Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

ginastica Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

Quem faz algum tipo de esporte ou atividade física e é adepto do uso da erva sabe que a combinação de exercícios e maconha tem tudo a ver. E que o digam as alunas da Mary Jane Fonda: a ginástica da maconha. Saiba mais com as informações da Marie Claire.

O domingo amanheceu com a cara de Portland: nublado e friozinho. Ao andar pelas ruas, é fácil perceber que o lugar mais cool do planeta não segue nenhuma tendência de moda. Nas calçadas se veem apenas chinelos com meia, calça de moletom, gorro, malha de lã puída com broche e capas e mais capas de chuva. Sempre. Meca dos hipsters, Portland é para eles o que foi São Francisco para os hippies nos anos 1970. A principal cidade de Oregon, na Costa Leste americana, sedia empresas de ponta, como a Nike, ao mesmo tempo que tem um número recorde de brechós por metro quadrado. É cercada por uma natureza exuberante, tem as melhores cervejas artesanais da América e o uso da maconha recreativa e medicinal é legalizado.

 Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

#PraCegoVer: fotografia de praticantes da aula Mary Jane Fonda fazendo exercícios deitadas e uma aluna usando um vaporizador. Créditos: Zak Powers.

No dia em que Marie Claire visitou o segundo andar de um predinho do bairro Albina, zona norte da cidade, o clima cinzento que predomina no inverno nem dava as caras. No lugar de roupas monocromáticas e largas, leggings e bodies multicoloridos. Polainas, faixinhas na testa e acessórios brilhantes deram o tom do outfit dos praticantes de um esporte particular e com a cara da cidade: a ginástica da maconha. Nele, as pessoas fazem abdominais, alongamentos, agachamentos, movimentos típicos de academias.

 Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

#PraCegoVer: fotografia de Amarett Jans, fundadora da prática. Créditos: Zak Powers.

Criada no fim de 2016, logo após Donald Trump vencer as eleições presidenciais americanas, pela produtora gráfica Amarett Jans, 33, a aula recebeu o nome de Mary Jane Fonda. “Estava deprimida com o resultado e juntei as duas coisas de que mais gosto na vida para mudar o astral”, diz. A escolha do nome não poderia ser mais oportuna: entre os tantos apelidos da erva, Mary Jane (Maria Joana, em português) é um deles. Jane Fonda é a atriz que, além de ter sido indicada para sete Oscars (levou dois), revolucionou a América (e o mundo) com os vídeos em VHS ensinando como manter a forma em frente à TV. Lançadas em 1982, as fitas venderam 17 milhões de cópias.

A Mary Jane Fonda (MJF) funciona assim: Amarett define local, dia e hora, convida os alunos pelo perfil no Instagram e se une a alguma loja ou produtor de maconha. Contrata um DJ e duas professoras, uma para exercícios aeróbicos e outra com uma pegada mais tranquila, em geral com sequências de ioga. Cobra US$ 30 de cada participante. Maconha inclusa, claro. Vale dizer que em 29 estados americanos e na capital, Washington, o consumo da droga é legal para fins médicos ou recreativos – sempre para maiores de 21 anos. Atualmente, um em cada cinco americanos tem acesso legal à maconha.

 Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

#PraCegoVer: fotografia das praticantes Sue Carlton, que usa um vaporizador, e Ashley Dellinger sentadas em uma escadaria. Créditos: Zak Powers.

Havia 30 participantes no dia em que acompanhamos a prática – lotação máxima. Destes, 27 eram mulheres. Entre os homens, dois eram gays. O terceiro foi com a namorada. O ambiente descontraído acaba deixando todo mundo mais à vontade. Principalmente depois que o THC, sigla para tetraidrocanabinol, e o CBD, para canabidiol, começam a fazer efeito. O primeiro é a substância que altera o estado da mente. O segundo tem efeito relaxante, não chapa ninguém.

