Bob Burnquist: “Só não perco a integridade”

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Referência do skate, Burnquist perdeu dinheiro ao defender maconha e virar presidente. E não se arrepende. Saiba mais sobre a história do skatista e ativista na reportagem do UOL Esporte

Existe uma saudável confusão de identidade, diz Bob Burnquist. “Uns acham que é isso, outros acham que aquilo, mas não é. É isso, mas também é aquilo. É o que você quer que seja”, resume. Bob está falando do skate, mas também poderia estar se descrevendo.

Quem é Bob Burnquist? Um ex-skatista (será que é ex, mesmo?), que ainda anda de skate a maior parte do tempo. Um promotor de eventos, que fez sua megarrampa ficar conhecida em todo o mundo radical e que discute com governos a criação de novas pistas. Presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk) até o ano passado, cansou de ser “pastor de gato”. (Sim, é um trocadilho que ele emprega: gatos vão cada um para seu lado, enquanto o gado segue na mesma direção). Ele renunciou ao cargo, mas continua sendo a eminência parda da entidade.

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Tudo isso enquanto encabeça discussões pela legalização da cannabis. “Sou cidadão como todos os outros, pago imposto, faço meu trabalho, tento ser uma parte positiva, tento fazer parte da solução, e nem sempre o status quo é a solução. Se as pessoas que estiverem em posições que fariam a diferença não podem falar, por que eu tô lá? Eu tenho esse direito de falar”, defende.

Nesta entrevista ao UOL Esporte, o skatista falou tudo o que tem direito. Sobre a passagem no comando da CBSk, maconha, skate e seu novo projeto, o Instituto Bob Burnquist, inaugurado no mês passado.

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#PraCegoVer: fotografia que mostra Bob Burnquist sentado atrás de uma mesa azul, onde também estão dezenas de pessoas, na sede da Confederação Brasileira de Skate. Foto: divulgação / CBSk.

Eminência parda do skate

A passagem de 20 meses de Bob pelo restrito mundo dos cartolas olímpicos foi marcada por uma proposital confusão de identidades. Na primeira vez em que participou de uma assembleia do COB, se locomoveu dentro do auditório sobre o skate. Bob não estava entre os seus, mas não abriu mão da identidade. O cargo o ajudou a “engrossar a pele”, mas a “maluquice passou da conta”.

“Tinha evento, e eu tinha que ir como presidente. Aí não conseguia nunca andar com skate com calma. Tinha que ficar preocupado com muita coisa. É o Brasil inteiro, ligações, reunião, conversa com todos os presidentes de federações. Aí você entende que era uma maluquice”, lembra. Burnquist se compara a um “pastor de gato”, em referência aos presidentes de federação. “Você enxerga que você está pelo bem do skate, das pessoas, mas nem todo mundo está”.

Começou a pesar, também, o conflito de interesses do skatista-empresário, que sobrevive de relações com diversas marcas e eventos, com os do cartola. “Eu sou skatista, atuante, competindo, com patrocinadores, e ao mesmo tempo dirigente. Eu me via em muitas situações em que não podia fechar contrato X ou Y por que as pessoas me viam diferente por eu estar na presidência. Não recebia um tostão para ser presidente, não fechava negócios e não conseguia andar de skate, porque a energia ia lá embaixo”, justifica.

Ao renunciar ao cargo, em junho do ano passado, deixou na presidência o seu vice, Eduardo Musa, o Duda, que até ser eleito era um estranho no mundo do skate. De 2011 a 2015, Musa foi o braço-direito da família de Neymar, recebendo uma comissão por cada contrato fechado pelo jogador.

