A violência das drogas no México

fumaca mexico A violência das drogas no México

O presidente López Obrador tenta implementar novas políticas para combater a violência perpetrada por gangues do narcotráfico em todo o México. Políticas que seriam grandemente ajudadas por um EUA que atuasse de forma racional e estável, em vez de focar apenas em respostas diretas, segundo Russell Crandall* para o IISS. Confira o artigo na tradução pelo Politike

O macabro assassinato de três adultos e seis crianças (incluindo três bebês) no nordeste de Sonora, no início deste mês, marcou um novo nível de perversidade na guerra às drogas no México. As vítimas eram cidadãos norte-americanos e mexicanos que pertenciam ao proeminente clã fundamentalista mórmon LeBarón – um grupo que fugiu para o México no final do século XIX para escapar das proibições americanas de poligamia.

Em uma emboscada, homens armados atacaram três carros dirigidos em um comboio por mulheres LeBarón, deixando um veículo repleto de buracos de bala e “quase em cinzas”, de acordo com publicações da família em redes sociais. Sete outros passageiros – todos crianças e alguns gravemente feridos – escaparam por pouco escondendo-se na mata ao lado da estrada. As autoridades mexicanas recuperaram mais de 200 cartuchos usados.

O motivo para o crime, cometido em plena luz do dia, não é claro. As gangues do narcotráfico poderiam apenas querer enviar uma mensagem à população e às autoridades locais e nacionais – incluindo o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador (conhecido como AMLO) – sobre quem está no comando da região ligada a rotas de tráfico de drogas.

Em 2009, membros de gangues disfarçados de agentes de segurança torturaram e mataram dois integrantes do clã em resposta à denúncia que estes fizeram sobre chefes de tráfico local.

Um equívoco de identidade também é possível. Um tiroteio entre uma gangue afiliada ao cartel de Sinaloa e a ala armada do cartel de Juárez ocorreu em Agua Prieta – a cerca de 160 quilômetros do local da emboscada de LeBarón – no mesmo dia. Quaisquer que sejam as circunstâncias, o incidente iluminou um problema contínuo que precisa de uma melhor solução.

Os esforços do México

A campanha do governo mexicano contra cartéis de drogas ilícitas começou em 2006, durante o primeiro ano da administração do presidente conservador Felipe Calderón. Uma população indignada apoiou a estratégia de militarização de Calderón como a resposta apropriada ao caos em uma época em que a taxa de homicídios no país variava entre 7 e 9 por 100 mil habitantes.

O presidente mexicano enviou dezenas de milhares de soldados para regiões onde se acreditava que as forças de segurança haviam sido cooptadas. Cerca de dois terços dos chefões foram mortos ou capturados.

Com o tempo, a estratégia transformou o cartel maior em conjuntos menores, da mesma forma que as ações apoiadas pelos EUA na Colômbia contra o cartel de Pablo Escobar nos anos 1990. As operações arrivistas estavam dispostas a empregar a violência como meio de aumentar sua participação no mercado de drogas, e a taxa de homicídios quase triplicou.

O centrista Enrique Peña Nieto chegou ao poder em 2012 com um mandato para consertar a abordagem de punho de ferro fracassada de seu antecessor. A violência caiu durante seus primeiros anos no cargo, mas em 2015 a taxa de homicídios chegou a 27 por 100 mil e superou esse índice em 2018.

Durante as administrações de George W. Bush e Obama, Washington concedeu mais de 2 bilhões de dólares para fiscalização antidrogas sob a Iniciativa Mérida, um esforço multibilionário comparável ao bem-sucedido Plano Colômbia.

Tomando posse em dezembro passado, AMLO implementou uma abordagem menos coercitiva, criando uma força policial militar-civil híbrida e dissolvendo a força policial federal que havia sido um componente crucial das estratégias de seus dois antecessores. No entanto, o nível de homicídios no México agora é de 30 por 100 mil habitantes, seis vezes a taxa dos EUA.

AMLO espera mudar a ênfase para soluções sociais e restabelecer modos tradicionais de fiscalização. Em sua concepção, era hora de iniciar um processo de paz e adotar um programa de justiça de transição. Mas desde que se tornou presidente, cinco massacres de civis ocorreram, e sua abordagem encontrou ceticismo nos dois lados da fronteira.

Nos últimos anos, o norte do México registrou um aumento no tráfico de metanfetaminas e opioides sintéticos, que suplantaram amplamente cocaína, heroína e maconha. A demanda dos EUA por metanfetamina e opioides provocou a alta, incluindo disputas territoriais entre cartéis nas áreas de fronteira de Sonora e Chihuahua.

Apenas em Sonora, os assassinatos de policiais aumentaram 100%. No mês passado, dezenas de agentes de segurança que haviam acabado de prender Ovidio Guzmán, filho do notório chefão do cartel de Sinaloa, Joaquín ‘El Chapo’ Guzmán (atualmente em uma prisão nos EUA), foram forçados a libertar Ovidio após um ataque.

A resposta do governo Trump

No dia seguinte ao massacre de LeBarón, o presidente dos EUA, Donald Trump, e AMLO discutiram “esforços para combater a crescente violência”, de acordo com a Casa Branca. Trump tuitou sua disposição de “declarar guerra aos cartéis de drogas e limpá-los da face da terra”. AMLO respondeu que a intervenção dos EUA é desnecessária, reforçando seu tom conciliador ao afirmar que “não se pode apagar fogo com fogo” e que as raízes do problema precisam ser abordadas.

O senador Ben Sasse, um republicano de Nebraska e membro do Comitê de Inteligência, instou AMLO a se juntar a Washington em uma “ofensiva em larga escala contra esses açougueiros”. Ele acrescentou que “o presidente do México não levou a sério a ameaça e vidas inocentes foram perdidas novamente”. A “dura verdade”, afirmou, era que o México estava “perigosamente próximo de ser um estado falido”. Outro senador republicano, Josh Hawley, do Missouri, pressionou por sanções contra as autoridades mexicanas que não querem combater as quadrilhas de traficantes. O Wall Street Journal argumentou que uma “operação militar dos EUA não pode ser descartada”.

Segundo o Serviço de Pesquisa do Congresso, a solicitação de orçamento da Casa Branca para esforços do Estado de direito no México para o ano fiscal de 2019 foi de apenas 78,9 milhões de dólares – uma redução de 48% da apropriação estimada de 152,6 milhões no EF de 2018. Em vez de continuar a Iniciativa Mérida, Trump desperdiçou capital político para o México com uma renegociação desnecessária do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (ainda não ratificada) e com a exigência de que o México militarize suas fronteiras do sul para impedir a imigração ilegal dos países do Triângulo Norte.

O que AMLO mais precisa dos EUA é uma contraparte racional e estável, que permaneça institucionalmente engajada nos esforços do Estado de direito em uma base contínua.

*Russell Crandall é professor de Política Externa dos EUA no Davidson College, na Carolina do Norte, EUA.

Leia também: México tem até 30 de abril para legalizar a maconha, decide a Suprema Corte

#PraCegoVer: fotografia (de capa) que mostra o céu da cidade de Culiacan coberto por uma nuvem de fumaça preta, produzida por carros queimados pelo Cartel de Sinaloa, no México; na parte inferior da imagem, vê-se copas de ávores, e, ao centro, a torre um prédio. Foto: Hector Parra | AP.

Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!

Deixe seu comentário