Acabar com a Cracolândia faz parte da abolição da Princesa Isabel?

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“Para onde nois vai agora?”, esse foi o questionamento de uma série de pessoas que moram na região central de São Paulo, conhecida como Cracolândia. Entenda mais sobre as políticas de higienismo racial e social executadas na capital paulista no texto de Amanda Amparo*, publicado originalmente no Alma Preta

Esta é a frase dita aos gritos de um rapaz que caminhava junto ao coletivo de pessoas que foram retiradas da praça Princesa Isabel, no centro da capital paulista, onde se encontrava o fluxo da cracolândia.

É sintomático que no dia 11 de maio, dois dias antes do 13 de maio, dia da suposta “abolição da escravatura”, uma massa de pessoas negras seja desalojada pela polícia, tenha seus pertences retirados, empilhados em um canto para serem revistados e jogados ao léu, da praça da princesa. Qualquer semelhança, certamente não é mera coincidência.

Sendo tocados como gado, foi indo em grupos para direções diferentes, nas ruas do entorno da região da Luz — me posicionei atrás do coletivo com maior número de pessoas, por volta de umas duzentas. Eles iam sendo direcionados pela avenida Rio Branco, com um aglomerado de polícia atrás, que não permitia que ninguém retornasse. Conforme a multidão passava a polícia ia garantindo que qualquer pessoa negra, com roupas que apresentasse alguma sujeira, fosse direcionada junto a eles.

No caminho, passamos por muitos moradores de rua, que estavam dormindo em algum ponto, como é de costume na região, e nem todos fazem parte da malha da cracolândia, estes iam sendo acordados com seu colchão retirados do corpo, antes mesmo de se levantarem, e tocados juntos. Na lateral do Viaduto Eng. Orlando Murgel, na entrada da favela do Moinho, foram aglomerados, e foi ali neste ponto, encurralados em uma rua que não tinha saída, porque a polícia fechava a frente, que o rapaz gritou “para onde nois vai agora?”.

O desespero da frase era muito legítimo, porque não apenas daquela rua, mas principalmente da própria vida, quais são as saídas, quais são os caminhos? Como conformar espaços que caiba corpos negros? A ação sobre estes corpos não é isolada nem unívoca, se trata do modo sistemático de operacionalizar a relação com pessoas negras, é isso que está em jogo. A discussão não é sobre se está portando ou não o cachimbo do crack, mas sobre quais corpos estão portando (ou não) e em quais condições.

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A ideia da imposição do terror como modo de ação é uma prática já arquitetada e historicamente utilizada contra pessoas negras, uma das frases utilizadas por um dos responsáveis pela operação é “vamos sufocá-los até eles não terem saída”. Quais são os argumentos e elementos que estão sendo mobilizados aqui, é o de que a dor e o sofrimento os levaram até uma saída?

Mas não há nenhuma elaboração sobre qual seria esta saída, parar de fumar crack por exemplo, o “sufocá-los” os levaria até isso? Mas o que fazer com o racismo que os persegue entranhadamente, com a falta de moradia, de escolaridade, de trabalho, as marcas de rejeições sistemáticas, com as psicoses de carregar um corpo brutalmente violentado?

A verdade então é que não é que não há estratégias, ou mesmo uma má elaboração delas, mas uma crença já idealizada na suposta “abolição”, de que os sufocando os eliminarão. Em uma lógica de crueldades onde entende-se que o primeiro passo é isolá-los, as circulações em conjunto estão proibidas, esta é uma técnica já publicizada que a polícia está adotando, os obrigando a circulação constante, eles não podem parar em nenhum lugar.

Nos dois dias seguintes à operação a frase de um dos usuários sintetiza o desespero, do primeiro que perguntava para onde iria, “o que vou fazer senhora, vou sumir”, “tem dois dias que eu não durmo, eles não deixa nois ficar parado em lugar nenhum, nem para dormir”.

Junto à dor das lapadas dos cassetetes da polícia, o sono, o cansaço por estar em trânsito constante, já que não podem parar, tem também a fome, os pontos de distribuição costumeiros não existem mais, uma vez que a polícia os obriga a circular — uma usuária já conhecida diz “to com muita fome, não sei mais onde pegar marmita”.

A guerra então articulada em minuciosas artimanhas de tortura se implica em fazer pessoas, em sua maioria negras, transitarem pelo centro da cidade sem conseguirem parar nem para dormir, a espancamentos, a sensações de desamparo e medo, a fome, a quebra total de vínculos com os poucos atendimentos que acessavam antes, ao isolamento, já que não podem ficar juntas, e as miras das balas, que sem qualquer critério vem saindo das armas, em ruas lotadas de gente.

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Nesta arena a guerra então definitivamente entende que não é preciso mais apenas sufocá-los para que morram, mas matá-los, a queima roupa na frente de todos. Foi assim o assassinado de Raimundo Nonato Rodrigues Fonseca Júnior com 32 anos, segundo as testemunhas, um policial desceu do carro atirando, vários tiros que poderia ter matado muito mais pessoas, como disse um dos interlocutores: “matou um de nois é triste, mas podia ter matado muito mais, tivemos sorte de não morrer todo mundo”.

Neste sentindo, nos perguntamos, mas a guerra então não era contra as drogas? Bem, a verdade é que não, nunca foi, a guerra aqui é uma estrutura bem configurada em ações contra pessoas em condição de total vulnerabilidade, com pouca ou nenhuma droga na mão, quando muito um cachimbo com biricos de crack, que é a pedra dividida em vários pedaços, porque ninguém tem conseguido comprar uma inteira para si.

“Porque nós não conseguimos fazer nada, eles mataram na nossa frente e nois não fizemos nada”, assim é o pesar de um dos usuários, a sensação de fracasso por não ter conseguido reagir à morte de Raimundo na sua frente e de muitos outros. Não disse nada, mas em silêncio pensei que o que podia ser feito naquele momento era se manter vivo. Apesar de pensar, também não me dei por satisfeita com a minha própria resolução, e me refiz a mesma pergunta: eles matam na nossa frente e não conseguimos fazer nada?

A resposta não é simples porque, apesar de declarada e instituída, a guerra de modo algum é honesta, a primeira declaração nas mídias sobre a morte de Raimundo diz que se tratou de uma confusão entre os usuários e que eles mesmo o haviam matado, mesmo tendo vídeos e milhares de testemunhas que presenciaram a ação, afinal foi em público. Mas como um dos usuários bem disse “nossa mas se eles colocarem na nossa culpa isso aí, aí não tem como né, foi na rua, tava todo comercio aberto, todo mundo viu”.

Um segundo argumento foi de que estava havendo um tumulto e que os usuários estavam quebrando e roubando os comércios, mas nada foi registrado na polícia sobre estes saques e depredação. Pois, então, será que não tem como mesmo colocar na culpa deles? Vai haver uma investigação, afinal era um “noia”?

No campo das narrativas e acontecimentos, seria impossível não questionar a princesa, então Isabel, e a abolição, aconteceu mesmo? Não aconteceu, vivemos em um estado de terror racial, onde neste exato momento pessoas estão sendo torturadas e mortas no centro da maior cidade do país por apenas existirem.

*Amanda Gabriela Amparo é doutoranda em Antropologia Social pela USP e pesquisadora do Território da Cracolândia.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra quatros policiais militares, com escudo, tonfa e capacete, em volta de uma pessoa maltrapilha que arrasta um pequeno colchão, e o trânsito nas ruas de São Paulo, ao fundo. Imagem: Luca Meola / Alma Preta.

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