenção psicossocial pelo SUS e atendimento social para pacientes em situação de vulnerabilidade. Procure. Se informe. O que não vale é ficar nessa. A gente sabe o quanto é difícil, mas sempre pode melhorar!

Centro de Valorização da Vida (CVV) — ligue para 188.

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#PraTodosVerem: fotografia de capa mostra o top bud de uma planta de cannabis da variedade Cookies and Cream, em desenvolvimento, onde pistilos marrons e cremes são vistos no topo. Crédito: Girls in Green.

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Sobre Girls in Green

O Girls in Green é um projeto feito por mulheres canábicas, focado na produção e disseminação de conteúdo digital acessível, livre de julgamentos e tabus, abordando temas como maconha, uso de drogas, cultivo, haxixe e política - sempre sob a ótica da Redução de Danos. O principal objetivo do canal é combater o estigma e a desinformação resultantes da Guerra às Drogas.
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