Parte da comunidade do skate não esconde o incômodo com a forma como Musa se tornou presidente da CBSk, mas Burnquist o defende. “Só fui [para a confederação] por causa do Duda. Eu disse ‘só vou com o Duda’. Porque eu sei da capacidade e sei como vai ser bom para o skate. Se eu fosse montar uma empresa, eu contrataria um CEO, um contador, um CFO, várias siglas. Só porque sou skatista tem que ser só skatista? Vou perder a oportunidade de colocar os melhores por que quero ter a identidade do skate? Todo mundo que votou em mim como presidente votou nele como vice e sabia que se eu saísse ele ia entrar”, lembra.

Para neutralizar as críticas, foi criado um conselho consultivo, não previsto em estatuto, liderado pelo próprio Bob, que segue se responsabilizando pela gestão Musa. “O legado que ele deixar, se ele fizer merda ou deixar de fazer merda, vai respingar em mim. Óbvio que quero o sucesso do Duda. O sucesso dele é o meu, é o nosso. Quer participar? Entra no conselho. É natural as pessoas falarem e não fazerem“.

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#PraCegoVer: fotografia que mostra Bob Burnquist fazendo um ‘nose grind’ sobre uma estrutura em forma de arco vermelha e, ao fundo, o relógio da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Foto: Alex Carvalho | Wikimedia Commons.

Corpo são e mente sã

Bob Burnquist não come carne vermelha desde os 18 anos. Há um quarto de século, já que completou 43 anos. Há oito meses, tornou-se vegano, ainda que de vez em quando cometa o pecado de comer um pão comum, se não encontra uma alternativa.

Inicialmente, cortar todo e qualquer produto com origem animal era uma das tantas experiências às quais submete o seu corpo. Mas a experiência virou regra. “Estou me sentindo completamente outra pessoa, ando de skate mais tempo. Está sendo uma experiência bem interessante. Era um teste mais de recuperação e performance, de nutrição. Vinha lendo sobre digestão, com a pegada das plantas medicinais, e comecei a estudar. (Conheci) Curas ou melhorias incríveis de várias doenças mudando dieta para totalmente à base de planta. Não é nem remédio. Diabete, câncer, a pessoa muda a dieta e o corpo renova de um jeito. Se renova assim, imagina se quebrar um osso?”.

E de quebrar osso Burnquist entende. Já foram mais de 40 fraturas, pelas suas contas. A experiência de tratar essas lesões com substâncias naturais, comparando com amigos que utilizavam opioides (presente em analgésicos), é um dos seus argumentos a favor das plantas medicinais. Entre elas a cannabis.

“Os amigos à minha volta que passaram por situações de vício dos opioides, de (aumento de) peso, foi tudo um alerta para entrar no empreendedorismo de uma empresa de plantas medicinais que envolve, sim, a cannabis, mas envolve a copaíba, envolve arnica, moringa, cogumelo psilocibina para depressão, um monte de coisa”, explica. “Tenho a experiência de um cara que sentiu muita dor e teve que curar”.

Bob defende a “discussão séria” sobre a legalização da cannabis e se vê como um “pivot” nesse processo. A palavra, em inglês, poderia ser traduzida como “pivô”, mas no empreendedorismo designa aquele que fica no meio do debate, intermediando as discussões. No caso da maconha, promovendo o debate sobre alterações na lei.

Ninguém quer ser fora da lei, contra o sistema. A gente está querendo as ferramentas para fazer o negócio direito. Quando eu falei ‘cannabis’, começaram a atacar um monte de coisa. Se você não estiver preparado para receber (críticas), você murcha. A gente tem que ter uma força interior de saber qual é a sua e continuar batendo. O que eu posso fazer é tentar sempre elevar o tema, fazendo os caminhos certos no business, botando para frente os assuntos.”

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#PraCegoVer: fotografia de Bob Burnquist, do peito para cima, com boné cinza e camiseta cavada verde e várias pessoas e um ambiente de vegetação, ao fundo, desfocado. Foto: Mídia NINJA | Flickr.

