Literatura Sativa: Um cavaleiro andante nas andanças da ciência

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Eu não acredito em fim dos tempos, mas sei que há o fim do meu tempo aqui nesta vida. Se há outra vida? É lógico que há: ou você pensa que virando pó eu não entro pra forma de uma árvore ou antes disso, não me jogo num rio e grudo ao limo em uma rocha? Será divertido ser pó. Outra vida? Sim, talvez haja sim, por quê?

Agora, sou que nem ladrão, depois que eu li o norte-americano Henri David Thoreau de trás pra frente, durante a minha profissão como guarda prisional do estado brasileiro, num tempo em que vivi pra ser professor de letramentos, e acabei sendo um criminoso da Justiça: por usar a maconha em horário e local de trabalho, na função de guarda, tomei naquele lugar.

Detesto a política partidária, mas sou ensinado a ter maior medo de um fundamentalismo islâmico do que de minha pena capital do intelecto. Sou revolucionário pacifista, um anarquista escritor, e nesse ponto, sou capaz até de fazer mal a mim mesmo apenas. Aos outros, eu não faço.

Todos dizem isso na prisão: eu sou inocente!

Minha história vem de lá em uma cela de cadeia.

Atrás das grades, fui um bispo visionário.

Sonhava com o dia em que a maconha seria vista com maior credibilidade e eu solto, seria indenizado em moedas cunhadas de berlotas (de maconha), assim como os anti-heróis da Ditadura Militar, no Golpe Estúpido de 64, que nunca foram talvez deletados como serei com este livro. Eles são pessoas iguais a mim. O Chefe da Justiça, indenizado por passar quase dez dias presos pelos militares, assinou o papel que me exonerou do cargo de guarda, mesmo sabendo que o meu mal era só o bem de fumar maconha, remediando-me. Afinal de contas, eu sozinho, mas nenhum preso escapou, nenhum foi torturado, naquele momento, nenhuma família se manifestou contra mim, além do mais, executei meu serviço todo buzinado de depressão, sem armas, a não ser a chave, e, por isso, fumava tranquilo, pelo descaso do sistema prisional, ao permitir guardas sozinhos em uma cadeia perigosa. Que bomba não pode explodir?

Eu fumava maconha, estava safo! Estava mesmo era só e sozinho ninguém deve trabalhar, eis a lei… Como posso ser condenado por tal lei que permite que um guarda esteja sozinho, fumando maconha e ninguém estava lá para prendê-lo? Eu que fumei, mas e eles que podem confessar que erraram, deixando
guardas do sistema prisional trabalharem sozinhos? E por que simplesmente não há efetivos de guardas suficientes no Castelo da Morte até hoje?

Mas se errei, não sei qual foi o mal que ocorreu. O chefe de Justiça é mais um ser humano bendito sob a figueira amaldiçoada de Cristo. Prefiro de Cristo ser a figueira a ser um homem maldito. O Chefe da Justiça, desgraçado! Foi ele mesmo quem virou a minha diplomacia de cabeça pra baixo. Que mundo cão! Eu fumei sozinho na cadeia, sendo um guarda, e agora sou preso-escritor. Enquanto isso, o sistema que me deixa sozinho trabalhando e cuidando de duzentos presos deveria ser destruído, né?

Nenada. Não entendo de lei, apenas sei de ser guarda prisional que curte muito mais uma Literatura fantástica, Rock’ Roll e Reggae há muito mais tempo. O Direito me condena, então eu fujo de sua bobagem. Paro na concepção de Direitos Humanos e viro uma teoria que não se sustenta na prática. Repito no espelho uma revelação:

— Eu, Che Cannabis, um teorema de mim mesmo, fadado ao progresso heróico da nação, só na teoria paradoxal.

Mudemos logo de assunto, antes que eu perca o “feelling” e a coisa toda de me ler perca o seu estímulo. Estimular uma pessoa à leitura é uma missão de professor, mas antes, é um destino do escritor, esteja ele aqui em mim ou lá em vossa mercê. Hoje você, hoje do telegrama ao homo zaping. Vou dizer meu nexo agorinha, veja só que coisa. Começo primeiro contando que eu li um livro que me fez feliz e depois chorar…

Você consegue sentir isso? Você já ficou chorando de ler um livro bem escrito, um Dom Quixote? Eu já e, em estado de um preso político, me sinto um Dom Quixote às avessas agora, catalogando tudo isso. Ao invés de chorar por Dulcineia, a minha amada única e derradeira. Eu, Che Cannabis, um cavaleiro andante nas andanças da ciência, maconheiro de La Mancha da Corrupção Política, um quase “Made in Brazil”, mais um que sorriu da profecia de que é mais fácil ri do que chorar.

Hoje, choro na metamorfose real obtida pela leitura caduca de um Kafka sem coisa. Medicado, ontem, me veio um barato de me trancar no quarto de adolescente, complexado com minha importância para a vida e o sistema capitalista. Embaratei-me na careca do vovô. Eu valho nada, dizia-me o Zero. À esquerda de um número qualquer para eles, o zero funda-se em meu prêmio.

Waldemar Valença Pereira é Professor, mestre profissional em letras e autor da obra literária  “Pé de Maconha – Che Cannabis nas andanças da ciência” que aborda a erva em prosa e poesia. Entre em contato com o autor através do email checannabis@hotmail.com ou através da redação pelo contato@www.smokebuddies.com.br.

Ilustração: Cacique Zé Coice, João Divino e Danieluiz

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