Falta de regulamentação da maconha deixa pacientes à deriva

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Cada vez mais pesquisas confirmam a utilidade da maconha para o tratamento de doenças. Mas a falta de regulamentação no país deixa os doentes à deriva. É o que você vai ver neste artigo especial da Superinteressante, reportagem que deu origem ao documentário Ilegal.

“Meu dia a dia é ouvir os pacientes reclamarem de dor”, diz Eusébio (nome fictício), ortopedista brasileiro especialista em coluna. Em seus mais de 15 anos de formado, ele se preparou para resolver dores com cirurgias, infiltrações na coluna e medicamentos. Mesmo com esse arsenal, cerca de 5% dos seus pacientes continuam com dores crônicas, que os impedem de levar uma vida normal. “É frustrante”. Há três anos, ele somou livros de cultivo de maconha aos de medicina, depois de perceber um aumento no número de estudos científicos sobre os benefícios da cannabis para tratar vários tipos de dores crônicas. Hoje, fornece extratos de três variedades da planta para um grupo de 17 pacientes que não respondeu a nenhum outro tratamento. Tudo ilegal. “Posso perder meu CRM e até ser acusado de tráfico”, diz, explicando que tem um acordo verbal de sigilo com seus pacientes. “Eles confirmam que o negócio funciona. Não tenho medo, só quero que a lei mude.”

A situação dos pacientes brasileiros não é muito diferente. Quem quer usar a erva para aliviar sintomas de alguma doença precisa recorrer ao mercado negro ou cultivar, com risco de ser acusado de tráfico. Foi o que aconteceu com o publicitário Alexandre Thomaz, de Canoas (RS). Diagnosticado com câncer, ele começou uma quimioterapia. Na sexta sessão, vomitava só de pensar em tomar o remédio. Quando soube que fumar maconha poderia ajudá-lo com as náuseas e seguir o tratamento, decidiu plantá-la. Até que uma denúncia anônima o levou à cadeia. Afinal, ele curou-se do câncer, mas ainda responde a um processo por tráfico de drogas. “Por que o Estado, que deveria contemplar meu bem-estar, é justamente quem me castiga?”

O Brasil faz parte da maioria de países que considera a maconha uma droga praticamente inútil para a saúde. Mas, para os cientistas que lidam com a erva, ela é uma espécie de nova penicilina: relativamente segura, barata e com diversas aplicações. Algumas têm eficácia comprovada por estudos clínicos, como no caso de dores crônicas, esclerose múltipla, anorexia e náusea causada por quimioterapia. Pesquisas mostram que componentes da maconha podem se tornar uma alternativa para cuidar de doenças psiquiátricas tratadas hoje em dia com remédios de tarja preta, que têm mais efeitos colaterais e maior potencial de causar dependência. Estudos com animais têm resultados positivos até no tratamento de câncer. É o que você vai ver nesta reportagem especial da SUPER, publicada pela primeira vez em fevereiro de 2014. Reportagem que deu origem ao documentário Ilegal, de Raphael Erichsen e Tarso Araújo (autor desta reportagem), produzido em parceria com a SUPER e hoje disponível no Netflix. A repercussão do documentário, que foi exibido parcialmente no Fantástico, da Rede Globo, fez com que a Anvisa legalizasse o uso do canabidiol em janeiro de 2015. Boa leitura.

Novo impulso

O interesse pelo uso medicinal da maconha ganhou fôlego com um documentário da rede de TV CNN: Weed. Ele foi apresentado em 2013 por Sanjay Gupta, o Dráuzio Varella dos Estados Unidos, famoso por sua posição contra a maconha medicinal. No filme, ele dá o braço a torcer e muda sua opinião sobre o assunto. A principal personagem do documentário é a pequena Charlotte Figi, de 5 anos, portadora de um tipo de epilepsia raro, grave e sem tratamento chamado síndrome de Dravet.