Leia: Maconha – Exercício Físico libera THC armazenado no Sangue

Antes do espírito de Jane Fonda baixar no local, o salão mais parece um encontro de amigas em noite de sexta. Uma bartender prepara drinques (sem álcool) misturando suco de frutas, gelo, hortelã, blueberry e 5 ml de infusão de maconha. No Brasil, alguém chamaria de caipironha. O efeito acontece entre 15 e 30 minutos após a ingestão. Há quem prefira “vaporizar”, o método mais usado. Basta tragar uma espécie de cigarro eletrônico com o extrato da erva. “O vaporizador permite que saiba exatamente a quantidade que estou ingerindo”, diz a professora de ioga Jocelyn Bada, 40. “Prefiro mais CBD com um pouquinho de THC. O primeiro dá uma sensação corporal gostosa, enquanto o segundo dá foco. Se passo do ponto, fico descoordenada mas acabo me divertindo também”, diz. Hoje, Jocelyn tem uma marca de roupas que produz peças de cashmere. O carro-chefe são as indefectíveis polainas, um clássico dos anos 80. “Lembro da minha mãe à frente da TV fazendo os exercícios da Jane Fonda, as roupas, as músicas, a cultura fitness.” Terminada a primeira rodada de drinques e vaporizadores, é chegada a hora de malhar.

“Mary Jane Fonda é mais que um esporte, é uma comunidade, uma forma de reunir pessoas com o mesmo ideal”
Amarett Jans, 33, fundadora da prática.
Os movimentos (nem sempre) cadenciados são (quase sempre) acompanhados por sorrisos. Nem mesmo três sequências de 20 abdominais, seguidas por dez flexões, tiram a alegria. Ao final da primeira etapa, dava para sentir o calor humano – coisa rara na América. Mulheres que nunca haviam se visto conversavam como velhas amigas. “Mary Jane Fonda é mais que um esporte, é uma comunidade, uma forma de reunir pessoas com o mesmo ideal. Foi concebida com o espírito da colaboração e não da competição”, explica Amarett. “Todo mundo sabe que maconha é agregadora.”

Numa sociedade em que as redes sociais estão mais populares que as relações humanas, eventos como o MJF ajudam a “quebrar o gelo”. Quem afirma isso é Sue Carlton, 25, estudante de saúde da mulher e ativista pró-cannabis. Para ela, o estigma negativo da maconha começou a ser coisa do passado. “Mas a luta continua”, avisa. Usuária desde os 13 anos, Sue viu amigos, familiares e até seu irmão serem presos por causa do uso da erva. Aos 19, começou a ter cólicas, insônia, perda de apetite e nenhum interesse sexual. Diagnóstico: síndrome do ovário policístico. O médico receitou maconha para o tratamento. Ela, que ainda não conseguiu a cura, consome a planta para aliviar as dores. “Foi o que me pôs de volta nos trilhos”, afirma. “A legalização é fundamental, pois beneficia o usuário e todo o sistema. Reduz o consumo de remédios e opioides; economiza o dinheiro que era drenado no Judiciário e nas penitenciárias para ser investido em educação e prevenção”, discursa a estudante, que pretende se lançar vereadora em Portland.

 Ginástica da maconha: aula inspirada em Jane Fonda mescla exercícios e erva

#PraCegoVer: fotografia das praticantes fazendo exercícios deitadas, e uma delas também usa um vaporizador. Créditos: Zak Powers.

Enquanto conversamos, ela passa o vaporizador para a amiga Ashley Dellinger, com quem já foi a quatro encontros do MJF. Ainda no intervalo da aula, dá tempo para fazer uma massagem com creme tópico à base de maconha. “Tem propriedades relaxantes cientificamente comprovadas”, explica a massagista Regan Goodrich. Uma nova trilha sonora toma a sala. A DJ escolheu um som tranquilo para finalizar o relaxamento. Aos poucos, as roupas coloridas dão lugar a blusas cinzas, botas e capas de chuva. Em comum, a endorfina circulando pelo corpo, o sorriso fácil e muita fome – se uma aula de aeróbica já dá larica, imagine com maconha junto?

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#PraCegoVer: fotografia de uma mulher fumando um baseado e fazendo pose com os bíceps. Créditos: High Times.