Brasileira conta como é trabalhar com cannabis no Canadá

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Educadora canábica em Vancouver, no Canadá, Luna Vargas explica a rotina, a remuneração e as vantagens da experiência profissional como budtender em uma loja de maconha

“O nosso trabalho é basicamente prever o que a pessoa vai sentir com o produto que a gente vende”, Luna Vargas resume, em uma frase, a função do budtender, ou consultor de cannabis, ofício da emergente indústria regulamentada de maconha do Canadá, da qual a goiana de 36 anos faz parte.

Antropóloga e educadora canábica em Vancouver, onde foi morar há cerca de dois anos, quando começou a trabalhar como budtender em uma loja, Luna Vargas acompanha de perto o processo de regulamentação do mercado de cannabis no país, que legalizou o uso adulto em outubro de 2018 e, desde então, vem acumulando (não sem percalços) recordes em vendas, arrecadação de impostos e criação de empregos.

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Considerado essencial durante a pandemia de Covid-19, o setor de cannabis ostenta a marca de CAD$ 850 milhões de vendas em lojas licenciadas até maio de 2020 e tem a expectativa de ultrapassar CAD$ 2 bilhões até o fim do ano, segundo a StatsCan, que monitora dados do mercado no país. Se onde há fumaça, há beck, onde há demanda, há uma cadeia de empresas e profissionais dedicados a atender os consumidores.

“E toda a cadeia produtiva para, em algum produto, na mão do budtender”, diz Luna. “E o budtender tem a experiência de lidar com o público que nenhuma das empresas que produzem têm, o que faz com que seja esse link importante entre a produção e a população”.

Na ponta do varejo

O nome em inglês que deriva da junção entre bud e bartender sugere que o atendimento em uma loja de cannabis seja o mesmo do que rola em um bar. Mas, de acordo com Luna, a função de quem atende consumidores de maconha no Canadá pode muito bem ser associada à de quem trabalha atrás de outro balcão: o da farmácia.

“Eu sempre falo que o budtender está em uma encruzilhada, entre o serviço de varejo, esse que é bem comum, de qualquer loja, e também o de farmacêutico”, diz a brasileira.

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#PraCegoVer: fotografia mostra, à direita, o balcão de madeira da loja City Cannabis, em Vancouver, Canadá, onde a brasileira Luna Vargas trabalhou como budtender. Nele, potes de vidro trancados, dispostos ao longo de toda extensão do longo móvel, armazenam flores de cannabis. Ao fundo, uma parede com o logo da empresa e o caixa. Imagem: Arquivo Pessoal | Luna Vargas.

Não que a indústria de varejo de cannabis do país esteja ligada à Big Pharma, pelo contrário. Mas é que as lojas de maconha, conhecidas como “dispensaries”, são o lugar onde os canadenses compram a planta in natura e seus derivados, para uso social ou terapêutico, sem a necessidade de prescrição. E, muito embora os atendentes não sejam permitidos, por lei, a dar conselhos médicos, são eles que acabam tendo de lidar, na ponta do varejo, com pessoas que buscam instruções e dicas de como usar a cannabis para aliviar seus sintomas. “Inclusive, tem médicos que vão na loja para poder perguntar como se usam aquelas coisas”, ela completa.

“Eu diria mais de 90% das pessoas que vão numa loja estão procurando esse auxílio médico. Há pessoas com câncer, com Parkinson, mas principalmente questões relacionadas à depressão, ansiedade e problemas para dormir. Isso é o que a gente mais atende”, conta.

Para começar

“Normalmente, as pessoas compram o que o budtender indica. A gente está trabalhando o dia inteiro com os produtos, as pessoas não conhecem, as marcas são novas, então vão comprar o que a gente falar. E isso com certeza”, diz Luna.

A inegável influência do budtender na escolha final do cliente faz deste profissional uma peça estratégica na emergente indústria canábica legal. Isso não se traduz, porém, na valorização do trabalho: com média de remuneração que corresponde à base salarial do país, budtenders ganham cerca de CAD$ 15 por hora, e chegam a atender até cem clientes em uma cansativa jornada diária.

“Eu acho que essa função é menosprezada no mercado, porque as pessoas ganham muito mal, e é uma função extremamente importante” e, nas palavras de Luna, “uma experiência maravilhosa para qualquer um que quiser entrar no mercado da cannabis”.

Com um processo seletivo que não exige qualificação formal prévia, mas desenvoltura com o público e o mínimo de conhecimento sobre a maconha, além de um atestado de antecedentes criminais obrigatório em toda a indústria canábica canadense, a posição de budtender requer, na prática, muita disposição e simpatia – ideal para brasileiros em busca de trabalho no Canadá.

