Polícia para quem precisa: Tolerância Zero na Marcha da Maconha de Brasília

 Polícia para quem precisa: Tolerância Zero na Marcha da Maconha de Brasília

Brasília recebeu sua marcha no dia 28 de maio, onde foram registradas diversas prisões e cenas de abuso policial durante todo o ato. Convidamos Henrique Rocha¹, 22 anos, graduando em Antropologia-UnB e Direito-IESB, e organizador da Marcha da Maconha de Brasília-DF para nos contar em primeira mão tudo o que rolou por lá.

No dia 28 de maio de 2016 eu fui o primeiro a chegar no local de concentração da Marcha da Maconha Brasília-DF 2016. Aproximava-se de 12h quando lá cheguei para encontrar o caminhão que faria a entrega de banheiros químicos. Estranho né? Uma manifestação contratando banheiros químicos… Decidimos contratar estes banheiros após a reunião com as autoridades na Secretaria de Segurança Pública no DF que ocorre anualmente algumas semanas antes da marcha. Nesta os policiais disseram que não poderiam me obrigar a contratar estes banheiros, mas que a falta deles poderia causar algumas contravenções penais (pessoas fazendo xixi na rua) e eu poderia ser responsabilizado, como organizador. Reunião esta que foi aberta por uma autoridade fazendo citação ao “fumaço” de São Paulo que fez a PM do estado de “palhaça”. Reunião esta também que contou com frases como “o que a organização irá fazer para coibir o uso de drogas na Marcha?”, “o DF é o estado mais legalista da nação e nossa PM não será feita de palhaça”, “vocês têm autorização da Delegacia de Explosivos para a utilização de fogos de artifício e fumaça?”, “você tem que trazer a CNH do motorista e o documento do carro de som oito dias antes da Marcha caso queira vê-lo por lá no dia”. Muita coisa que nunca havia sido cobrada sendo cobrada. Estranho.

 Polícia para quem precisa: Tolerância Zero na Marcha da Maconha de Brasília

Maconhistas Sem Temer. Foto Bruno Morais

Bom, mas voltando ao dia 28. Era quase uma da tarde quando o primeiro “bacu” (revista) ocorreu. Apenas eu, um amigo da organização, o motorista do carro de som e uma amiga na praça. Seis policiais exaltados chegaram procurando de qualquer maneira alguma ilicitude em nosso existir. Tiraram tudo de dentro do meu carro, abriram tudo, tiraram os bancos, viram motor, porta -malas, estepe, abriram até meu guarda-chuva. Tinha 25g no carro e eu realmente não sei como eles não conseguiram encontrar. Amém Jah. Mas meu dixavador encontraram e cerca de 5 gramas na mochila de meu amigo organizador. Logo o policial falou quando eu disse que este não podia levar meu dixavador: “ou eu apreendo isso ou seu amigo vai pra delegacia”. “Ok”, respondi.

Nas seguintes 2 horas chegaram mais umas 120 pessoas. A concentração estava marcada para 15h apenas. Quanto mais gente chegava, mais alta a música tocava e mais denso ficava o fumacê. Quando o relógio estava perto de 14:20h, me assustei com mais de 50 policiais armados com pistolas e metralhadoras, 4 Blazers do BOPE e outras viaturas entrando na praça. Coordenados, todos ao mesmo tempo apontando as armas para nós e nos colocando em formação. Pegou a todos de surpresa. Inclusive a música ficou desligada por cerca de uma hora. Começava ali o que durou até o fim da Marcha da Maconha Brasília-DF 2016: o show de horrores da operação chamada de “Tolerância Zero”. Sim, teve até um nome! Desde as 14:30 até as 19h e pouco foram várias e constantes revistas em grande parte dos marchantes.

Com a desculpa de que estariam ali para coibir o uso de substancias ilícitas, a Polícia Militar do Distrito Federal estava aplicando revistas em todos os que chegavam à manifestação. Imaginem, eram mais de 110 policias! Recurso público, bestialmente gasto para coibir o uso de maconha. Constitucionalmente a PM teria de estar ali para garantir nossa segurança durante uma manifestação legitimada pelo STF, não para nos apontar armas, jogar spray de pimenta, apreender sedas, dixavadores e levar 50 detidos. Posicionados atrás dos ônibus que ficam entre a rodoviária e o local da concentração, eles apareciam de surpresa para os jovens sorridentes que chegavam para a Marcha. Era incrível, todo minuto algum grupo era coibido para entrar em formação para receber a revista. Só este que vos escreve recebeu 4 revistas no dia!

 Polícia para quem precisa: Tolerância Zero na Marcha da Maconha de Brasília

Foto Mídia Ninja

Não era nem 15h e já estávamos ao vivo pelo Facebook da Mídia Ninja e do Growroom. Estes mostravam o quão truculenta e preconceituosa a PM-DF estava sendo. Milhares de pessoas estavam assistindo. Muitos, com medo, deixaram de ir na marcha. Muitos, ao chegar na concentração e se deparar com a grande quantidade de policiais e revistas, deram meia volta e foram para suas casas.

A tática da PM-DF foi muito inteligente. Além de deter várias pessoas, estes conseguiram afastar muita gente da Marcha. Para mim, a coisa mais linda deste dia foram alguns dos detidos saindo da DP e voltando para marchar. Isso sim é acreditar na legalização!

