MACONHA E QUILOMBO

 MACONHA E QUILOMBO

Apesar da escravidão, os negros escravos criaram para si uma verdadeira comunidade ecológica, utilizando as materiais que a natureza lhes dava para fabricar seus utensílios, moradias, colhiam seu próprio alimento e plantavam sua própria maconha. Entender essa história é entender a atual repressão policial quando pensamos em drogas e na população negra brasileira. O advogado e ativista, André Barros, te dá uma mãozinha em sua coluna de hoje.

Ao longo de nossas pesquisas acerca das raízes racistas da criminalização da maconha, dentre várias notícias de jornais dos séculos XIX e XX, meu amigo Pacheco encontrou um artigo sobre o advogado e escritor Edison de Souza Carneiro (1912-1972). Membro do Partido Comunista Brasileiro, a partir da década de 1930, Edison foi um dos maiores etnólogos brasileiros, especializado em temas afro-brasileiros.

Foi ele quem escreveu o livro “O quilombo dos Palmares”, sobre o quilombo mais importante da História do Brasil, que chegou a ter vinte mil moradores em seu apogeu, no século XVII. Como os demais quilombos, era formado por negros que fugiam da escravidão em busca da liberdade, e teve em Zumbi dos Palmares seu maior líder. A lei federal 10.639 de 9 de janeiro de 2003 estabeleceu a comemoração do dia nacional da consciência negra para 20 de novembro, pois foi neste dia, em 1695, que o herói Zumbi foi assassinado. Ele comandou o quilombo, também conhecido como a República dos Palmares, situado no atual estado de Alagoas, entre 1678 e 1695. A lei estabelece que, no ensino fundamental e médio, em redes oficiais ou particulares, é obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira. Esta lei é desrespeitada em várias instituições brasileiras e o seu ensino é fundamental para entendermos porque a polícia entra atirando e matando negras e negros, nas regiões pobres onde moram, vivem e resistem até hoje a todo um sistema social racista desse nosso capitalismo periférico de raízes monarquistas e escravocratas.

Em seu estudo, Edison Carneiro demonstrou que os quilombolas conseguiam retirar do solo e da mata o necessário para seu sustento, vivendo de forma saudavelmente ecológica, e fabricavam com madeira, fibra e barro suas casas, potes, vasilhas, vassouras, esteiras, chapéus e cestas. Viviam de forma comunitária e plantavam sua própria maconha, consumindo o “fumo de Angola” em cachimbos feitos com cocos de palmeira.

O grande escritor comunista viu no Quilombo dos Palmares uma vida comunitária e tomo a liberdade de interpretar que a maconha influenciou na formação de uma sociedade comum e igualitária, que resistiu por mais de um século de escravidão.

 MACONHA E QUILOMBO

Sobre André Barros

ANDRÉ BARROS, advogado da Marcha da Maconha, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros e terceiro suplente de Deputado Estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.

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