A legalização está mudando a forma como os pais conversam com os filhos sobre maconha

crianca folha A legalização está mudando a forma como os pais conversam com os filhos sobre maconha

A legalização da maconha no Canadá vem fazendo com que o diálogo familiar a respeito da erva se torne mais normal. As informações são da Global News, com tradução da Smoke Buddies.

Os pais estão mudando a maneira de conversar com seus filhos sobre a cannabis pós-legalização, já que a erva se tornou uma parte mais visível da vida diária em todo o país.

Ashleigh Brown, fundadora da SheCann, que permite que mulheres canadenses compartilhem suas experiências usando maconha medicinal, disse que conversar com crianças sobre a maconha não deve ser uma “conversa” única – deve ser um diálogo contínuo.

“As crianças são inteligentes e estão observando tudo e todos”, disse Brown em uma audiência do evento “Women & Weed”, realizado em Toronto, no último dia 26 de janeiro. “As conversas devem ser sobre autenticidade e honestidade”.

Brown disse que começou a usar maconha medicinal em 2016, então seus filhos pequenos achavam que maconha era estritamente um remédio. Ela disse que começou a educar suas filhas de 14 e 10 anos sobre como as pessoas usam a cannabis por vários motivos.

Brown e April Pride, fundadora da marca de estilo de vida canábico Van der Pop, disseram que é importante ter essas conversas com as crianças, já que é inevitável que a erva esteja ao redor delas em festas e na rua.

Elas disseram que as crianças que crescem após a legalização precisam ser educadas da mesma maneira que se faria com o álcool, inclusive enfatizando que a maconha é apenas para adultos.

Brown e Pride disseram que escondem e trancam o estoque de seus filhos, mas acreditam que evitar a conversa sobre o uso de cannabis estimula o estigma e não ajuda seus filhos a tomar suas próprias decisões.

“Há uma diferença entre discrição e ocultação”, disse Brown. “Esconder incentiva o estigma porque é algo que você mantém longe das pessoas. Ter discrição é sobre o uso responsável”.

Brown disse que adota uma abordagem de redução de danos quando fala com suas filhas, usando recursos do Canadian Students for Sensible Drug Policy. O grupo vê o consumo problemático de drogas como um problema de saúde, e não como uma questão de justiça criminal, e defende o apoio à redução de danos.

Brown disse que fala com seus filhos sobre porque e como as pessoas usam a cannabis e porque ela a armazena longe do alcance.

“Talvez não seja que eu não confie em meus próprios filhos. Eu mantenho-a trancada e longe deles para que eles entendam que é um produto de uso adulto.”

Sabine Dolby, de 56 anos, disse que costumava esconder o estoque de seus filhos quando eram mais jovens, mas agora que são adultos – com idades entre 24 e 30 anos – ela disse que todos fumam juntos. Dolby disse que não fumava com frequência quando seus filhos eram mais jovens e não falava muito sobre cannabis, mas agora que ela é usuária regular e a cannabis é legal, ela disse estar aliviada por não escondê-la deles.

“Eu apenas me perguntei: ‘Eu sei que meus filhos adultos estão fumando, então por que eu estou escondendo?’. Somos todos adultos aqui ”, disse Dolby, acrescentando que ela fuma cannabis para suas dores e para ajudá-la a dormir.

Pride disse que também fala com seus dois filhos sobre os perigos do uso de cannabis e como as pessoas reagem de maneiras diferentes à erva.

O Centro Canadense de Uso e Dependência de Substâncias afirma que o consumo regular de cannabis durante a adolescência pode causar perda de concentração e memória e confusão mental.

Leia mais ~ Canadá: cientistas debatem riscos da maconha para cérebros jovens

O centro também afirma, em um relatório de 2015, que o consumo regular de cannabis está associado a sintomas psicóticos e ao desenvolvimento de esquizofrenia, especialmente entre aqueles que têm uma história familiar.

O centro também afirma que as conexões entre o uso de cannabis e outras doenças mentais, especialmente a ansiedade, são menos claras e que mais pesquisas precisam ser feitas.

Segundo Pride, enquanto mais pesquisas precisam ser feitas sobre os efeitos da cannabis – particularmente seus efeitos sobre cérebros que não estão totalmente desenvolvidos -, o melhor é ter as discussões usando ciência e lógica.

“Há desvantagens para o uso de cannabis, mas se não falarmos sobre isso, como vamos realmente saber?”, ela disse.

Brown disse que os pais nunca podem garantir que seus filhos vão permanecer sóbrios, mas se eles são educados sobre os efeitos da cannabis, eles podem tomar decisões bem informadas.

“Meu trabalho é ser uma usuária responsável, armazená-la com responsabilidade e ter essas conversas”, disse Brown. “Eu quero ter um diálogo com minhas crianças sobre isso.”

Leia também:

O que a legalização da maconha no Canadá pode ensinar ao Brasil

#PraCegoVer: fotografia (de capa) de uma pequena folha de maconha sendo segurada diante da câmera por uma criança, da qual pode-se ver parte da face no fundo desfocado. Créditos da foto: Shutterstock.