As Marias Proibidas

capa blog marias proibidas 10052022 As Marias Proibidas

Confira, a seguir, o texto da escritora, mãe, mãeconheira e ativista Maíra Castanheiro

Numa comunidade indígena do Acre, Maria cresceu sob o céu que nos protege. Nunca lhe faltou sol sal suor saliva. Nesta comunidade, os indígenas comungam Ayahuasca e a Maconha. São medicinas. São curativas. São consagradas. Maria cresceu conhecendo e consagrando a Ayahuasca e a Maconha.

Um dia, Maria se casou com um homem mais velho, branco, juiz. Tiveram uma filha e se separaram. Ela, temendo perder a guarda da filha, deixou de consagrar a Ayahuasca e a Maconha. Atualmente vive numa cidade longe de sua família, de sua comunidade, de suas curas, de sua história, de sua cultura, de si. 

Maria faz mestrado e sua filha é autista que só foi diagnosticada adulta. Foram anos de diagnósticos equivocados, tratamentos e remédios errados. Sua filha tem muitas crises. São apenas elas duas numa ilha. Tem gente na comunidade de Maria, lá no Acre, amigos e parentes, morrendo de covid-19. Maria não dá conta do ritmo acadêmico. Maria tá cansada exausta e toma remédios antidepressivos, para ansiedade e pra dormir. 

Hoje, Maria conseguiu que sua filha tenha atendimento específico e tratamentos com óleos de CBD através da Santa Cannabis Medicinal. Sua filha está reagindo muito bem ao tratamento. 

Leia também: Maternidade, drogas e racismo

Numa pequena cidade do interior de Minas, vive uma outra Maria. Ela estava desempregada, em plena pandemia, com três filhos. Começou a revender produtos cosméticos, dermatológicos, medicinais à base de CBD. 

Um dia, seus filhos estavam com os lábios levemente feridos e Maria aplicou o protetor labial à base de CBD em seus filhos. Ela estava na porta de sua casa, tomando sol, cuidando de si e de seus filhos. Mas, parece que mais alguém, o vizinho talvez, estava cuidando da vida de Maria, pois ao ver a cena de Maria aplicando o protetor labial nos filhos, achou um absurdo e fez uma denúncia no conselho tutelar. 

Já era noite, Maria estava bem de boas, jantando com seus filhos quando escuta alguém bater à porta. Era a polícia. Entram sem pedir licença. As crianças se assustam. Os policiais armados apreendem todos os seus produtos e dizem que ela está sendo acusada de dar maconha aos filhos. Começou a treta. Maria, sem seus produtos para vender, desesperada com medo de perder a guarda dos filhos, está vivendo diariamente seu pior pesadelo. A empresa para a qual Maria revende os produtos está lhe apoiando com advogados e uma ajuda mensal de sobrevivência. No meio deste processo, Maria obteve o diagnóstico que seu filho de 7 anos é autista cujo tratamento com CBD tem se provado eficaz. 

Na grande São Paulo, há também uma Maria. Ela é mãe de dois e está grávida do terceiro. Maria estuda, trabalha, tem uma vida saudável e normal. Feliz com seu companheiro e com sua gravidez. Porém, sua primeira filha é de outro casamento. Maria, nunca pôde fumar maconha na presença de sua filha, pois teme perder a guarda. Sua filha não sabe que a mãe fuma maconha. 

Em Florianópolis há uma Maíra, esta que vos escreve trazendo algumas histórias de mãeconheiras. Esta Maíra vai passar o dia das mães sem a filha. Esta Maíra luta pela guarda da filha na justiça. Cujo pai da filha anexou no processo prints dos textos do Diário de uma mãeconheira que escrevo desde 2015. E que desde então implica também na minha profissão: professora. Muitas escolas já me fecharam as portas. Estou desde 2019 neste processo para regularizar a guarda. 

Hoje, trouxe outras histórias que venho conhecendo desde que joguei na rede meu livro: Diário de uma mãeconheira. Publicado pela editora Moluscomix. São 224 páginas verdeverdade, uma seleção de textos de 2015 a 2020. Jogar este livro na rede foi abrir caminhos e debates. 

Ao contar minha história, outras mãeconheiras chegam para contar as suas. Nos sentimos ouvidas. Nos sentimos Juntas. E não nos sentimos sós. Nos sentimos sol

Contar nossa história e romper nosso silêncio é um ato político revolucionário porque, quando falamos, nos escutamos, nos aproximamos e nos curamos. Percebemos o quanto as questões históricas e sociais implicam em nossas escolhas individuais.

Nestas histórias que trouxe, todas levam o nome de Maria. São histórias baseadas em fatos reais. Para preservá-las eu nomeei todas de Maria. Algumas cidades e informações estão trocadas, mudadas, inventadas, nada relevante. <Ficção é a vida melhorada>, já dizia o velho Bukowski. 

Leia também: Tornar-se mãeconheira

Todas Marias são mãeconheiras. Trabalhadoras e criadoras. Criar no sentido de gerar criar crianças criar criações. São mulheres e mães que conhecem a dor do parto e não têm medo do amor. Que conhecem a dor e a delícia que é ser cacto no deserto que é a mã-eternidade. São fortes, porém, exaustas, cansadas, magoadas. 

Essas Marias estão sendo proibidas. Tal como a Marijuana. Quem tem medo da Maria que traga a Marijuana? Quem tem medo do poder das fêmeas? 

A maconha faz muito bem pra filha da Maria, que é autista. A maconha faz muito bem pra Maria, que cresceu tendo uma relação de cura com planta. Agora ela toma remédios. 

A maconha seguiria sendo uma fonte de renda para Maria, que em plena pandemia conseguia ficar com seus filhos e vender produtos de qualidades e eficazes: naturais, veganos e à base de CBD.

Mas, essas Marias são mãeconheiras clandestinas sem querer querendo. E são muitas mãeconheiras: de várias idades, lugares, contextos, que de uma forma ou de outra têm sua maternidade limitada e/ou ameaçada pelo fato de elas serem mãeconheiras. Pouco se fala sobre maternidade e maconha, maternidade e drogas.

Há muitas mães que usam drogas de forma saudável, consciente. Nem toda mãe/pessoa que usa droga é viciada, depressiva, violenta, improdutiva, etc. e tal, como mostram nos filmes, novelas, literatura. 

Nós mãeconheiras usamos drogas e bebemos água. Comemos frutas, raízes e grãos. Nos alongamos e benzemos nosso útero. Alinhamos nossos chacras. Trabalhamos, estudamos, criamos, inventamos. Casamos e nos separamos. E recomeçamos. E quando a gente chora, quando tudo vai mal, não é por que usamos drogas, nossas bads moram no capitalismo e no patriarcado. Só que a gente acende um beck: a gente inspira respira e não pira. Tragamos essa cortina de fumaça. Estamos pautando. O debate está apenas começando. As mãeconheiras existem, resistem e estão flore-sendo.  

Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas!

Leia também:

Mãeconheira traz temas para debate em campanha do Dia das Mães

#PraTodosVerem: ilustração do rosto de três mulheres diversas em fundo roxo, com a frase “Marias Proibidas” escrita na base. Crédito: Divulgação | Bem Bolado Brasil.

BemBoladoBrasil As Marias Proibidas

Sobre Bem Bolado Brasil

Uma empresa do bem, baseada em produtos e ideias criativas, inovadoras e funcionais, desde 2012
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!