Literatura Sativa: Primeiras Vezes

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Até um calor de serra seria como um brinde. Desejava qualquer um ainda que esse, última memória, pouco conseguia lembrar. Sentiu o clima de abaixo e negativos, e a distante espera por retorno, onde o todo era lento, lembrou de racionais, sem o vigia, a descida valia menos que manter-se sem vontade por mais um gole.

O suor havia ficado diferente e raro, do vento frio, chuva, ruas vazias, freguesias habituais.
Em volta para casa, cambaleante reparou naquela viela suja como tantas do lugar, com a diferença de avistar ainda longe uma curva de mão, aquela que fere não a que afaga. Na direção tomada, o que parecia ser uma sombra feminina, a falta de hábito com um novo local prejudica não só a visão como o discernimento.

Manteve a direção e a procura por uma lixeira para descartar as guimbas parecia justa, mesmo sem a ideia recente de ser multado. Dentro do beco, que parecia saído de um filme daqueles que cansam as pupilas com seus diálogos. Um homem tentava violentar uma jovem, coberta com casacos que funcionavam providencialmente como anáguas em outros tempos. O impulso de ser apenas um desconhecido em desgraça não deixou dúvida. A garrafa com sobra de cerveja virou arma e a nuca virou poça.

Desejo de justiça? Em parte evidente, sim. Ao contrário dos comentaristas de portal, nunca cogitara a ideia de sexo não consentido. Porém o impulso que evaporou o ato surpreendeu os três presentes, inclusive o desacordado. Guardou a faca, vista de tão longe graças aos óculos novos. Uma recordação de que precisava esconder.

Lembrando de comprar outra cerveja apertou os passos, por entre cacos e cascos. Enquanto isso, a nanica encasacada corria em direção à rua, sem agradecer. O que afinal pareceu bem compreensível visto que ela não estava nada bem. Talvez em um filme eu diria que teríamos comprado um vinho e ido para casa juntos.

Mas o asco pingando do rosto em pânico, sumiu na direção de um carro de autoridade onde provavelmente foi relatar o acontecido. A sirene girando soou como sinal de escola, deveria ir embora o mais rápido possível, e o sonhado calor de momento virou hora do retorno.

Sequer cogitou a possibilidade de ser alcançado, um movimento em L o colocaria em segurança, pensou, enquanto corria procurando seu isqueiro em um dos oito bolsos. Ao alcançar, no sétimo, o da esquerda do casaco, ouviu o que parecia um som de moto vindo por seu caminho.

Lembrou de um ensinamento da juventude, ainda em sua formação, nos seus caminhos e não hesitou. Vagaroso o passo, sentou na calçada e acendeu seu baseado. Já não era mais crime, e era melhor parecer menos culpado.

Calmo e aceso brincou com o fogo antes de guardar e notou que não havia moto, nem mais ninguém a sua volta. O ruído era apenas o morcego da novidade feita. Primeiras vezes são assim mesmo.

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Sobre Gabriel De Lucia Murga

Jornalista, ator e criador da página Brisa de Cultura no Facebook. Já trabalhou na Folha de S. Paulo, no jornal O Lance e faz parte do time da redação do Smoke Buddies.