Brasil corre o risco de dar dois passos para o abismo

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Quem defende melhores leis sobre drogas não deveria cair, segundo o artigo de opinião de Gabriel Murga que trata das eleições presidenciais neste segundo turno e recomenda que seja feito um voto crítico e consciente no candidato Fernando Haddad, em prol da democracia, da garantia dos direitos humanos e visando a mobilização por uma futura regulamentação da maconha para uso pessoal e medicinal de todos os brasileiros.

No próximo dia 28 de outubro será decidido o rumo não apenas do Brasil, mas a direção que apontará a América Latina em uma das eleições mais relevantes das últimas décadas no país, que em condições normais apresentaria um projeto de governo do Partido dos Trabalhadores em oposição a uma das novas ou velhas correntes políticas do país.

A exceção é pontuada neste caso pela figura de um projeto autoritário, marcado pelo candidato do Partido Social Liberal, que acentua em seu discurso as piores características de um país que sempre ignorou questões básicas, sob as quais o Brasil foi fundado: a escravidão e tortura de pessoas negras e indígenas, a violência sexual e o estupro, o patriarcado, a imposição de poder das pessoas brancas e, fundamentalmente, a hipocrisia ao ignorar propositadamente tudo isso.

A naturalização destes fatos na sociedade brasileira – o Brasil lidera os principais rankings de homicídios de: pessoas trans, jovens negros, ambientalistas, defensores de direitos humanos, policiais, jornalistas, gays e lésbicas, mulheres cis gênero, indígenas, quilombolas, entre outros – fez com que nos últimos anos o discurso de ódio contra essas pessoas fosse cada vez mais naturalizado, tratado como ‘piada’, ‘meme’ ou ‘aquele que vai mudar tudo isso aí’.

Isso se ilustra de forma repugnante no fato de que somos o país do mundo que mais assassina pessoas trans e ao mesmo tempo um dos maiores consumidores de pornografia deste gênero. Um dos reflexos mais perversos disso – o avanço do ódio, da humilhação a quem pensa, vive e sente diferente de “padrões de dois séculos atrás” – se dá na disputa do segundo turno que será decidido no próximo dia 28 de outubro, entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. Isso em uma observação simplificada. Entretanto, é preciso olhar o que está por trás e à frente disso e a forma contraditória como isso foi colocado para a sociedade brasileira.

Nos últimos quinze anos, a banalização da violência foi retratada como um produto diário dentro dos canais – de concessão pública de televisão -, o que amplificou a sensação de que algumas vidas não tem o mínimo valor por meios de discursos como “bandido bom é bandido…” . Terminar essa frase mentalmente é um dos sintomas do que pode-se consolidar no país em 2019.

A violência repetidas vezes aos olhos de uma população revoltada com a ‘corrupção’ – uma palavra extremamente perigosa e que deveria ser menos utilizada já que há uma confusão sobre o significado óbvio desta palavra. Não imagino alguém que defenda a corrupção.

E pode se observar naturalmente que quem grita contra a corrupção está comumente pedindo que ela se afaste, para que não sejam vistos de mãos dadas.

Isso é o básico de uma pessoa candidata a um cargo público de tamanha responsabilidade. Não deveria sequer ser uma plataforma de governo ou algo a se propagandear. Boa parte dos eleitores que votam em candidatos com discurso tão raso são contra a desigualdade, palavra de sentido mais objetivo e que vem sendo devidamente escondida da maioria das campanhas políticas em qualquer meio.

Existem os que combatem a desigualdade e aqueles que vivem dela e para ela, seja em âmbito familiar ou até mesmo de amigos próximos por longos anos.

Desconfiai de quem se diz contra a corrupção, sobretudo nos detalhes (> mensagem encaminhada).

O ódio direcionado e disseminado ao Partido dos Trabalhadores, que evidentemente cometeu seus erros e crimes – mas que reina no imaginário popular como o grande responsável pelos crimes ligados à corrupção, sendo isso algo que aconteceu com praticamente todos os outros partidos – colocou em xeque a imprensa, os colunistas, editores e articulistas que fomentaram e fermentaram um discurso cego como se o responsável por tudo de pior que se passou no Brasil fosse um único partido.

