a falta que ela (não) me faz

Luiz Michelini a falta que ela (não) me faz

eu podia estar comprando um prensado. podia estar juntando pontas, raspando dichavadores, fumando aquela resina fedorenta que fica no bong. mas não. estou aqui, segurando o meu reggae. Por Laura Maria*

firmei um compromisso comigo mesma já tem um tempo: se for pra fumar um, que seja do verde. do que bate gostoso. do que tem gosto de plantinha e não de amoníaco. do que não dá aquela tosse que parece anunciar um fim próximo. do que não tenha o peso da palavra tráfico. do que não seja sujeito a incontáveis alterações de composição. um que eu saiba o que é, de onde veio, e, o supra sumo, quem plantou. um do bom.

eu não sou exatamente a pessoa mais apta a fumar. bronquite crônica, sinusite aguda e rinite alérgica são todas condições que eu conheço de perto. por isso, depois que avistei, beirei e passei os 30, me vi compelida a cuidar melhor desse aparato respiratório que me foi confiado. e isso incluía parar de fumar como se esse ato não causasse nada em mim, porque causava. me fazia ter crises de tosse pesadas. me deixava cansada. era necessário repensar meu jeito de fumar.

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quando engravidei, então, essa necessidade falou ainda mais alto. gritou, praticamente. não sei explicar, mas sentia que não cabia mais a minha insensatez. que meu corpo não era, naquele momento, só meu, e que meu hóspede merecia ser bem tratado. na cultura indiana, que admiro muito, tem uma frase massa: guest is god. uma visita, um convidado, é deus. e eu não só engravidei, eu quis ter um filho. convidei essa vida a vir à vida. sentia que devia respeito a ele, ao menino que crescia dentro de mim, a partir das minhas entranhas. desde ali (possivelmente antes), só queria o melhor pra ele.

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idealizações à parte, nem sempre consigo negar um beck ‘do ruim’. afinal, minhas raízes foram ali, no prensado, no 3 ou, num dia bom, 4 pra 1 (entendedores entenderão). assim como nem sempre consigo negar um pastel (o frito, mesmo) ou um refrigerante. tem dias que tomo uns goles de coca – especialmente quando como pastel – pra tentar lembrar da sensação de quando era criança e gostava principalmente da sensação esquisita da bebida na garganta e no nariz. pra relembrar os velhos tempos, em que não via o menor problema em consumir o que hoje evito ao máximo. às vezes dá saudade dessa descomplicação, e nesses momentos me permito.

quando passa a nostalgia, porém, vem aquela máxima de que uma consciência, depois de expandida, não retorna a seu tamanho original. não tem jeito de eu voltar a ser aquela pós adolescente sem preocupações com a saúde (minha e de quem está perto de mim). não tem como eu esquecer o que sei sobre os malefícios do prensado e os benefícios da ganja da boa. compensa mais não fumar tanto, deixar pra quando for a hora de colher mais uma safra ou quando puder pagar por uma flor bem cheirosa.

fumar por fumar dá saudade, mas não faz falta. pelo menos, não racionalmente. o que eu quero mesmo é poder plantar em paz. que todos que queiram, possam plantar em paz. em casa, no quintal, em plena luz do dia. luz natural, luz do sol. sem armários escondidos, sem estufas moqueadas (a não ser que necessário por falta de um quintal). fumar um que não contenha mentiras, tráfico, crime, violência (policial em especial), racismo, elitismo. pra que a ganja possa voltar a ser encarada como o que sempre foi: uma planta. não uma droga, não no sentido que a palavra droga carrega no nosso vocabulário tão cheio de preconceito e ignorância. que enxerguemos seu potencial medicinal, terapêutico, têxtil, pra citar só alguns. que a enxerguemos! que respeitemos sua história, e também a nossa.

*Laura Maria. escrevo como quem pensa. escrevo como quem viaja nas voltas da mente, no jeito que as palavras são escritas e no peso de cada uma delas. a ganja é uma velha amiga, daquelas que me abraçam forte enquanto me dizem verdades duras na cara.

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#PraCegoVer: fotografia (de capa) em plano fechado que mostra o topo de um bud de cannabis (maconha) em cultivo, com pistilos em tons de rosa, e fundo desfocado. Foto: Luiz Michelini.

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