Para pacientes com distúrbios alimentares, a maconha pode ser o remédio certo

pipe comida Para pacientes com distúrbios alimentares, a maconha pode ser o remédio certo

Receptores CB1 transmitem sinais de calma a neurônios hiperativos e como são abundantes nas regiões do cérebro que controlam a ingestão de alimentos, evidências clínicas sugerem que exista uma ligação entre um sistema endocanabinoide defeituoso e o desenvolvimento de distúrbios alimentares. Saiba mais no artigo de Stacy Pershall* para o Weedmaps

É de manhã em Nova York, e Jessica Mellow está se preparando para um longo dia. Ela toma sua primeira de muitas xícaras de café e se prepara para outro dia de trabalho – e outro dia de tratamento da anorexia. A modelo de pintura corporal não apenas tem uma longa sessão reservada, como também tem uma consulta com seu psiquiatra e jantar com um especialista em terapia nutricional. Ela toma um pouco de óleo de canabidiol (CBD) para ajudar a acalmar seus nervos. Sua ansiedade está sempre presente.

“Descobri que quando uso um pouco de maconha ou tomo um pouco de óleo de CBD, isso ajuda com ansiedade e dor, e me ajuda a dormir, sem efeitos colaterais”, disse Mellow. “O tratamento para anorexia é mais complicado do que para muitas doenças mentais, principalmente porque exige o oposto exato do que parece seguro e instintivo. Se o cérebro percebe a comida como uma ameaça, mas a única maneira de melhorar é comer continuamente, a ansiedade aumenta drasticamente e, à medida que o tratamento prossegue, geralmente piora em vez de melhorar”.

A anorexia não é uma condição qualificativa para certificação de maconha medicinal em Nova York, embora uma revisão de estudos tenha mostrado que os canabinoides podem diminuir a ansiedade e promover o ganho de peso em pacientes anoréxicos.

Mellow está ansiosa por mais protocolos de tratamento de anorexia. “Eu acho que seria realmente útil ter cannabis [legal] como uma opção”, disse ela.

Origens dos transtornos alimentares

Apesar do que os filmes de TV retratam, os distúrbios alimentares não resultam apenas de um desejo de ser magro. Algumas pessoas nascem com uma predisposição genética para anorexia, bulimia e transtorno da compulsão alimentar periódica. Além disso, os pensamentos intrusivos que frequentemente atormentam os pacientes são semelhantes aos do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

De acordo com a Associação Nacional de Distúrbios Alimentares (NEDA, nas siglas em inglês), “dois terços das pessoas com anorexia [mostram] sinais de um transtorno de ansiedade (incluindo ansiedade generalizada, fobia social e transtorno obsessivo-compulsivo) antes do início do distúrbio alimentar”. Essas condições comórbidas são apenas parte do motivo pelo qual a anorexia é notoriamente difícil de tratar.

Transtornos alimentares restritivos, como anorexia e transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE), podem levar à fome progressiva que afeta o cérebro e, portanto, o intelecto, tornando o tratamento para esses pacientes ainda mais desafiador. Pacientes anoréxicos gravemente doentes podem querer comer e se recuperar, mas podem se sentir presos a pensamentos e comportamentos ritualísticos.

A bulimia e o transtorno da compulsão alimentar periódica apresentam um conjunto de desafios diferente, porém semelhante, e os sintomas desses distúrbios geralmente se sobrepõem aos sintomas da anorexia. As compulsões podem durar horas e resultar no consumo de dezenas de milhares de calorias. Pessoas com bulimia ou transtorno da compulsão alimentar periódica podem ter peso normal ou muito excesso de peso. O peso corporal não altera a gravidade da doença, mas devido ao risco de inanição ou insuficiência cardíaca, a anorexia continua sendo a mais mortal de todos os distúrbios psiquiátricos, com uma taxa de mortalidade estimada em 10%.

Distúrbios alimentares e o sistema endocanabinoide

O sistema endocanabinoide (SEC) é uma rede de receptores, enzimas e moléculas endocanabinoides que mantém a homeostase ou uma série de funções saudáveis ​​no corpo. Os receptores CB1, encontrados no sistema nervoso central, transmitem um sinal de “calma” aos neurônios hiperativos. Como esses receptores são abundantes nas regiões do cérebro que controlam a ingestão de alimentos, as evidências clínicas sugerem que pode haver uma ligação entre um SEC defeituoso e o desenvolvimento de um distúrbio alimentar.

O SEC está envolvido na regulação do equilíbrio alimentar e energético, e os receptores CB1 – um dos dois tipos de receptores canabinoides em nosso cérebro, o outro sendo os receptores CB2 – são abundantes nas regiões do cérebro que regulam a fome e controlam os comportamentos alimentares. Devido à maneira como se ligam aos receptores CB1, os canabinoides ingeridos podem ajudar a reduzir a ansiedade dos pacientes e aumentar (ou diminuir, no caso de strains com alto teor de CBD) a quantidade de alimentos que consomem. O que os chapados há muito sabem ser verdade acaba sendo apoiado pela ciência: a maconha pode relaxar e dar-lhe a fome.

A sofredora de anorexia Cassidy, cujo nome foi alterado, concorda. “A maconha me ajuda de duas maneiras. Primeiro, ajuda com sinais de fome”, disse Cassidy. “Quando você restringe por um tempo, seu corpo para de pedir comida quando precisa. Os petiscos ajudam com isso. Segundo, [a cannabis] ajuda com a ansiedade. Isso meio que acalma a onda de auto-fala negativa que muitas vezes vem com a alimentação”.

