Em última entrevista, Otavio Frias Filho fala sobre relação com a maconha

otavio frias Em última entrevista, Otavio Frias Filho fala sobre relação com a maconha

Poucos dias antes de morrer, Otavio Frias Filho*, que dirigia a Redação da Folha de S.Paulo desde maio de 1984, concedeu sua última entrevista ao Jornal e falou, entre outras, sobre sua relação com a maconha e os benefícios proporcionados pela planta. Confira no trecho abaixo:

Poucos dias antes de morrer, Otavio Frias Filho conversou com o ex-jornalista da Folha e atual diretor de Redação da revista piauí sobre o plano de escrever um livro a respeito do pai (e de si mesmo). Ele rememora passagens da juventude, os tempos de ditadura militar, suas relações com o teatro e momentos de sua trajetória na Folha antes e depois de se tornar diretor de Redação do jornal.

Podemos falar sobre sua relação com a maconha? Se eu tivesse tempo de escrever esse livro, ia escrever bastante sobre essa questão da maconha. Porque isso é um assunto que ficou um pouco de fora do “Queda Livre”. E para mim é um assunto bem importante.

A impressão que eu tenho ao longo desses muitos anos é que a maconha jamais te deixou alterado. Pelo contrário, parece que ela te permitiu ser minimamente sociável. Sim. Esse lado imaginativo a que você se referiu para mim tem muito a ver com a maconha. Eu me dou muito bem com essa droga específica. A minha interpretação, no meu caso, é um pouco assim. Eu vou usar uma imagem, tá? Todas as pessoas têm elementos centrípetos e elementos centrífugos na sua personalidade. Eu tenho, muito forte, esse elemento centrípeto. E a maconha me dá, ou me libera, o elemento centrífugo, que me dá um pouco mais de liberdade pra pensar mais solto, pra falar mais solto.

Então é como se a maconha me pusesse no meio termo em que todo indivíduo deveria estar, idealmente. Porque ela me libera muito essa parte centrífuga. E, justamente, como eu sou tão centrípeto, ela não me tira do eixo, ela não me deixa desorganizado. Eu consigo ler e escrever, me lembrar do que eu leio.

Não te atrapalha em nada? Não atrapalha. É claro que eu sempre revi as coisas que escrevi chapado. Sempre revi, depois, quando eu não tinha fumado. Eu sempre admiti isso. Mas, no fundo, ela é, pra mim, quase que um elemento reequilibrador. Eu mudava poucas coisas no texto depois. Eu consigo ler, fazer anotações, mesmo escrever, tendo fumado. É o meu metabolismo, sabe?

Quando você começou a fumar? Foi em novembro de 76.

Você tinha quase 20 anos. E foi uma coisa importante desde o começo? Foi uma decisão. Uma das decisões conscientes mais importantes que eu tomei, porque às tantas eu decidi que ia experimentar. Experimentei, me dei bem. E ela tem um efeito calmante e também um efeito liberador de imaginação, sem que eu perca as medidas das coisas.

Não bagunça. Não tenho pesadelo. Tenho pouca paranoia, muito pouca paranoia. É uma coisa que funcionou pra mim. Eu fico funcional com a maconha. Embora eu ache que na maioria dos casos, pra maioria das pessoas, a maconha tenha um efeito desorganizador. Fora um efeito de perda de memória recente, que ela provoca em todos, inclusive em mim. Por isso preciso ler e anotar, senão eu me perco.

Para você tem certo efeito antidepressivo também, de livrar da angústia? Tem. Pra mim, tem. Eu tenho uma tendência depressiva, sempre tive. Desde criança. Eu não sabia os nomes das coisas, mas desde criança sabia que tinha uma tendência congênita à depressão. Não à depressão forte, mas a uma depressão suave.

*Otavio Frias Filho era advogado, jornalista, ensaísta, dramaturgo e diretor de Redação da Folha de S.Paulo.

#PraCegoVer: fotografia (de capa) em primeiro plano do jornalista Otavio Frias Filho. Créditos da foto: Lenise Pinheiro.

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