A Humanidade precisa se tratar — por Geovani Martins

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“É absurdo que médicos ainda enfrentem barreiras para tratar pacientes com uma planta”. Conheça a história de uma mulher que obteve êxito no tratamento de paralisia supranuclear progressiva com uso de cannabis no texto de Geovani Martins para O Globo

Começou em 2013. Aos 65 anos, Eunice Aparecida Lima passou a sentir algumas tonturas, a ter dificuldades para andar e a sofrer constantes quedas. Ela foi submetida a diversos exames na tentativa de identificar o problema, mas todos os resultados indicavam a normalidade.

Entre fevereiro e abril de 2014, passou por uma nova bateria de exames, mais complexos e específicos do que os primeiros. Tudo normal, contrariando a evidente evolução do quadro da paciente. Dona Eunice caía cada vez mais, e acabou sofrendo lesões como fratura óssea, cortes na cabeça e traumas na costela.

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Ainda em 2014, a doença progrediu para uma rigidez articular. Fizeram diagnóstico de síndrome parkinsoniana, iniciaram o tratamento, mas sem conseguir nenhum efeito suspenderam após oito meses.

Em agosto de 2015, dona Eunice não conseguia mais andar, ter vida independente, precisou então ir para uma casa de repouso. Seu caso piorava progressivamente. Chegou à rigidez generalizada das articulações, perda da fala, dificuldade de ingerir alimentos sólidos, além de incontinência urinária. Apesar de todos os problemas motores, dona Eunice continuava com a cognição preservada.

No início de 2019, a partir de uma nova ressonância, foram encontradas evidências que indicavam tratar-se de uma paralisia supranuclear progressiva, doença rara e pouco estudada.

Em março, dona Eunice começou seu tratamento com cannabis medicinal, conduzido pela doutora Ana Gabriela Hounie, médica psiquiátrica. Os medicamentos utilizados antes do tratamento com a maconha foram mantidos. Segundo a doutora Hounie, o óleo concentrado com CBD e THC foi apenas acrescentado à rotina medicamentosa da paciente.

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Em 17 dias, num vídeo gravado pelo filho, dona Eunice já apresentava melhoras tanto na fala quanto nos movimentos do corpo.

Em 52 dias, dona Eunice volta a ingerir alimentos sólidos, passa a caminhar com ajuda, além de demonstrar uma significativa evolução na linguagem; ela começa a responder perguntas simples feitas pelo filho ao longo do vídeo.

Depois de 156 dias, dona Eunice apresenta uma nova melhora importante na linguagem, conseguindo expressar pensamentos e sentimentos.

Com um ano de tratamento, vemos dona Eunice fazer exercícios com ajuda de um personal trainer. A evolução de seus movimentos é impressionante, assim como de sua qualidade de vida num modo geral.

Foi com muita emoção que tomei conhecimento deste caso, através do CNABIS — congresso digital sobre o uso medicinal da cannabis —, na palestra ministrada pela doutora Hounie, sobre o uso da cannabis em doenças neurodegenerativas.

Infelizmente, dona Eunice faleceu pouco depois, em junho de 2020, em razão de uma pneumonia, aos 71 anos. Sua história, no entanto, é mais um poderoso exemplo de como a proibição da cannabis nos afeta negativamente não apenas no aspecto social, mas também clínico. Como seria esta história se ela pudesse contar com o tratamento à base de cannabis desde o início?

Assisti a todo o congresso com entusiasmo, mas também com muita tristeza e indignação. É absurdo que no século XXI, mesmo depois de tantos estudos que compravam a eficácia em diversas patologias, médicos ainda enfrentem barreiras para tratar seus pacientes com uma planta.

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#PraCegoVer: em destaque, foto que mostra uma flor de maconha com várias folhinhas verde-claras em sua base e algumas pequenas ‘sugar leaves’ envoltas em pistilos brancos e marrons, sobre uma superfície de madeira. Imagem: Pixabay.

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