Se a maconha é seu estilo de vida, veja 5 dicas para normalizar sua rotina

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O que venho contar é mais que um experimento, é uma constatação de fatos que preciso compartilhar. Normalizar é essencial para desmistificar um tema perante uma sociedade desinformada e estigmatizada, que precisa “ver para crer” para, por fim, mudar.  E quem pode mudar isso é você. Leia e veja como eu faço e experimente fazer também!

O novo assusta, o estranho espanta e o preconceito ajuda a sustentar uma proibição que corrompe e mata civis e militares todos os dias. Enquanto a sociedade não encarar o consumo e cultivo de uma planta como um estilo de vida ou ‘medicina alternativa’, o Brasil não vai regulamentar e para isso mudar você precisa ajudar a normalizar.

Normalização é um termo do sociólogo norte-americano Ervin Goffman que, nos anos 1970, explanou sobre as aparências normais serem aquilo que fazem com que os indivíduos como eu, você e toda a sociedade percebam uma determinada situação como algo sem perigo. E é o que acontece com a maconha, principalmente nos estados e países por onde a planta já está regulamentada, onde molda-se uma nova forma da sociedade encarar o consumo, como algo cotidiano e um direito individual, e pode-se constatar que os resultados da regulamentação são mais benéficos que os apresentados no período da proibição.

Então é isso que proponho a partir deste texto e coluna: que colaboremos para a normalização do uso de maconha. Está cada vez mais aparente o consumo da maconha nas grandes cidades brasileiras e pelo mundo. Tão normal como o uso de outro tipo de fumo ou de alguma bebida, por exemplo. Afinal, para mim que sou fumante de tabaco, seguindo as leis de fumo do Brasil, não me sinto constrangido e nem corro o risco de ser criminalizado por fumar meu cigarro, muito diferente quando fumo meu baseado e isso precisa mudar.

Normalize It

A maioria dos norte-americanos, seis em cada dez, apoia a legalização da maconha. A medida que mais estados buscam regulamentar e os mercados legais da cannabis crescem, a sociedade aceita no cotidiano a maconha como mais uma escolha de vida, como tomar uma cerveja ou fumar um cigarro, o que sem dúvidas ajuda a tornar sua cultura menos difamada.

Os Estados Unidos está no meio de uma mudança na opinião pública, que começou há pelo menos uma década e não mostra sinais de reversão. Cada vez mais, vemos indicadores de que a maconha está se tornando “normalizada” em todo o país e que o público em geral se adaptou muito bem à legalização.

O que quero dizer com isso é que falar sobre, debater e se posicionar como consumidor não é mais motivo de piadas, que muitas das vezes vinham da mídia e de proibicionistas. Agora, os americanos estão mais interessados nas receitas fiscais e benefícios pós-legalização e não em apontar o dedo para recriminar quem consome. E isso serve tanto lá, quanto cá.

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#PraCegoVer: fotografia da parte da frente de uma viatura da polícia militar passando com dois agentes que olham para uma pessoa em pé ao fundo, no segundo plano, vestindo uma camiseta verde onde se lê “NORMALIZE” em branco e apertando um cigarro entre as duas mãos da Av. Paulista. Créditos: Phill Whizzman.

No Brasil, o primeiro lugar do mundo a proibir a maconha (isso mesmo, fomos os primeiros a proibir o baseado ou, como era mais conhecido em 1830, o pito do pango), antes mesmo das políticas proibicionistas globais de Nixon que surgiram em 1936, a planta sempre foi um bode expiatório para tudo, principalmente como motivo para criminalizar os negros. Associada desde a crimes violentos, imigração ilegal e  até à manutenção do racismo, a maconha foi pintada como a “porta de entrada” para outras substâncias piores. Embora 100% dessas informações sejam falsas, desconstruir a ‘falsa verdade’ em que as pessoas acreditam é essencial para a quebra do estigma e por fim à proibição em terras Tupiniquins.

Embora não estejamos em 1830, a criminalização da maconha e outras drogas ainda é o principal motivo para abordagens violentas que levam muitos usuários para o sistema prisional, principalmente a população negra e pobre.

