Além do THC e CBD: a ciência dos canabinoides e o cérebro

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Quando pensamos em maconha, a maioria de nós pensa no THC e no CBD, os canabinoides tetraidrocanabinol e canabidiol. Mas, embora sejam os mais famosos, estão longe de serem os únicos canabinoides. Entenda mais sobre o que a ciência sabe — e não sabe — sobre os canabinoides e o cérebro na reportagem da Inverse, com tradução pela Smoke Buddies

De fato, os cientistas descobriram mais de 100 outros canabinoides — e esses são apenas os encontrados na planta de cannabis. No total, existem mais de 500 canabinoides, os quais podem afetar o corpo e o cérebro. O que talvez seja mais empolgante sobre essas inúmeras substâncias químicas são os potenciais efeitos terapêuticos que elas poderiam ter — se a pesquisa persistir, os canabinoides poderiam representar centenas de novos medicamentos para benefício humano.

E essa lista está crescendo.

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Em um estudo de dezembro de 2019, os cientistas anunciaram a descoberta de dois novos canabinoides — e ambos poderiam ter algum poder psicoativo real, mesmo em comparação com o conhecido THC.

Mas, apesar da abundância e dos efeitos que podem ter, a maioria dos canabinoides que a ciência conhece permanece um mistério: os cientistas não sabem ao certo como exatamente eles alteram o cérebro e o corpo. Restrições legais à cannabis — é uma droga do Anexo 1 nos Estados Unidos — significam que os pesquisadores são impedidos por protocolo e falta de recursos disponíveis de realizar o trabalho. Mas, conforme a pouca pesquisa que tem passado através das barreiras, nós sabemos que os endocanabinoides naturais do próprio corpo respondem de forma única aos fitocanabinoides — aqueles que vêm da planta da cannabis. E alguns podem ter incomuns — e talvez até benéficos — efeitos.

“TODOS OS CANABINOIDES SÃO IGUALMENTE IMPORTANTES.”

A Inverse conversou com os especialistas para descobrir exatamente o que os cientistas sabem — e não sabem — sobre os diferentes canabinoides e o que eles fazem com nossos cérebros. A reportagem se concentrou em cinco canabinoides — eles são os principais a serem observados, quando os potenciais usos terapêuticos da cannabis se tornam cada vez mais importantes na medicina moderna.

TETRAIDROCANABINOL

O que o THC faz no cérebro?

Os canabinoides se ligam a dois receptores no cérebro, CB1 e CB2 — o CB1 está ligado ao sistema nervoso, enquanto o CB2 está conectado ao sistema imunológico. O tetraidrocanabinol (THC) tem como alvo principal os receptores CB1, o que significa que a substância química afeta o cérebro.

No cérebro, o THC imita algo conhecido como “molécula da felicidade“, ou anandamida, uma substância química que ocorre naturalmente no corpo. A anandamida e outros canabinoides endógenos afetam as áreas do cérebro que desempenham um papel no prazer, memória, cognição, concentração, movimento, coordenação, percepção sensorial e percepção do tempo, de acordo com o Instituto Nacional sobre Uso Abusivo de Drogas dos EUA.

Uma das áreas mais importantes do cérebro que o THC altera é o hipocampo, que desempenha um papel crítico na aprendizagem e na memória. Quando você ingere THC, limita a capacidade do cérebro de aprender coisas novas e realizar tarefas complexas. Ao mesmo tempo, estimula seu sistema de recompensa a liberar mais do neurotransmissor dopamina, o que aumenta a sensação de estar “alto”.

Como o THC muda o comportamento?

O THC é a substância química mais comumente associada ao fumo, vaping ou ingestão de cannabis. É o composto que causa todas as características estereotipadas de estar chapado — incluindo risadas, trapalhadas, “highdeias” bobas e aumento do apetite.

Como o THC é usado na medicina ou recreação?

Em regiões onde a cannabis é legal para uso recreativo e/ou médico, você pode comprar o THC isolado — que é a substância química THC por si só — para obter os efeitos do canabinoide sem qualquer interferência potencial da miríade de outras substâncias químicas na maconha.