Inclusive os partidos tradicionais (MDB/PMDB, PP e PSDB) que têm mais envolvidos com corrupção e que durante boa parte dos últimos anos foram retirados do noticiário, ou quando exibidos isso foi feito de forma sutil e rápida, sem se aprofundar por vezes sequer ao nome do partido ou de seus líderes. Isso quando possível, já que em casos recentes de pedido de prisão envolvendo estes e outros partidos, os detidos foram liberados rapidamente ou sequer ficaram presos.

Quem ajudou a alimentar o ódio agora é caça – foi a imprensa hegemônica e tradicional que assentou todo o possível passo do Brasil rumo a uma escolha autoritária. Isso se deve a uma conjuntura complexa de situações, mas podemos pensar no modo como a imprensa tratou com seletividade as acusações de crimes contra os outros partidos, ajudando a alimentar o mito de que o PT teria inventado a corrupção ou seria o responsável pela ‘quebra do país’ – o que é evidentemente uma fantasia, comparável ao nazismo ‘de esquerda’, o ‘terraplanismo’ e cristãos defendendo a tortura.

Esse contexto se deve principalmente pela falta de autocrítica – que também faltou ao PT, ao PSDB, à REDE, à Globonews, às emissoras abertas e aos eleitores também, quando se eximem de fiscalizar em quem votam e acreditam em uma série de invenções sob pretexto de verdade, sem refletir, pesquisar e duvidar do que recebem, seja pelo whatsapp ou pela televisão. Quem lucrou com isso foram os neo-fundamentalistas que, disfarçados de cidadãos de bem, vêm ocupando cargos políticos, governando em nome de Deus e agindo e orientando os seus a agir como abominações segundo a visão de Jesus Cristo.

Estes grupos fizeram sua autocrítica e ganharam corpo na década de noventa e na primeira década dos anos 2000. Tornaram seus negócios grandes ferramentas de comunicação, negociam horários em quase todas as TV abertas e se tornaram para além de líderes religiosos, lideranças capazes de influenciar o processo eleitoral em um país de mais 160 milhões de eleitores. Além da sua própria bancada, cujo o número de deputados, senadores, postulantes a governador, além de prefeitos eleitos, como o da cidade do Rio de Janeiro, apontam para um “Projeto de Poder” em curso.

Essa eleição é importante para todas as pessoas. As pessoas que cultivam maconha. Ou as que gostariam de cultivar. As que fumaram, fumam ou pensam em fumar em algum momento. Seja para pintar um quadro ou para resistir às dores colaterais de uma quimioterapia. Para dar o primeiro sorriso aos seis anos de idade ou para entender uma música já escutada dez vezes mas nunca entendida. Para as pessoas que pensam num mercado de maconha que seja regulado, e que ninguém mais seja perseguido por cultivar suas plantas.

Para quem tem privilégio, seja o de se mudar para outro país e ser agrotóxico em sua própria terra, ou para os que têm medo. Ou mesmo aqueles que não aguentam mais a corrupção. Os que têm medo de um golpe de quem já esteve no poder e nunca o fez. Ou daqueles que acham esquisito quem diz que não irá aceitar o resultado que lhe serviu durante 28 anos.

A todos vocês peço que reflitam – antes de apertar um verde que pode lhe jogar 50 anos no passado.

Leia: Brasil, o último grande país totalmente proibicionista da América Latina

#PraCegoVer: fotografia (de capa) de uma placa branca com a frase escrita em preto “Legalize a vida” na qual a última letra (a) foi substituída pelo desenho de uma folha de maconha na cor verde, e um fundo desfocado de prédios e árvores. Créditos da foto: Diogo Vieira.

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Sobre Gabriel De Lucia Murga

Assessor de imprensa, relações públicas e jornalista freelancer formado pela UERJ. Já trabalhou na Folha de São Paulo, no jornal Lance!, na assessoria de imprensa da Árvore de Natal da Bradesco Seguros (entre 2012 e 2014) e no escritório brasileiro da Anistia Internacional (entre 2016 e 2018). Colabora regularmente para a Smoke Buddies e Socialista Morena. Já colaborou com a revista Cáñamo na Espanha e no Chile, a Diga Communications UK, o Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2017, entre outras organizações públicas e privadas. Lançou seu primeiro livro em 2018, "Brisas" pela Autografia Editora, e seu primeiro trabalho como compositor de música brasileira, o EP "77 Rotações". Contato, críticas e sugestões em: gabrieldeluciamurga@gmail.com
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