Pelo direito de falar de maconha

Há quase 30 anos lidando com a imprensa, Bob Burnquist não é do tipo que fala sem pensar nas consequências. Pelo contrário. O skatista e ativista mede o impacto de seus posicionamentos. E, mesmo assim, prefere falar o que pensa a se calar com medo de perder um patrocinador.

“Os caras tão mandando injetar desinfetante, e nego acredita. Líderes!!”, compara, em referência à infeliz sugestão do presidente norte-americano Donald Trump no combate ao coronavírus. “Aí você fala: ‘Cara, o que está acontecendo com o mundo?’ Mas se você fala: ‘Acende um baseado’. Ah não, isso não. Esse é o mundo que a gente vive. Você acha que eu vou ligar para o que o cara acha que eu devo falar ou não?”.

Se não ficou claro, Bob não liga se um patrocinador achar que não pega bem defender o uso recreativo da maconha.

“Perco dinheiro, mas minha integridade não perco. Vou continuar lutando pelo que eu tô lutando e você não é patrocinador pra mim. Mas a maioria dos meus patrocinadores acham do caramba. Quem tá dizendo que não pode defender o uso recreativo? Por que não pode? Tem que mudar essa realidade.”

Quando embarcou no projeto de ser presidente da CBSk, o skatista levou consigo seus ideais. “Como presidente da confederação, o que é ilegal eu não vou defender. Não vou defender você fumar um e competir. Ou ter THC no sangue se está proibido, se está na WADA (no código mundial antidoping). Mas vou criticar de estar na Wada. Todo ano é possível revisar as substâncias e eventualmente isso vai sair. Enquanto não está, beleza, vai seguir a regra. Dá para fazer parte da mudança positiva“.

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#PraCegoVer: fotografia que mostra Bob Burnquist, da coxa para cima, com um dos braços erguidos acima da cabeça e uma camiseta branca, à frente de uma parede com ilustração tipo easter eggs em tom de cinza e atrás da sombra do logo e nome do “Instituto Bob Burnquist”. Imagem: divulgação.

Inspiração comunitária

Há pouco mais de um ano, Bob contou ao blog Olhar Olímpico, do UOL Esporte, que estava prestes a criar o Instituto Bob Burnquist, que nasceria diferente das ONGs de outros atletas. “Eu estou para montar um instituto e vai ser na linha da neurociência, com a cannabis sendo estudada, mas estudando, também, várias plantas medicinais”, contou.

A ONG saiu do papel em abril, de forma diferente da planejada. O BV, que já era patrocinador de um projeto de construção de pistas modulares, o “Burnkit”, ofereceu patrocínio também para o instituto, propondo uma pegada voltada ao skate para inclusão social, mais próxima a outras entidades também patrocinadas pela instituição financeira, como o Reação, de Flávio Canto, e o Esporte & Educação, de Ana Moser.

“A gente estava para lançar o instituto, mas aí veio a pandemia. Enquanto a gente discutia lançar ou não, eu disse que não tem que lançar para ajudar, então eu ia ajudar como pessoa física. Usei o que a gente estava mapeando para o instituto, fizemos um cálculo de mais ou menos 700 cestas básicas e voltei para o BV. Transformamos em três meses de tíquete alimentação para essa galera mapeada“, conta.

O instituto tem sua sede na Ilha da Gigoia, um refúgio onde moram cerca de 6 mil pessoas na Lagoa da Barra da Tijuca. O local era um restaurante, que Bob mantinha em sociedade. Quando a pandemia passar, vai se tornar um centro que no mundo das startups seria chamado de um hub.

“O projeto não é só skate, é uma mudança de hábito. Nascer em meio à pandemia já veio com uma nova era de interação. A gente trabalha com skate, por que eu ando de skate, mas vai fazer clínica, usar a tecnologia, filmar, editar vídeos, arte, capacitação, fazer parcerias. Vai ter programas pilotos de educação, horta comunitária”, conta. O público-alvo é, basicamente, todo mundo. “A ideia é a gente inspirar qualquer situação em qualquer momento, para você ter uma geração de bom ânimo, e aí educar no caminho, dar as ferramentas”.