Na medicina, o THC é frequentemente prescrito em conjunto com o CBD para uma variedade de condições. Um medicamento que contém THC é o Sativex, que trata espasmos musculares e rigidez da esclerose múltipla. Embora tenha se mostrado promissor nos primeiros ensaios clínicos, atualmente, não está disponível para uso nos Estados Unidos.

Nos EUA, as pessoas com AIDS e as submetidas à quimioterapia podem, respectivamente, tirar proveito de dois medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), o Marinol e o Cesamet. Ambos os medicamentos aliviam as náusea e podem melhorar o apetite.

CANABIDIOL

O que o CBD faz no cérebro?

O canabidiol (CBD) é uma ‘fera’ bastante diferente de sua composta irmã THC. Em vez de se ligar a receptores cerebrais específicos, o CBD funciona bloqueando a ligação dos receptores cerebrais aos canabinoides. Quando é consumido com THC, ele, de fato, bloqueia alguns dos efeitos do THC.

Entender como funciona envolve voltar um pouco para ver o que faz a cannabis funcionar em primeiro lugar.

O principal efeito da cannabis no cérebro é chamado inibição retrógrada — a ideia de que os sinais cerebrais podem fluir em sentido contrário. Por décadas, os cientistas acreditaram que quando o cérebro recebia uma entrada de informação, ele a processava e enviava um sinal desencadeando uma reação correspondente. “Nós pensávamos que as neurotransmissões tinham apenas um caminho”, diz David Bearman, médico da Califórnia que pesquisa e escreve sobre cannabis e outras substâncias.

Mas com canabinoides — e especialmente canabinoides como o CBD — as coisas podem ficar estranhas. Quando esses canabinoides se ligam a receptores no cérebro, o sinal resultante pode viajar da parte do cérebro que normalmente recebe essas transmissões aos neurônios que normalmente as enviam.

Se isso acontecer, podem-se criar problemas para a sinalização neural como um todo, diz Bearman.

“É como jogar areia nas máquinas”, diz ele.

Como o CBD muda o comportamento?

Assim como o THC, o canabidiol é psicoativo, pois altera seu cérebro, mas não lhe dá a mesma “alta” que o THC. De fato, o CBD compensa alguns dos efeitos do THC, como a sensação de euforia que ele causa e, isoladamente, pode realmente fazer você se sentir menos chapado. Tomado isoladamente, alguns dizem CBD produz um relaxamento, um efeito calmante.

Leia mais: Muito chapado? Uma dose extra de óleo de CBD pode ajudar, diz estudo

Como o CBD é usado na medicina ou recreação?

O efeito do CBD na sinalização cerebral pode parecer incomum, mas também pode trazer alguns benefícios à saúde, especialmente em condições em que a sinalização neural não funcionaria corretamente. Até agora, o CBD mostrou-se promissor no tratamento de condições como epilepsia, enxaqueca, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade ou dor crônica, afirma Bearman.

Até o momento, o CBD é aprovado pela FDA para tratar convulsões, com um medicamento chamado Epidiolex. Mas o composto está amplamente disponível de forma isolada, e alguns afirmam que pode ajudar em tudo, desde ansiedade a dor crônica.

CANABICROMENO E O CÉREBRO

O que o CBC faz no cérebro?

Diferentemente do THC e do CBD, o canabicromeno (CBC) se liga mal aos receptores CB1 no cérebro, portanto, seus principais efeitos estão relacionados aos receptores CB2, que estão conectados ao sistema imunológico.

Como isso muda o comportamento?

Este canabinoide não produz uma “alta” e pode não ter nenhum efeito comportamental em humanos. Mas a pesquisa ainda é preliminar. Um estudo de 2010 em ratos sugere que o CBC pode afetar a atividade motora, essencialmente, suprimindo o movimento em resposta ao medo nos ratos. No entanto, um estudo de 2005 da atividade cerebral em 22 pessoas descobriu que o CBC não produziu mudanças visíveis no comportamento ou atividade dos participantes.