“O processo seletivo é bem simples”, diz a educadora. “Mas precisa de um conhecimento básico. Saber conversar de cannabis, falar por que você gosta de cannabis, por que gostaria de trabalhar na loja. Às vezes, pedem para simular uma venda, para ver se você tem experiência com varejo, se consegue atender uma pessoa”.

E se alguém pensa que essa experiência profissional pode prejudicar as chances ou a perspectiva de futuro de estrangeiros que buscam fixar raízes no país, a brasileira é prova do contrário. “Tem gente que tem dúvida, quer tirar um (visto) residente permanente e quer saber se pode trabalhar com cannabis, e isso é tranquilo”, diz Luna. “Trabalhar com cannabis aqui é como trabalhar em qualquer emprego, você tem os mesmos direitos e não há distinção para o governo ou para os órgãos federais canadenses”.

A rotina

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#PraCegoVer: Fotografia mostra atendente da loja de cannabis Village Bloomery atrás de um balcão onde se lê o nome da loja. segurando uma sacola. Imagem: Arquivo Pessoal | Luna Vargas.

 

“Quando um budtender entra para trabalhar, normalmente tem um iPad com um sistema que tem todos os produtos da loja”, explica Luna, que atualmente atua na área de treinamento e educação de profissionais do varejo, além de ser responsável pela pesquisa e curadoria dos produtos. “Só de flor, a gente tem pelo menos uns 50 tipos na loja, então você tem que decorar os nomes, as porcentagens, e experimentar”.

Em pé por cerca de oito horas diárias, inclusive nos fins de semana, atendendo clientes de todo tipo, a rotina de quem trabalha em uma loja de maconha não é, com perdão do trocadilho, apenas flores.

“É um serviço super cansativo. É o mesmo serviço de vender roupa no shopping, ou um trabalho desses de varejo, então você fica em pé muito tempo”, descreve Luna. “Normalmente, tem um intervalo de almoço de meia hora e um período de quinze minutos de intervalo. No começo, o desgaste físico é grande”.

Além da habilidade de memorizar os produtos e da exigência física que o trabalho pede, budtenders precisam ainda de mais uma qualidade, a interpessoal. “O trabalho é basicamente atendimento, você tem que lidar, conseguir ouvir, entender a história e achar um produto que a pessoa vai se sentir bem, e depois disso você tem que falar para ela como usar”, explica Luna. “Você vai lidar com gente super arrogante, coisa de varejo em geral. Gente preconceituosa, gente mal educada, gente que está com dor, e sem paciência, então você tem que saber ler as pessoas, isso é uma coisa bem importante”.

As vantagens

Se, a esta altura, o sonho de viver vendendo maconha no Canadá já não parece tão atraente como antes, saiba que a função de budtender pode ser bem interessante por muitas razões. “É super gratificante, na minha opinião”, diz Luna. “Eu fico muito feliz de ver as pessoas deixando de usar produtos farmacêuticos, vendo os benefícios do uso da cannabis, agradecendo pela indicação que funcionou para elas”.

A parte mais divertida do trabalho, porém, é experimentar os produtos, ter acesso às novidades e conhecer os atores e processos da cadeia de produção, desde o plantio até a prateleira. “A gente tem samples [amostras] nas lojas, as marcas às vezes dão. Teoricamente não é permitido por lei, mas não tem como você vender o que não conhece, e o salário é muito baixo para você comprar todos os produtos”, explica Luna.

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#PraCegoVer: A educadora canábica Luna Vargas posa no centro da foto, sorrindo e vestindo um avental branco, à frente de um cultivo indoor de cannabis, durante visita à instalação da empresa Tantalus Labs. Imagem: Arquivo Pessoal | Luna Vargas.

Outra vantagem: budtenders são o elo entre produtores, prescritores e consumidores de maconha e, desta forma, o conhecimento adquirido com a experiência do varejo é valiosa. “Uma coisa dessa função é conhecer todo mundo da indústria. Para network, é uma posição bem estratégica”, diz Luna. A trajetória a partir desta experiência pode levar a caminhos promissores no setor.

E, se a consciência de um trabalho com propósito, o brio de um serviço essencial ou a alegria de melhorar a qualidade de vida das pessoas não sejam motivos para se inspirar nesta profissão, a satisfação de poder dizer que se vive de cannabis certamente é.

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#PraCegoVer: Fotografia (de capa) mostra a educadora canábica Luna Vargas cercada por vários pés de maconha, mais altos que ela, em um cultivo indoor de cannabis da empresa Tantalus Labs, no Canadá. Imagem: Arquivo Pessoal | Luna Vargas.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista e observadora do feminino no universo da cannabis, que se traduz em colunas mensais sobre o tema na Smoke Buddies.
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