“Muitas das pessoas das comunidades são abafadas na sociedade. Elas são tão criativas e tão incríveis quanto qualquer um. Essa ferramenta, às vezes, é só um ambiente inspirador e favorável para crescer. E depois da educação, a transformação da pessoa como um cidadão.”

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#PraCegoVer: fotografia que mostra Bob Burnquist durante um ‘lien air’, enquanto um cinegrafista o filma, e, ao fundo, uma multidão que assiste. Foto: Universidade Metodista | Flickr.

Skate dentro da Olimpíada, Bob fora

Dono de 30 medalhas em X-Games, Bob se transformou em sinônimo de skate quando a modalidade era um movimento cultural que tinha um grande evento competitivo. Quando o esporte entrou no programa olímpico, após os Jogos do Rio, ganhando novos eventos, muita visibilidade e uma injeção de dinheiro, Bob já era um cara de 40 anos em vias de se aposentar dos X-Games — o que, no skate, equivale a um nadador anunciar que não disputa mais Olimpíadas.

Só que Bob continuou andando de skate, o que, aliás, não pretende parar de fazer, e segue competindo no big air, versão que no Brasil ganhou nome de megarrampa. E isso cria no público a dúvida: por que ele não prolongou a carreira um pouquinho mais para disputar a Olimpíada?

Não é tão fácil quanto pode parecer. A começar por que Bob se especializou em um tipo de pista muito diferente das que serão disputadas nos Jogos Olímpicos. O park, que é um bowl (uma “tigela”, em tradução literal) onde é possível andar rápido e fazer manobras “aéreas”, e o street, pista provisória com obstáculos encontrados em ruas, como corrimões, escadas e bancos, são as modalidades olímpicas.

“Quando eu assisto a uma competição em que eu andei naquele park, vejo a galera andando e penso: ‘Caramba, como eles tão fazendo isso? Esse lugar é difícil. Eu andei aí e essa área não é tão fácil’. Eu olho dessa maneira. Eu sei que hoje o meu skate é muito mais embaixo o buraco”, admite, falando do park, somente. “Na mega, em que eu estou competindo ainda, posso chegar lá e fazer final. Até ganhar”.

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#PraCegoVer: fotografia de Bob Burnquist, de costas para a câmera e de frente a uma megarrampa, prestes a desce-la. Foto: Alex Carvalho | Wikimedia Commons.

Quanto mais alto, melhor

Nessa de ser um “pivot”, Bob alterna sequências de uma reunião atrás da outra com momentos de desligamento total, seja lendo, andando de skate ou fazendo yoga. Antes de atender ao UOL Esporte, havia feito uma ligação com a Prefeitura de Ribeirão Preto, cidade onde será construída uma pista de park com design dele.

O skatista aproveita a influência para tentar puxar a sardinha para as paredes mais altas, mais atrativas para skatistas como ele próprio. “É uma influência minha de crescer as paredes para mostrar o nível técnico dos skatistas que estão sendo limitados pelo tamanho da transição. Se eu não posso mudar o tamanho e as regras das pistas dos EUA e da Europa, eu consigo influenciar com design meu e visões de uma pista de park maior”.

No que depender do brasileiro, no futuro as pistas de park serão mais altas. “Não tem nada definido que a parede de park é daquele tamanho. Quem sabe no futuro seja uma coisa maior, uma rampa maior, um bowl maior. Esse é o dedo que eu posso colocar”.

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#PraCegoVer: em destaque, fotografia que mostra Bob Burnquist, do quadril para cima, vestido com uma camiseta branca e encostado em uma bancada amarela sobre a qual está um grande quadro cinza com o logo e o nome do “Instituto Bob Burnquist”. Foto: divulgação.

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