Literatura Sativa: Com a cabeça na guilhotina

 Literatura Sativa: Com a cabeça na guilhotina

 

Eu sou daqui, morador de cá do Brasil.

Eu do quintal da Bahia, me coisei jardim…

Sou de longe ou nada! Eu sou de cá de onde vai dar no Rio de Janeiro. Sou Che Cannabis retirante descendente de Arthur Bispo do Rosário. Pai dele pegou minha mãe e a mãe dele dormiu na embocadura do meu pai.

Eu sou o hermafrodita disso tudo e quase embarquei, muitas vezes, antes da hora H. Não acredito na hora H. Escrevo em fragmentos de horas HQ’s, e vou aproveitando o fluxo da consciência que aprendi nos anos 60’, no gás de meus prediletos escritores do século XX.

Clarice Lispector é a mais linda, depois de Nísia Floresta. Eu fumava maconha como remédio e hoje me apelidei de Che Cannabis e agora sou sendo, sabia? Você vai me indo, sabia disso também? Eu sem você sou mais fechado ainda. Estou, depois de um ano de cadeia puxada, tipo uma pessoa que sofre o mal do transtorno psicológico Bipolar. Esquizofrênico de práxis.

Revolucionário desde os doze anos, eu peguei a mania de ser o grande herói Che Cannabis, nas andanças da ciência, só que agora, mesmo assim, não arredei o pé, contei muito mais de mim do que agora, podia e, por isso, coloquei minha cabeça na guilhotina pela legalização das drogas, ao menos só da maconha, que é a grande erva medicinal do século XXI. Por ela, eu puxei cadeia na era digital, quando a crise econômica mundial dava pena: o brasileiro minguava de dinheiro e eu virava pó, sofria e dava pena.

Hoje tornou-se uma época onde reina a crise financeira de consciência no mundo todo e eu aqui me esguelando. Cansei e me promovi no vulgo de cadeia: Che Cannabis, o maconheiro andante.

A cadeia é osso: muitos dizem de lá de dentro e, também, do lado lá de fora ainda repetem. Eu digo que é de lá de dentro que vem a vida em carne viva e é lá onde o Diabo sempre está disposto a fazer uma graça com os réus condenados pela decisão de jurados e de juízes outorgados. Lá, no Castelo da Morte, dizem que filhinho chora e mamãe não ouve e nem vê. Deus é surdo pras coisas do jogo apostado e das cadeias, dizem os loucos.

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Se eu soubesse o que fazer, se eu fosse além de Michael Foucault, a cadeia tinha saída, ou eu tinha saída pra cadeia. Lógico que eu sou transformado pelo mundo de papel e, agora, mais que nunca, eu, publicando inteirinho aqui, também passo a influenciar o mundo que me influencia sempre. Que coisa!

Eu seria um maconheiro intelectual na era digital, se o governo deixasse completamente, para além do mundo platônico das ideias. O governo infelizmente deixa e não deixa! Seria mais que demais, se liberassem a loucura de Desiderium Erasmo de Rotterdã: a cadeia pública e eu, numa simbiose cultural imperfeita.

 Literatura Sativa: Com a cabeça na guilhotina

Uma música teria o silêncio com nota de passagem para a próxima modulação. A prova dos nove é isso, camarada, e eles a usaram contra a minha nobre pessoa e nada sobreviveu ao sentido figurado das palavras diante da censura dos outros seres humanos que detém o poder de mando.

Foi assim que me puniu severamente o Tribunal de Justiça. Era um dia de sol e disseram que eu era o pior de todos os guardas brasileiros, por fumar um mero e pequeno cigarro feito de maconha, diante dos outros presos, num dia de visita familiar. Que crime! Pior que isso é andar armado feito um maconheiro errante, disse o juiz.

Disseram muita coisa sobre minha pessoa os advogados. Fiquei sem cara! Disseram, o que foi verdade, que eu usava maconha, como se maconha fosse uma coisa infernal. Disseram que a minha cara de pau, principalmente ela, diante da família dos presos, foi a de fumar, exercendo ainda a função de guarda. Repetiram as velhas fitas da Corregedoria. Ouvia uma voz interior assim:

— Que mal exemplo, Che Cannabis! Envergonhe-se de estar expondo ao risco do perigo de morte toda a sociedade brasileira, seja dentro ou fora do presídio. Seu malvado!

Foi a voz da minha sentença de dois anos de reclusão penal. Quase chorei ao ler meu processo todo. Pensei assim: se eu que não cometi nenhum crime, imagine o Governo que me deixou só e feriu os Direitos Humanos de muita gente? Mas calei, preso político que era, não quis abrir o bico. Eu podia ter morrido, não por usar um pouco de maconha, aprimorando minha concentração no posto e coragem de viver, mas sim por estar sozinho na função de guardar duas centenas de presos. Eu tinha privilégios? Não tinha. Eu decidi pagar caro por ser um preso político, embora anarquista pacífico. E porque estava sozinho na cadeia, trabalhando de guarda, eu nunca deixei um preso fugir sob a minha tutela. Eu que dei aula pra preso fugir do analfabetismo da era digital, agora exonerado da Justiça, passeando com uma arma de fogo.

Talvez, por certo que a maconha hoje não seja usada dentro dos estabelecimentos prisionais, não significa que não deva ser, remédio que é. Ainda pior do que por presos, foi ela ter sido usada por um guarda em serviço de plantão de 24h, dentro do Castelo da Morte.

A maconha deve chegar ao seu paciente ou ao seu recreador, jamais aos trabalhadores ou aos motoristas de automóvel. Eu não me entreguei para os presos apenas por fumar um cigarro de maconha. Eu fumei maconha diante da visita familiar dos condenados pela Justiça, afastados por grades e grades, cadeados e cadeados de mim. Sou um criminoso sem escrúpulos então? Eu estava com a penca de chaves na mão, mas, no final, ninguém fugiu, nem foi torturado por mim. Detesto tortura. Todo mundo preso, naquele dia, respeitou um professor-guarda, ou um guarda-professor.

Uma vez me disseram em tom de protesto:

— Che Cannabis, você e o álcool estão brigados, eu sei. O que eu não compreendo é, exatamente, o que a maconha tem a ver com essa separação.

Respondi na lata:

— A maconha sempre me surgiu como um remédio, capaz de me afastar do mal necessário frente ao uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas, principalmente ao álcool transbordado, que é liberado e ninguém é obrigado a tomar um pouco de cachaça ou cerveja. Ou é?

Nenada. Nenada mesmo, minha gente!

A cerveja é zero álcool. Agora eu evito isso, sendo mais comportado. Agora eu evito tudo isso, pagando mais impostos e com tudo mais caro.

Waldemar Valença Pereira é Professor, mestre profissional em letras e autor da obra literária  “Pé de Maconha – Che Cannabis nas andanças da ciência” que aborda a erva em prosa e poesia. Entre em contato com o autor através do email checannabis@hotmail.com ou através da redação pelo contato@www.smokebuddies.com.br.

Ilustração: Cacique Zé Coice, João Divino e Danieluiz

 Literatura Sativa: Com a cabeça na guilhotina

Sobre Smoke Buddies

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