Literatura Sativa: Eu vivo pra ser um ativista

 Literatura Sativa: Eu vivo pra ser um ativista

Continuarei tudo confessando de pouquinho em pouquinho. É que dói ser eu mesmo sem nunca eu me ser! Na verdade, não é dor, é apenas um desconforto.

Sou novato na praça dos escritores brasileiros e nunca passarei de uma obra literária até o resto da minha vida: a verdade é essa. Eu, Che Cannabis, sou chato de fato: belicoso, crítico e mordaz, meu fluxo da consciência é sem beleza filosofal.

Além do mais, eu posso mudar o rumo da minha vida, e não posso mudar o rumo, sem mudar minha direção de pensar. Por isso, embora seja um chato fadado ao mundo da chatice, eu me esforço pra ser do bem.

Não se iluda com meu título. Aprofunde-se em minha história de vida e saberá que eu fui feito de banda. Meus pais fizeram entre eles (não sei se havia mais alguém) um sexo de lado, então eu fui gerado e nasci prematuro.

Acho que morrerei cedo, aos quarenta anos, logo que deixar essa cadeia pública, virá outra perseguição, eu sei. Só não sei se será de carros, ou de motos, pode ser que seja a pé, ou correndo.

Sou visto com maus olhos pelos policiais militares e pelos amigos Guardas Prisionais. Não obstante, vou ter problemas mesmo é diante da injustiça da Justiça amanhã.

Hoje ou amanhã, moramos na Ditadura da Democracia, está claro isso!

Em qual regime democrático os direitos dos cidadãos todos estão só no papel: casa, saúde, educação, blá blá blá?

A Democracia deles é sem casa pra todo mundo e de um salário mínimo escroto, desculpe a palavra. Uma cara de ânus, é a política nacional. Pare de reclamar do governo e vá trabalhar, eles dizem.

— O que foi que eu fiz pra estar preso? Fumar é crime: fui punido. Agora vivo à mercê do perigo. A Justiça tem sede de vingança, eu morro na esperança de ver um dia um Brasil de pé, erguido, olhando pra gente pobre com escolas adequadas.

Vão para o Diabo com tudo isso!

Eu não nasci pra servir de maconheiro, nem de usuário. Eu vivo pra ser um ativista. Será que você me viu, na Marcha da Maconha, em 2011? Eu fui filmado por todos os canais de televisão. Eu estava lá. Trazia no rosto um sorriso de felicidade e levei pra vida uma marca de tristeza da cara que faziam os homens da polícia. Eles estavam doidos pra sentir no ambiente um cheirinho de marola no ar.

Lula, o nosso presidente, sentiu o cheiro, abriu a lei contra as drogas, de FHC, que prendia até o usuário de maconha. Lula abrandou as penalidades com palestras, para palestras educativas etc e tal, e chamou a crise internacional de “apenas uma marola”. Por outro lado, o maconheiro continuou sendo desrespeitado por todo tipo de polícia, pobre coitado!

Coitado mesmo! Que marola que até hoje dura… Estamos em 2016 e a marola não passou. Foi uma plantation de cannabis sativa mesmo, marola da pesada? A marola não passou, e eu estou hoje à espera de um troço de um papel que me liberte da cadeia. Um tal de Alvará de Soltura, documento que me custou os olhos da cara. Virei meu próprio Édipo-rei.

Não sei ao certo de tudo e sei que ninguém deve saber da verdade das coisas por completo. Ninguém mesmo. Sempre eles me perguntaram por aí assim:

— Fumar maconha faz bem, Che Cannabis? Eu não acho você um cara normal, sabia?

— Eu acho que sim, mas a ciência tem certeza. — eis o que digo aos meus inquisidores.

Sei que, de qualquer jeito, se me perguntarem, em juízo, afirmo que sou inocente até a morte, ou um pouco antes, se houver o fim dos tempos.

Waldemar Valença Pereira é Professor, mestre profissional em letras e autor da obra literária  “Pé de Maconha – Che Cannabis nas andanças da ciência” que aborda a erva em prosa e poesia. Entre em contato com o autor através do email checannabis@hotmail.com ou através da redação pelo contato@www.smokebuddies.com.br.

Ilustração: Cacique Zé Coice, João Divino e Danieluiz

 Literatura Sativa: Eu vivo pra ser um ativista

Sobre Smoke Buddies

O Smoke Buddies é a sua referência sobre maconha no Brasil e no mundo. Aperte e fique por dentro do que acontece no Mundo da Maconha. http://www.smokebuddies.com.br

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