Como é usado na medicina ou recreação?

As propriedades anti-inflamatórias do CBC estão entre as razões pelas quais mais especialistas estão demonstrando interesse nos canabinoides como tratamento médico. O composto pode até limitar o crescimento de algumas células cancerígenas, informou a Cannabis Science and Technology. E pode ter propriedades antibacterianas — assim como o CBD — fazendo da cannabis um participante potencial no combate à atual crise de resistência a antibióticos.

CANABIGEROL

O que o CBG faz no cérebro?

O canabigerol (CBG) parece atingir tanto o CB1 quanto o CB2, sugerem pesquisas. Isso significa que cepas de cannabis com alto teor de CBG podem afetar a mente e o corpo.

Como isso muda o comportamento?

O CBG não é psicoativo. Ele trabalha em conjunto com outros canabinoides para alterar alguns dos efeitos psicoativos de canabinoides como o THC. Ele pode reduzir a paranoia, de acordo com a empresa de cannabis Cresco Labs.

Como é usado na medicina ou recreação?

Como o CBC, o CBG também possui algumas qualidades antibióticas, bem como algumas antifúngicas leves. Os cientistas acreditam que isso poderia ajudar a tratar doenças da pele, como psoríase e acne, limitando as células produtoras de queratina. Esses mecanismos anti-inflamatórios também significam que o CBG promete atrofiar o crescimento de certos tipos de câncer e aliviar as características de condições como doença inflamatória intestinal e doença de Crohn.

Apesar dessa promessa, atualmente, não existem medicamentos no mercado que usem CBG como ingrediente ativo, mas, diferentemente de sua composta irmã THC, o CBG não está definido no Anexo 1.

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CANABINOL

O que o CBN faz no cérebro?

O canabinol (CBN) é encontrado, principalmente, em plantas de cannabis envelhecidas, porque é produzido pela degradação do THC. Tem uma afinidade muito menor pelos receptores CB1 do corpo, mas uma afinidade mais alta pelos receptores CB2. Como resultado, o CBN não afeta muito o cérebro e afeta mais o sistema imunológico, sugerem pesquisas.

Como o CBN muda o comportamento?

Pesquisas sugerem que o CBN aumenta a potência do THC — fazendo com que as pessoas se sintam mais “chapadas, bêbadas, tontas e sonolentas” do que após consumirem apenas o THC. O CBN é encontrado em pequenas quantidades na cannabis e normalmente não é consumido em isolado, por isso é difícil dizer se o uso do CBN por si só pode não ter um efeito dramático.

Como o CBN é usado na medicina ou recreação?

A legalidade do CBN é complicada: a substância em si não é tão estritamente regulamentada quanto outros canabinoides como o THC. Mas também pode ser considerado um análogo ao THC — afinal, é derivado do THC — sob as leis federais dos EUA. No momento, não existem medicamentos disponíveis que contenham CBN e não é um isolado prontamente disponível como o CBD.

O FUTURO DA PESQUISA SOBRE CANABINOIDES

Ainda não sabemos muito sobre a cannabis, mas um número crescente de pesquisadores está trabalhando para entender suas muitas partes químicas constituintes. Fazer isso, apesar das barreiras à pesquisa, pode trazer grandes benefícios para a nossa saúde.

Uma das crianças menos conhecidas do quarteirão é o canabinodiol, que surge quando o CBN — um produto do THC — é “fotoquimicamente reorganizado”. É encontrado na cannabis em pequenas quantidades e possui alguns efeitos psicotrópicos. Outro é o CBT, ou canabitriol, que possui uma estrutura semelhante ao THC e, potencialmente, propriedades terapêuticas semelhantes.

“SE VOCÊ CHAMASSE DE CHICÓRIA, EM VEZ DE CANNABIS, HAVERIA MENOS PRECONCEITO.”