A conexão do TOC 

A “Diretriz Prática para o Tratamento de Pacientes com Distúrbios Alimentares” da Associação Americana de Psiquiatria afirma que os distúrbios alimentares geralmente são comórbidos com outras condições psiquiátricas, principalmente TOC , transtornos de ansiedade e transtornos de personalidade. E, de acordo com a Fundação Internacional do TOC, 64% das pessoas com transtornos alimentares também têm transtorno de ansiedade e 41% delas têm TOC.

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O que todas essas estatísticas significam é que pessoas com distúrbios alimentares – especialmente o tipo restritivo – geralmente operam de acordo com um conjunto estrito de regras que podem não fazer sentido para pessoas sem distúrbios alimentares. Por exemplo, uma pessoa com anorexia pode considerar os alimentos “seguros” e “inseguros” com base em outras razões que não as calorias ou o conteúdo de nutrientes, ou desenvolver rituais sobre como eles cortam os alimentos e onde os colocam no prato. Não é tão diferente de ter que acender e apagar as luzes um certo número de vezes antes de sair de casa, ou ter que lavar as mãos várias vezes antes de ir para a cama, comportamentos tipicamente associados ao TOC.

Em um estudo de 2019 publicado na Cannabis and Cannabinoid Research, pesquisadores do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Colúmbia encontraram evidências preliminares que sugerem que o sistema endocanabinoide do corpo pode desempenhar um papel no TOC e citaram relatos de casos de três pacientes para quem a droga canabinoide dronabinol reduziu comportamentos compulsivos. Um paciente, que apresentou sintomas de TOC resistentes ao tratamento após um acidente vascular cerebral talâmico, pôde participar da terapia cognitivo-comportamental (TCC) após o uso de dronabinol. Embora sejam necessárias mais pesquisas, essas evidências preliminares sugerem que os tratamentos à base de cannabis podem permitir que os pacientes com comportamentos compulsivos participem mais efetivamente da terapia de conversação. Além disso, um estudo de 2005 mostrou que as taxas do endocanabinoide anandamida estão aumentando em pacientes com anorexia e transtorno da compulsão alimentar periódica, mas não em pacientes com bulimia. A possibilidade de modular o sistema endocanabinoide para tratar certos distúrbios alimentares merece mais pesquisas.

Futuro do tratamento do transtorno alimentar

Estudos científicos de pacientes com HIV e câncer mostram que a cannabis aumenta o apetite e pode levar a um ganho de peso significativo que salva vidas. No entanto, os programas de tratamento estabelecidos para distúrbios alimentares têm demorado a aceitar a eficácia médica da cannabis.

Felizmente, médicos como o Dr. Ziv Cohen, psiquiatra da cidade de Nova York licenciado para certificar pacientes do programa estadual de maconha medicinal, acham que poderia ser uma adição útil aos protocolos de tratamento de transtornos alimentares.

“Eu acho que há muita promessa em produtos à base de cannabis para distúrbios alimentares restritivos, da mesma forma que os produtos de cannabis são muito úteis para pacientes com câncer que têm problemas com sua nutrição”, disse Cohen. “A ansiedade é reduzida e o apetite é aumentado, e essa combinação pode empurrar os pacientes sobre a ‘corcova’ e levá-los a comer coisas que eles normalmente não comeriam, ou sobre as quais eles são fóbicos”.

Cohen enfatizou que nem todos os pacientes com distúrbios alimentares são bons candidatos para a cannabis medicinal; a comorbidade é uma consideração importante. A indução de laricas incontroláveis ​​em pacientes que vomitam tem consequências óbvias, mas para pacientes com histórico de trauma que restringem ou comem compulsivamente em resposta aos gatilhos do transtorno de estresse pós-traumático (PTSD), Cohen disse que a cannabis pode ser útil.

“Queremos garantir que não condicionemos o paciente a comer apenas quando estiver usando um produto de cannabis; assim como com outros medicamentos, gostaríamos que [a cannabis] facilitasse o desenvolvimento de hábitos alimentares regulares, e não se tornasse um ritual necessário [para] comer”, disse Cohen. “O tratamento com cannabis pode ser muito útil, desde que esteja dentro do contexto de uma boa equipe multidisciplinar”.

Mellow concordou e enfatizou a importância de sua equipe de tratamento e a necessidade de alternativas aos medicamentos psiquiátricos.

“A desnutrição pode impedir que os medicamentos psiquiátricos sejam eficazes, portanto, ter [cannabis] para ajudar com a ansiedade pode potencialmente fazer um tratamento que muitas vezes parece punitivo muito mais tolerável e eficaz”, disse Mellow.

“Não acredito que exista cura milagrosa”, disse Mellow, “mas se a cannabis pode reduzir algumas das maiores barreiras ao tratamento – exaustão, ansiedade, desconforto físico – isso deixa mais espaço para se concentrar diretamente na recuperação, e eu não consigo ver isso como qualquer coisa que não seja positiva”.

*Stacy Pershall é escritora, editora e professora em Nova York. Ela também é membro do departamento de oradores da ONG Active Minds e viaja para escolas e universidades para ensinar aos alunos sobre prevenção de suicídio e ativismo antibullying. Seu livro de memórias “Loud in the House of Myself” está disponível na W.W. Norton.

Tradução: Joel Rodrigues | Smoke Buddies.

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#PraCegoVer: fotografia (em destaque) em vista superior diagonal e primeiro plano que mostra uma mulher, em meio perfil de costas, acendendo um pipe com um isqueiro, e, ao fundo desfocado, uma mesa repleta de bebidas e comidas. Foto: Weedmaps.

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