Drogas sintéticas: Paulada pura para quem usa e soco no estômago na política de drogas

 Drogas sintéticas: Paulada pura para quem usa e soco no estômago na política de drogas

Enquanto o Estado insiste em utilizar a violência e a repressão na tentativa de se combater as drogas, um novo estereótipo de “traficantes” surge como um tapa de pelica na política repressiva de drogas. Entenda mais sobre as novas substâncias sintéticas no artigo de Piti Hauer* para o Paraná Portal.

Já ouviu falar de 25B-NBOMe ou Pandora? 2C-B e Metilona? 6-APB e Mefedrona? Flobromazolam, Spice ou K2? Pó de Macaco, Flakka e Miau-Miau? Pois é, estes são alguns exemplos de substâncias psico-ativas sintetizadas em laboratório e são algumas das drogas sintéticas que tem em sua composição a anfetamina e o meth e seus princípios ativos não são encontrados na natureza.

A hegemonia das drogas ilícitas naturais irá acabar, a maconha originária da “cannabis”, a heroína da flor papoula e a cocaína das folhas de coca serão, daqui a alguns anos, o instante de uma época “cult”, onde discutia-se a legalidade e o proibicionismo das drogas. As drogas de laboratório ou sintéticas crescem em números avassaladores entre os jovens do mundo todo e é um negócio mais tranquilo e lucrativo para quem as produz.  Elas já são a coqueluche das drogas, assim como foi o LSD nos anos 60 e a cocaína nos anos 80 e, segundo a ONU, a cada 3 dias surge uma nova droga produzida em laboratório.

O tsunami do mercado do prazer efêmero das drogas sintéticas é o mais apreciado e consumido entre o público frequentador das baladas e raves já há algum tempo e multiplica-se nas camadas sociais das classes média e alta, são geralmente universitários, boa escolaridade, estão inseridos no mercado de trabalho e são produtivos em uma sociedade civil organizada. São consumidas em um contexto predominantemente recreativo, onde a música e o cenário contribuem para a “viagem”  e o bem-estar do indivíduo, alterando o seu estado de consciência e, em sua maioria, não consideradas ilegais. É o autêntico efeito bumerangue escarrado na ineficiente Política Pública sobre Drogas, onde a prevenção, a informação e o tratamento foram sobrepujados pela agressividade, intolerância e repressão ao usuário e/ou dependente químico.

Mas como que surgiram as drogas sintéticas? Quem as criou? Quais os riscos oferecem? Por que sua comercialização é permitida? A primeira droga sintética que se tem notícia surgiu em 1869 com a designação de Hidrato de Coral. Reveladas ao Mundo de uma forma peculiar, em forma de incenso e sais de banho e assim adquiridas via internet, em 2011 por causar um envenenamento em quase 7 mil pessoas nos E.U.A. começaram a constar nos relatórios da ONU sobre drogas. São produzidas em pequenos locais como sala, garagens, quartos ou porões – laboratórios caseiros – a partir de produtos que podem ser comprados em Supermercados, lojas de conveniência e farmácias; reproduzem os efeitos da maconha, haxixe, cocaína ou qualquer outra droga e são altamente potentes. Os efeitos destas drogas são os mais diversos, muito depende de como é administrada e em qual forma é consumida (comprimidos, injeção, papel ou pó), elas estimulam o Sistema Nervoso Central, causam uma aceleração do batimento cardíaco, sudorese, náuseas, calafrios, euforia, taquicardia, insônia, perda do apetite, midríase (dilatação das pupilas), desidratação, aumento da pressão arterial e vertigens e as pessoas tendem a ficar agressivas, à depressão grave, comportamentos suicidas e podem levar a óbito, e com o uso frequente, podem causar danos na atenção, na memória e no fígado.

No Brasil, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde o consumo destas NSP evoluem em progressão aritmética, as drogas sintéticas, além do ecstasy e 2CB, são a Pandora (25B-NBOMe) e o “Ice” ou “Meth”. A primeira imita o LSD com efeitos devastadores e a segunda  é uma metanfetamina potentíssima em forma de cristais e muito mais perigosa que o crack e já presente com até 20% na composição do ecstasy.  O “Boom” destas drogas sintéticas já começou, elas se proliferam por uma série de fatores que as favorecem como a sua obtenção  – 4 mil laboratórios na China e Índia vendem a maconha sintética, 500 vezes mais potente que a natural através da internet -, muitos componentes em suas fórmulas são legais, tem um alto rendimento em custo/benefício, são drogas limpas e de fácil administração não precisando de cachimbos, cartões, pratos, seringas, isqueiros, sedas, dechavadores ou qualquer outra parafernália que é necessária para o consumo das drogas ilícitas naturais e tem efeito prolongado de até 12 horas ou mais. Além do mais, através da internet, a aquisição destas substâncias é muito fácil, basta fazer o pedido nos sites disponíveis e o produto será entregue em sua residência, muitas vezes etiquetados como sais aromáticos, de banho ou enfeites.

Este novo tipo de estereótipo da droga é um soco no estômago da atual política repressiva sobre drogas, a descentralização de um modelo de traficante truculento, mafioso ou ocupante em biqueiras nas favelas se desfaz com a possibilidade de qualquer “nerd” em química ser capaz de inventar algo novo e extremamente potente de um momento para o outro, como é o caso da série “Breaking Bad”. O ordenamento legal em qualquer esfera não consegue dar conta deste novo quadro de substâncias, que até a realização de estudos e testes para serem classificados como drogas, são Legais… mas o principal é saber que, mesmo sendo adquiridas legalmente, as Novas Substâncias Psico-Ativas não são seguras, elas são muito mais nocivas e letais que as tradicionais…é paulada pura. Nestes casos se faz necessário e urgente, como forma de enfrentamento a esta nova escalada de drogas, medidas e investimentos em informação e prevenção, pois o conhecimento é a melhor forma de combatermos esta nova realidade.

*Piti Hauer é presidente da Comissão de Políticas sobre Drogas da OAB-PR, representante da OAB-PR no Conselho Estadual de Políticas Públicas sobre Drogas do Estado do Paraná, especialista em Dependência Química pela UNIFESP, Professor na Faculdade Bagozzi e 1° Vice-Presidente da Fepact – Federação Paranaense das Comunidades Terapêuticas.

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#PraCegoVer: ilustração (de capa) mostra uma arte psicodélica de uma cabeça humana, em perfil, olhando para cima e com parte posterior transformada em ramos em tons de azul que saem para fora da imagem; podemos ver bocas abertas e olhos dispersos por toda a ilustração, com um fundo que lembra o espaço sideral. Créditos da arte: Chris Kindred.

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