Dois canabinoides descobertos em dezembro de 2019 também podem ser promissores. Ambos são parentes do THC e CBD, embora um deles possa ser muito mais potente que o THC, especulam os pesquisadores.

Apelidados de tetraidrocanabiforol e ácido canabidiólico, ou THCP e CBDP, os dois canabinoides se juntam à lista cada vez maior de compostos da cannabis. A dupla pode ajudar os pesquisadores a identificar os componentes médicos da cannabis, diz Giuseppe Cannazza, autor e professor assistente correspondente da Universidade de Modena e Reggio Emilia, na Itália.

“É importante entender o que um medicamento contém”, diz Cannazza à Inverse. “Até agora, ninguém podia imaginar a existência desses novos fitocanabinoides, portanto, sua presença poderia explicar algumas atividades terapêuticas observadas com diferentes cepas de cannabis”.

O THCP tem uma estrutura idêntica ao THC, mas é uma molécula mais longa. Poderia ser muito mais poderoso que o THC comum — ele se liga aos receptores do cérebro com uma “afinidade de 30 vezes em comparação com o THC”, diz Cannazza. “Isso explica a alta atividade semelhante ao THC observada nas experiências in vivo em ratos”.

Mas isso não se traduz necessariamente na intensidade de sua “alta”, como a VICE reportou na época. De fato, o THCP pode até não ser psicoativo. Como a maioria dos compostos encontrados na planta de cannabis, os pesquisadores não sabem exatamente como isso muda o cérebro.

Leia: Descoberto novo canabinoide 30 vezes mais potente que o THC

Responder à pergunta sobre quais canabinoides têm valor terapêutico é difícil, diz Cannazza. A resposta pode ser “nenhum e todos”.

Cada fitocanabinoide “tem propriedades terapêuticas e efeitos colaterais”, diz ele. “Depende da dose”.

Por esse motivo, ficar muito específico sobre os canabinoides individuais e o que cada um faz nem sempre é o mais útil para a pesquisa, diz ele.

“Não acho que nossa atenção deva se concentrar em um fitocanabinoide específico, mas todos os canabinoides são igualmente importantes”.

No entanto, para entender os diferentes efeitos, é importante lembrar que uma determinada cepa de cannabis pode ter uma concentração mais alta de um canabinoide específico, o que significa que há uma boa chance de que o efeito dessa variedade possa ser atribuído a esse canabinoide. Obviamente, diz Cannazza, pode ser que os efeitos de qualquer tipo de cannabis surjam dos diferentes canabinoides que trabalham em conjunto, como os diferentes instrumentos de uma orquestra tocando em sincronia para produzir uma melodia.

Bearman concorda. “Acho que tentar isolar qualquer constituinte da cannabis é um erro”, diz ele. Isso vale também para os grandes THC e CBD: “Eles são úteis? Sim. Eles são tão úteis quanto toda a planta? Não”.

As leis federais e as barreiras logísticas podem impedir o progresso, dizem os pesquisadores. Os pesquisadores têm uma história de ‘empurrando para trás’ contra a Drug Enforcement Agency (DEA), nos EUA, dizendo que as políticas podem atrasar projetos por mais de um ano.

Mover a cannabis do Anexo 1 — a classe mais alta de drogas — para o Anexo 2 seria uma benção, diz Bearman. “Isso quebraria a barreira em termos de permitir que os pesquisadores fizessem pesquisas efetivas”, diz ele.

Ensinar clínicos sobre o sistema endocanabinoide também pode aumentar sua disposição de fazer pesquisas sobre canabinoides, diz Bearman.

Mas os bloqueios à pesquisa não são inteiramente culpa das leis federais: parte do que retém a ciência é a percepção da cannabis, diz Cannazza.

“Infelizmente, há muito preconceito sobre a cannabis e seus derivados”, diz ele. “Seria importante tratá-la como qualquer outra planta medicinal que forneça princípios ativos importantes para o tratamento de diferentes patologias. Se você a chamasse de chicória, em vez de cannabis, haveria menos preconceito”.

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