Na atual legislação penal brasileira, portar ou fazer uso de qualquer tipo de substância como são as chamadas “drogas ilícitas” – Maconha, Cocaína, Crack e outras – é sujeito a uma pena de até 15 anos de prisão em regime fechado. A última mudança legislativa ocorreu em 2006, e o texto não define com precisão, deixando de forma subjetiva a autoridade policial como responsável por definir se houve apreensão de algum ‘usuário’ ou ‘traficante’, e chegou-se a pensar que isso levaria à descriminalização das drogas, entretanto, após 10 anos da aprovação desta legislação, o encarceramento dobrou.

E como ativista acredito que a normalização, aliada a ações coletivas, é a melhor e mais eficaz forma da sociedade conservadora quebrar o tabu e enxergar a maconha como um produto qualquer, uma planta, um estilo de vida.

Algo que, quem em minha experiência e no meu círculo pessoal, já vejo ocorrer e no geral também. Como mostra a última pesquisa realizada pelo Datafolha, que registrou o maior apoio percentual da série histórica iniciada em 1995, com 32% em 2017 favoráveis a descriminalização, enquanto que nos anos 90 eram apenas 17%.

Somos milhões consumindo silenciosamente e isso precisa mudar

A antiga percepção da sociedade mais conservadora sobre a pessoa consumidora de maconha, precisa ser desconstruída. Somos milhões de consumidores que precisam serem ouvidos.

Através de levantamentos, estudos e pesquisas já publicados podemos afirmar que somos ao menos 3% do total da população brasileir,a 6,3 milhões de consumidores e facilmente esse número pode ser o dobro, já que muitos por medo de represálias não assumem o uso. Logo, acredito que  no Brasil somos mais de 12 milhões de consumidores da planta e sua cultura e que precisam falar, expor e explicar que a maconha é sim algo normal em seu cotidiano. Não é atoa que a substância ilícita mais consumida no país, conforme apontou a Organização Mundial de Saúde.

São pessoas que como eu e você, possuem famílias, responsabilidades, pagam contas e impostos, precisam assumir a responsabilidade de desconstruir a má fama da maconha e seus consumidores pregada por anos de proibicionismo.

Hoje, depois de quase 08 anos de existência da Smoke Buddies, e dos mais de 80 grupos regionais espalhados pelo Brasil, onde por exemplo só em duas regiões Rio e SP reúnem mais de 500 Mil pessoas é fácil ver que para a mudança acontecer basta nós mesmo fazermos.

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#PraCegoVer: fotografia em close de um broche no formato de uma folha de maconha na blusa de uma pessoa. Créditos: Diogo Vieira.

E para dar uma mão nessa missão, separei algumas ações que você pode fazer para ajudar a normalizar a maconha diante dos mais caretas.

1 – Chame de Cannabis ou chame de Maconha. Muitos preferem o termo científico e quase seguro de preconceito que é Cannabis. Eu e muitos outros ativistas preferem chamar de maconha. A própria palavra ‘maconha’ é um anagrama (inversão de letras nas palavras, formando outra palavra) de cânhamo (Hemp em inglês), fibra retirada da planta. A palavra sempre foi usada de forma pejorativa como uma substância de minorias o que motivou abusos contra os negros e pobres. Beira o absurdo mas é como se “o branco e rico” fosse cannabista e o “pobre e negro” maconheiro. O que para mim não é bem assim, portanto como forma reparação e para por fim a qualquer segregação prefiro sempre MACONHA!

2 – Não sustente o estereótipo “maconheiro, vagabundo e doidão”. Este sem dúvidas pode ser o mais complicado de se detonar. Muitos mitos e repulsas se criaram em cima do estereótipo do “maconheiro doidão”, que após fumar um baseado se rende a algumas opções, na visão dos caretas: como ficar chapado no sofá o dia inteiro sem fazer nada, sair alucinadamente cometendo atrocidades ou devorar na larica metade da geladeira. Tudo bem que cientificamente falando a última é verdade, mas para as outras opções serem desmentidas a pessoa tem que se posicionar antes de tudo como um cidadão, que possuí o direito individual de consumir uma substância -que no máximo será nociva a ela, tal como muitos consomem álcool e tabaco e mostrar também que usar maconha não impede de exercer suas atividades e obrigações.

