“A maconha me trouxe de volta a vida”, diz jovem baiana com esclerose múltipla

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Assim que passou a fumar maconha, a estudante Janine Paixão disse que o efeito sobre os enjoos foram imediatos. Após 2 meses, deixou de usar os remédios que minimizam os danos colaterais, como tremores e espasmos, e de usar analgésicos e anti-inflamatórios. Saiba mais no artigo de Henrique Oliveira*

Em 2016, a soteropolitana e estudante do curso de Farmácia na UFBA, Janine Paixão, foi diagnosticada com esclerose múltipla, doença neurodegenerativa, autoimune e sem cura. Semanas após o diagnóstico ser revelado, veio a primeira internação e, segundo ela, rapidamente o seu quadro começou a piorar. Agulhas, imunossupressores, tontura, enjoo, tremores, exame do líquido cefalorraquidiano e a essa altura, já tinha perdido parte da sensibilidade nas mãos. As lesões pareciam correr numa velocidade inalcançável”.

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Depois de alguns meses vieram o segundo, o terceiro e quarto internamentos. Além de ter que lidar com os severos sintomas da esclerose múltipla como espasmos, visão turva, problemas de bexiga e o uso de sondas, a jovem também precisava lidar com os efeitos colaterais dos medicamentos. Lembro de um dia, de repente, não conseguir mais urinar, e o que eu achei que pudesse ser resolvido com medicação, na verdade eu estava a pequenos passos de uma diálise. Lembro-me de chorar ininterruptamente por uns 4 ou 5 dias”.

Os remédios eram utilizados para diminuir os sintomas da doença, assim como o número de internações hospitalares. “O primeiro medicamento eram injeções subcutâneas de uma droga que tentava fazer uma barreira química para impedir a destruição das minhas mielinas, mas que causavam dores articulares enlouquecedoras, mas passavam”, conta Janine.

Na quinta internação, a estudante já estava tomando uma série de medicamentos que visavam controlar a doença: medicação para enjoo, para dor de estômago, para conseguir dormir sem ser acordada pelos espasmos que a faziam perder o sono e remédios para reduzir as dores em lugares do corpo até então inimagináveis.

Quase totalmente sem esperanças de ter uma vida livre dos vários sintomas provocados pela esclerose múltipla, Janine foi incentivada por pessoas próximas, como seu namorado, a usar cannabis. Porém, não acreditava na possibilidade de melhorar a qualidade de vida.

Assim que passou a fumar maconha, Janine disse que o efeito sobre os enjoos foram imediatos. Após 2 meses, deixou de usar os remédios que minimizam os danos colaterais, como tremores e espasmos, e de usar analgésicos e anti-inflamatórios.

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Em sua opinião, “não sentir dor deveria ser um direito inalienável e intransferível. O preconceito e, principalmente, a falta de informação atrasam a vida de pessoas com doenças que caminham para sequelas e danos irreversíveis. A Cannabis tem se mostrado promissora na contramão de todos os prognósticos pessimistas da esclerose múltipla”

“É imoral que uma planta seja criminalizada por interesses que parecem ser maiores do que curar pessoas. Quando não há vontade governamental, milhares de pessoas vêem a terapia com Cannabis inacessível, por não ser barata e muitas vezes por não ter a informação do potencial terapêutico da planta.”

Além de defender o uso medicinal de maconha, Janine também é militante antiproibicionista. Para ela, a atual política de guerra às drogas tem um cunho racial, que visa criminalizar a população negra e periférica. Portanto, o uso de maconha, seja ele recreativo ou medicinal, não pode ser proibido, devido ao potencial terapêutico intrínseco da planta.

*Henrique Oliveira é historiador e militante antirracista contra a proibição das drogas.

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#PraCegoVer: fotografia (de capa) que mostra mulher de olhos fechados, sorrindo e sentido o aroma de um bud de cannabis em um ambiente fechado, onde é possível ver parte da parede, pintada de verde, e de uma janela de madeira. Crédito: Acervo pessoal | Reprodução Facebook.

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