Ao longo da marcha foram levados para a delegacia mais de 50 marchantes. Ficamos todos com medo. A polícia estava ali não para garantir nossa segurança, mas para enfraquecer o movimento, despejar seus preconceitos e se divertir de maneira fascista. A grande maioria dos jovens detidos eram moradores da periferia. Fato notável sobre as Marchas da Maconha do DF: a grande maioria dos presentes é sempre de moradores da periferia. Mas em 2016 essa proporção foi ainda maior. A marcha ocorreu dois dias após o feriado de Corpus Christi, então enquanto os playboys viajavam, a periferia marchava!

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A Mídia Ninja falou em 8 mil, um dos PMs falou em 5 mil. Então seguramente podemos falar em no mínimo 6500 pessoas pró legalização da maconha. Foto Mídia Ninja

Incrível também foi o quanto a marcha cresceu ao sair. Milhares de pessoas esperavam nas proximidades, longe da polícia. Ao bater 4:20h no relógio, nos posicionamos na rua e saímos em direção ao Congresso Nacional. MILHARES de pessoas aguardavam a marcha sair no Museu Nacional, na Biblioteca Nacional e na própria rodoviária. Foi emocionante ver como a marcha cresceu e ficou GIGANTE. Não se sabe, obviamente, qual foi o público exato. Nós tentamos fazer a maior Marcha da Maconha da história do DF. E pelo jeito conseguimos. A Mídia Ninja falou em 8 mil, um dos PMs falou em 5 mil. Então seguramente podemos falar em no mínimo 6500 pessoas pró legalização da maconha marchando no centro do poder político do país.

O plano inicial era de irmos até o STF, mas isso não foi possível pois ficamos sabendo alguns dias antes que “carro de som nenhum desce até a Praça dos Três Poderes”. E isso iria contra o formato que havíamos decidido em nossas 10 reuniões de organização. Este ano queríamos fazer uma marcha no sábado, pois em 2014 e 2015 fizemos em dias de semana e muitos não podem comparecer. “Ah mas em Brasília a Marcha da Maconha tem que ser durante a semana para os políticos verem”. Não, caro leitor. Políticos não mudam suas opiniões quando veem algo. Essa sua visão é muito romântica. Bom, além de fazermos a marcha no fim de semana, queríamos uma marcha festiva, pois como dizia nosso slogan “Em tempos onde liberdades individuais estão sendo cerceadas, acreditamos que SER FELIZ É UM ATO POLÍTICO!”. E nas marchas que eu estive presente, todas se caracterizavam justamente por isso: protestos sérios, porém esfumaçados e divertidos. ManiFESTAções. Além de tudo, o carro de som foi bem difícil de conseguir, caro e já havíamos fechado o “line-up” com homens e mulheres DJs reconhecidos no cenário de Brasília e que aceitaram tocar de graça, apenas em prol da causa. Então decidimos seguir para o gramado do Congresso e por lá fizemos uma bela e enorme folha humana.

 Polícia para quem precisa: Tolerância Zero na Marcha da Maconha de Brasília

No gramado do Congresso uma bela e enorme folha humana. Foto Mídia Ninja

Na volta já estava escurecendo, o que torna a PM ainda mais corajosa. Eu pessoalmente vi um garoto levando um soco na cara de um policial durante uma revista. Ouvimos relatos de pessoas apanhando da polícia na rodoviária após a marcha. Um homem, Michel, que levou uma planta para a Marcha, foi coibido a levar a polícia para sua casa – por lá foram encontradas outras plantas. Infelizmente o Estado está o processando por tráfico, e ele aguarda o julgamento em liberdade.

A Marcha poderia ter sido maior, poderia ter tido mais falas, poderia ter sido melhor. SEMPRE PODE! Mas o medo imposto pela PM-DF até o fim da marcha nos tomou por inteiro em vários momentos. Durante toda a marcha se podia ver manifestantes sendo revistados. Mas mesmo assim tinha MUITA FUMAÇA. Quem estava lá viu. A PM-DF não conseguiu esvaziar, apesar de ter diminuído a marcha. Muito menos conseguiu coibir o consumo. Assim como não consegue fazer em lugar nenhum. Não tem como coibir o consumo. A legalização é necessária! A Marcha da Maconha Brasília-DF 2016 foi a mais tensa da minha vida, mas não deixou de ser enorme, perfumada, política, festiva e linda. Ano que vem vai ser maior. Sigamos maconhistas sem Temer e fogo na Bomba!

*
Devo aqui, a título de curiosidade, falar um pouco sobre a Polícia Militar do Distrito Federal, que é diferenciada. Apesar de pequeno, o DF conta com o terceiro maior orçamento de segurança pública do Brasil (mais de 6 bilhões de reais por ano!!!!). A PM-DF é proporcionalmente o maior efetivo policial do Brasil, sendo que estes policiais contam com ótimos equipamentos, baixa vitimização em serviço e tem um dos maiores salários da PM no Brasil.

¹Henrique Rocha, 22 anos, graduando em Antropologia-UnB e Direito-IESB, organizador da Marcha da Maconha de Brasília-DF.

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