O negócio da maconha

 O negócio da maconha

Em artigo especial, o portal UOL mostra que, camuflado ou não, o mercado legal de acessórios para uso de maconha no Brasil não para de crescer desde alterações na lei de drogas do país.

O fato de o Brasil ter proibido a maconha, em 1938, não impediu seu consumo. Estudo de 2016 feito por uma consultora contratada pelo Congresso Nacional estima em 2,8 milhões os usuários de Cannabis sativa no país. Um mercado que movimenta R$ 5,69 bilhões em busca da erva ainda ilegal. Amparada por duas leis recentes –a que despenalizou o porte e a que derrubou a proibição do debate sobre o consumo–, a indústria de acessórios já fala abertamente desse mercado, ainda sob o guarda-chuva dos produtos para tabacaria. O UOL percorreu escritórios, visitou fábricas, conversou com especialistas e procurou empresários, dentro e fora do país, para discutir esse setor.

Leda brothers

O sobrado no Itaim Bibi (zona oeste de São Paulo) abriga o escritório da maior produtora de papel de seda do Brasil. Nele, está instalada meia dúzia de pessoas, entre elas os irmãos Renato e Giorgio Volonghi, donos da empresa de papel para enrolar cigarros.

“Tudo começou fumando um baseado”, diz Renato, o criador da empresa aLeda. “Um amigo me apresentou um papel transparente, que não era usado comercialmente para isso, só na área alimentícia. Achei interessante, porque podia servir para fumar. Desse dia em que eu fumei e disse que podia fazer alguma coisa com isso, levei mais de um ano. Fui para a rua até chegar a uma indústria de papel que me indicaram a fábrica. Saí extasiado: ‘Achei’. Deram risada da gente [risos].”

 O negócio da maconhaA marca, dizem Renato e Giorgio, não escancara a relação com o mercado canábico. Mas os dois sócios, como pessoas físicas, sim. Renato, por exemplo, é o @aLedaman na rede social Instagram. Lá, compartilha fotos relacionadas ao uso da erva. Giorgio mostra uma jaqueta de couro, com a estampa “Ledabrother” nas costas. “Veja se ele não está tentando me doutrinar.”

A empresa aLeda assume ser parte de um engenhoso negócio que existe, e só não é formalmente legalizado: o uso de maconha. Desde 2006, com a Lei nº 11.343, a posse de drogas para consumo próprio foi deixou de ser crime, não cabendo mais a pena privativa de liberdade. Ainda há cerceamento –a lei não estabelece quantidade que distinga o tráfico do uso. A repressão, no entanto, ficou mais branda.

A isso, somou-se ação direta de inconstitucionalidade 4.274, de 2011, que excluiu do parágrafo 2º do artigo 33 da mesma lei a proibição da manifestação e o debate público sobre a legalização do consumo. As duas decisões começaram a desmoronar as regras que mantêm em pé a criminalização do uso.

“A gente sempre fala tanto que tem Deus na nossa história que o nome do designer é Jesus. E é careta!” – Giorgio Volonghi

“[A empresa aLeda] Sempre foi [associada à cultura da maconha], mas nunca explanou”, diz Renato. “Era sutil, e agora está em um momento de se posicionar oficialmente. A gente acredita, até por ser usuário, que a gente tem que fazer isso. É o nosso papel. Vale a pena colocar isso de maneira organizada.”

aLeda (com a primeira letra minúscula, mesmo) é a principal –e talvez a primeira– história de sucesso do mercado da maconha. “As manos de Diós ajudaram a gente”, diz Renato, na sala em que, em um grafite, duas mãos estendidas encontram a seda da família –quase uma imagem bíblica. “A gente sempre fala tanto que tem Deus na nossa história que, se eu falar o nome do designer que fez a nossa marca, você não vai acreditar”, brinca Giorgio. Jesus, chuta a reportagem. “Jesus! E é careta!”

“[aLeda] agora está em um momento de se posicionar oficialmente [sobre a legalização]” – Renato Volonghi

Papel na legalização

 O negócio da maconhaAs novas regras impostas desde 2006 permitem que o jornalista carioca Fábio Bastos, 36, estampe nas embalagens de sua Sediña o slogan “la marca de la legalización”. As sedas já são vendidas no Brasil, embora fabricadas no Uruguai, onde a maconha é legalizada desde 2013.

A lei que proíbe o comércio, a produção e o uso das variedades sativa e indica da Cannabis no Brasil é de 25 de novembro de 1938. No artigo 2º, da “produção, do tráfico e do consumo”, o presidente Getúlio Vargas proibia, no território nacional, “o plantio, a cultura, a colheita e a exploração” do ópio, da cocaína e do “cânhamo Cannabis sativa e sua variedade indica”. Na época, o país vivia a ditadura do Estado Novo: o Congresso estava fechado, e a proibição não foi submetida à apreciação parlamentar.