3 – Estude, leia e fale mais sobre. O conhecimento é a melhor arma contra a ignorância e ainda hoje quando se fala de maconha, o que vemos é o reflexo de uma sociedade que foi fadada a seguir ao que poucos falavam, sem contra ponto algum, até hoje. De 2011 para cá há uma coletânea de artigos, estudos e pesquisas que comprovam os benefícios terapêuticos e da regulamentação da maconha para toda a sociedade e muito pouco disso ainda é propagado pelos próprios consumidores.

Se queremos mudanças temos que derrubar velhos mitos. Contra fatos e estudos não há argumentos e sim aceitação. Temos um mundo aos nossos pés alterando suas políticas com resultados espetaculares para se compartilhar. De imediato já deixo a dica: volte a home deste site, leia algumas, compartilhe sua favorita e chame todos para o debate!

Tão importante quanto ler e se informar é participar. O ativismo canábico no Brasil é forte e gera várias ações e movimentos durante todo o ano. Busque a página da Marcha da Maconha ou de algum coletivo antiproibicionista e se envolva.

4 – Eduque as crianças, mas principalmente seus pais e avós. Não será para hoje e nem para amanhã, é uma educação tem que ocorrer durante uma vida toda. Apesar de ser uma abordagem de longo prazo provavelmente é a mais valiosa para uma eventual mudança na sociedade e sua leis.

Lembre-se que não é afrontar, não é tacar fogo no baseado e sair baforando fumaça na cara de quem é contra que você conseguirá convencer alguém de que a regulamentação é a melhor solução e muito menos educar as crianças.

Continue sendo responsável com suas obrigações e debata sua necessidade de consumo com seus filhos, amigos e familiares de maneira apropriada. Mostre a eles que o consumo por adultos é seguro, possuí seus benefícios terapêuticos e como qualquer outra coisa deve ser usado com moderação. Se você estiver fazendo uso terapêutico para controle e tratamento de alguma condição, mostre resultados clínicos.

5 – Conheça a Lei e seus direitos. Tão importante quanto tudo acima e principalmente para segurança de quem consome é conhecer bem seus direitos como cidadão e inclusive o que diz na Lei de Drogas. Por mais que o ‘juridiquês’ afaste o cidadão de conhecer seus direitos, aconselho sempre ter o contato de um advogado e buscar se informar, com isso o abuso de autoridade e os erros que se cometem, que por fim acaba em detenção, poderiam ser minimizados.

Duas sugestões de páginas para seguir e se informar mais:
– Plataforma Brasileira de Política de Drogas – PBPD
Instagram da Reforma – Um coletivo de juristas que compartilham informações e ajudam a construir uma nova política de drogas no país.

Sem medo de repressão e tirando proveito da sociedade democrática que ainda vivemos, já passou da hora da pessoa consumidora se posicionar e mostrar sim que consumir maconha é tão normal quanto tomar álcool e fumar tabaco. Sem receios, chame aquela pessoa próxima e Normalize o assunto com ela. Acredite, após mais da metade dos Estados Unidos legalizar, o Canadá e o Uruguai, você verá que a missão é mais simples do que parece.

Tem alguma experiência de como foi normalizar o tema e quer compartilhar? Então envie um e-mail para davecoutinho@smokebuddies.com.br e conte mais.

Até o próximo texto…
e Normalize!

#PraCegoVer: fotografia (de capa) de uma senhora vestindo uma camiseta verde, onde se lê “A proibição mata todos os dias” em verde claro e segurando duas placas, uma em cada mão, com os dizeres “Pura, recatada, do lar e maconheira!!!” em uma placa e na outra “Sou Maconheira, não sou criminosa. Legalização Já!”, e ao fundo o morro Dois Irmãos. Créditos: Dave Coutinho – Rio de Janeiro.

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.
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