Bastos –que diz lutar globalmente pela legalização da maconha– não esperou que a legislação arrefecesse e partiu para o Uruguai há quatro anos para plantar cânhamo. De lá, migrou para Bangcoc, onde vive em uma intensa ponte aérea com a China, local de sua fazenda de 300 hectares destinada à produção da erva, com incentivos do governo local (na foto, ele abraça sua plantação na Ásia). Mais do que as sedas, extrai tudo o que a Cannabis sativa puder proporcionar: tecidos, material para a indústria, óleos medicinais e sementes comestíveis. Espera a oportunidade para plantar o cânhamo, a planta da maconha, no Brasil.

O faturamento global da empresa é de cerca de US$ 5 milhões anuais (equivalentes a R$ 17 milhões). “No Brasil, o faturamento é vergonhoso ainda”, diz. “Há uma grande hipocrisia. Já fui procurado por dois deputados e um senador querendo botar dinheiro na parada, mas eles fazem militância contra [a legalização da planta]. No Brasil, todo mundo quer [faturar], mas não quer botar a cara a tapa.”

Bastos nomeou um representante no Brasil, Jorge Morenno, 26. Ele atende à reportagem em um edifício de Alphaville. De boné de aba reta, com o nome Kingston, a capital da Jamaica, estampado nos dois lados, Morenno foi nomeado diretor-executivo da companhia no Brasil e trabalha com mais seis pessoas na sede brasileira da Sediña.

“Nem todos fumam [maconha], mas respeitam a causa”, diz. Ele divaga sobre o mercado: é extenso, mas ainda restrito às tabacarias e aos recentes headshops –uma espécie de supermercado para usuários de maconha, licenciado também como tabacaria. “Nosso trabalho vem de maneira lenta. O Nordeste e o Centro-Oeste mostraram-se mais interessados. O consumidor se identifica com a nossa ideia pró-legalização. E evitamos nos associar ao tabaco –nunca a Sediña vai atrelar nada ao consumo de tabaco.”

No Brasil, existem headshops que vendem produtos para fumar maconha em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas (SP) e Londrina (PR). “Não temos um nicho pequeno. O uso não é modismo. Muita gente fuma. A legalização do seu uso é importantíssima em termos econômicos. A maconha é um mercado quente”, afirma o publicitário Rodrigo Oliveira Martins, 34, do headshop Sr. Haxi, de Salvador.

O mais antigo dos headshops, o Ultra 420, que funciona desde 1996 em São Paulo, tornou-se franquia. Em 2007, foi aberta uma filial no Rio e, neste ano, uma em Barão Geraldo, em Campinas (98 km de São Paulo). “A margem de lucro para acessórios de maconha é alta: gira em torno de 100%”, diz Alexandre Perroud, dono da rede. A maior parte dos acessórios para fumar maconha no país ainda é importada, diz. “Em torno de 70% a 80% dos produtos são estrangeiros. Já foi pior, houve uma ampliação da fabricação nacional de alguns itens, como as sedas.”

“Evitamos nos associar ao tabaco –nunca a Sediña vai atrelar nada ao consumo de tabaco” – Jorge Morenno – Diretor-executivo da Sediña

 O negócio da maconha

O grande galpão das piteiras

Em um grande galpão na Barra Funda, à beira dos trilhos de trem da antiga ferrovia Santos-Jundiaí, cadeiras de bebês e rebatedores fotográficos são apresentados à reportagem antes que Marcus Mendonça, 48, nos leve até a mesa onde mostra seus produtos.

São piteiras, um acessório que garante o consumo do cigarro até a última ponta sem que os dedos nem a boca queimem e evita que doenças, como herpes, sejam transmitidas. O nome é sugestivo: Yellow Finger –uma referência ao estado que a ponta dos dedos fica quando o cigarro sem piteira chega ao fim.

“Quando fui contar para o meu sogro, eu disse que era como a Nadir Figueiredo [fabricante de copos de vidro]: se quiser tomar água, você toma; se quiser beber outras coisas, fique à vontade”, diz.

Mendonça é publicitário e com um vasto currículo. Já apresentou programa de humor no rádio e organizou a eleição da nova loira do Tchan (aquela, entre Sheilla Mello e Daniela Freitas, em 1998). “Só tinha lá fora [a piteira]. O sócio que deu a ideia era usuário e queria fazer aqui. Fizemos a menor do mundo, com serrinhas e picote [para destacar]”, diz Mendonça

Como a seda, nem todo maconheiro utilizava a piteira para fumar. Mendonça saca do bolso uma caixa de cigarros e mostra como as piteiras eram feitas: do papel do maço de cigarro, enrolados com a espessura e a tinta que as embalagens eram produzidas. “Nossa piteira não é tóxica como isso.” O negócio expandiu com piteiras de madeira descartável e de vidro de murano. E veio também o pilão.

“Nenhum produto é direcionado para o usuário de Cannabis”, diz. “É feito para fumar. Mas acredito que 95% dos meus consumidores utilizam para isso [fumar maconha].”

“Quando fui contar para o meu sogro, eu disse que era como a Nadir Figueiredo: se quiser tomar água, toma; se quiser beber outras coisas, fique à vontade” – Marcus Mendonça

“Não compre, plante”

 O negócio da maconhaPor indicação de quem costuma cultivar a própria erva, a reportagem chega a uma pequena porta, na região oeste de São Paulo, que dá acesso a quem quiser comprar fertilizantes e material para cultivar o que bem entender dentro de casa. A escolha é do cliente. São vasos, fertilizantes, adubos e luzes que intensificam o crescimento da planta. É uma loja de jardinagem não muito diferente das outras do ramo: a Jardins Urbanos quer que você produza o que você consome.

“Minha loja é a primeira de hidroponia no Brasil”, afirma o empresário William Lantelme, 41. A técnica, em resumo, é a de cultivar plantas longe do solo característico. Em vez de terra, as raízes recebem uma solução com água e nutrientes. Dá para cultivar o que quiser em casa, desde alface até… maconha. A prática, no entanto, não é exclusiva de maconheiros que plantam em casa. “Tudo o que a gente traz para cultivo é para plantar qualquer coisa.” Os nutrientes dividem o espaço com suas duas cadelas.

Há, entre os usuários, a parcela que prefere a produção caseira para fugir das armadilhas do tráfico: caso a maconha seja misturada com acetona, por exemplo, ele não tem com quem reclamar. “A proibição traz mais custos para o Estado”, afirma Lantelme. “O que é mais barato: combater pesticida ou tratar câncer?”

“Muita gente vê que esse mercado [do cultivo indoor] dá grana, mas as coisas só vão funcionar quando estiver legal”, diz Lantelme, especificamente sobre quem se arrisca a plantar maconha em casa. “Hoje em dia tem uma galera ganhando com cerveja artesanal porque é legal. Tem bar, festival que está movimentando. Isso cria um mercado que está bombando e movimentando a economia. Eu acredito que existe esse mercado, mas tem gente que acha que dá para ganhar muita grana, e não é nada disso. Isso só vai mudar quando as leis mudarem. Por enquanto, isso é só hobbie para quem se arrisca.”

“A proibição traz mais custos para o Estado. O que é mais barato: combater pesticida ou tratar câncer?” – William Lantelme

Herança varguista

 O negócio da maconha“Eu até me preparei para esta entrevista para não ficar o estereótipo do maconheiro que não tem memória”, diz, em tom acelerado, o professor Francesco Ribeiro, o Mandacaru.

Um dos principais ativista da maconha no Rio, ele dispara em várias frentes: edita revista (a “Maconha Brasil”), organiza feiras (a Pot In Rio), dá palestras e aparece em todos os eventos em que é convidado.
Mandacaru não teme escancarar: quando teve a ideia de criar a revista, quis que o nome fosse “Maconha”. “Por que ‘Maconha’? Ora, a maconha sofre preconceito até de quem trabalha a questão da liberalização. Até na feira da maconha queriam botar ‘feira canábica’. É feira da maconha, porra.”

A proibição da maconha por Getúlio Vargas, ainda em 1938, não impediu o consumo no Brasil. De acordo com o estudo encomendado pelo Congresso “Impacto Econômico da Legalização das Drogas no Brasil”, da consultora legislativa Luciana da Silva Teixeira, 2.774.712 pessoas são usuárias de maconha no país (1,5% da população).

O mesmo estudo aponta que cada consumidor gasta, em média, R$ 2.073,60 por ano com a droga, com consumo per capita de 480 gramas por usuário. O faturamento total com a droga seria de R$ 5,69 bilhões por ano, mesmo com a proibição.

“Negar que esse consumo exista é expor a população a problemas de saúde. Ela quer fumar no melhor papel e saber a procedência daquilo que ela usa”, afirma Mandacaru, um ex-professor de história que perdeu o emprego ao incentivar o cultivo indoor em um programa de TV –“A Liga”, que era exibido pela TV Bandeirantes.

“Era tudo mais difícil, e muitos tinham medo de se associar [ao consumo]. Eu era ativista do plantio, e acho que o plantio é um dever cívico. Tive de sair do emprego, mas caí para cima. Há uns oito anos, todo mundo era ativista. Hoje é tudo misturado. Misturar empresa e ativismo é perigoso. Tem uma galera que só quer ganhar grana. Mas o maior ativismo é feito pelo mercado econômico.”

“Misturar empresa e ativismo é perigoso. Mas o maior ativismo é feito pelo mercado econômico” – Franceso Ribeiro, o Mandacaru, editor da revista “Maconha Brasil”

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Sobre Smoke Buddies

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