Depois de tentar de tudo e com a filha cada vez pior, os pais decidiram arriscar o uso de um extrato de canabidiol (CBD), componente da cannabis sem efeito psicoativo. Os resultados foram incríveis e a menina, que sofria em média 300 ataques epiléticos por semana, passou a ter no máximo um por semana. Seu caso chegou aos ouvidos de Gupta e, depois do documentário, ao mundo inteiro. Inclusive ao Brasil, onde a mãe de Sofia – outra menina de 5 anos com uma epilepsia grave, rara e sem cura – viu uma esperança

“Eu nem me preocupei com a questão legal. Se tivesse que responder processo para controlar as crises da minha filha, responderia”, diz Margarete de Brito, mãe de Sofia. Ela importou um extrato de CBD e as convulsões da criança caíram de 12 para seis por semana. Mas, depois de um mês, o produto perdeu efeito. Na internet, Margarete conheceu mães com a mesma doença e as ajudou. Foi seu exemplo que inspirou Katiele Fischer, mãe de Anny, 5 anos, a fazer o mesmo. A mãe define o resultado como “milagroso”: as convulsões caíram de 60 por semana para três, em dois meses de “tratamento alternativo”.

“Depois do documentário, vários pais me procuraram dispostos a recorrer ao CBD. É um grupo que gostaríamos de reunir para iniciar uma pesquisa”, diz o neuropediatra e especialista em epilepsia Eduardo Favaret, médico de Sofia. “São mães que andam com uma maleta de CTI quando vão se deslocar com a criança.” Ele explica que os tratamentos disponíveis para epilepsia não têm efeito em um terço do total de casos, que atinge pelo menos 1% da população brasileira – 190 mil pessoas.

Outro problema dos remédios disponíveis é que alguns têm efeitos colaterais graves, incluindo a cegueira parcial. “Alguns podem até piorar as crises, dependendo do paciente.” O CBD poderia ser uma opção de tratamento importante para epiléticos que não respondem aos tratamentos, especialmente porque não é tóxico. “Existem vários estudos sobre a toxicidade do CBD em animais e em humanos e ele parece ser uma droga bastante segura. O efeito colateral mais frequente é a sonolência, em doses mais elevadas”, diz Antônio Zuardi, psiquiatra da USP de Ribeirão Preto, autor de vários estudos sobre os efeitos da substância.

“Não posso prescrever para ninguém, porque é ilegal. Isso me causa certa angústia. Se fosse meu filho, não tenho dúvida de que já estaria no Colorado. Mudava para lá, se fosse o caso”, diz Faveret, referindo-se ao Estado dos EUA em que Charlotte pode usar o medicamento legalmente. Por enquanto, sair do país é mesmo a única alternativa para os brasileiros que gostariam de usar cannabis medicinal para aliviar o sofrimento de alguma doença. Podem ser dezenas de milhares de pessoas.

Coisa séria

O uso terapêutico da maconha é milenar. A mais antiga enciclopédia de medicamentos do mundo, escrita na China com conhecimentos do segundo milênio antes de Cristo, já indicava a erva para diversos males. No mundo ocidental, ela teve seus dias de glória na segunda metade do século 19, receitada para dor, náusea, epilepsia e outros problemas. Isso acabou nas décadas de 1930 e 1940, conforme vários países criminalizavam seu uso. Em 1961, quando a droga foi incluída na lista negra da Convenção Única de Entorpecentes da ONU, seu uso medicinal já era coisa do passado.

“A utilidade terapêutica da cannabis foi essencialmente esquecida”, diz Raphael Mechoulan, químico búlgaro que ajudaria a reverter esse quadro com o isolamento do THC, princípio psicoativo da maconha, em 1964. Seu trabalho levaria à descoberta de um mecanismo de comunicação entre os neurônios, que ele chamou de sistema endocanabinoide. Hoje, sabe-se que esse sistema regula uma série de reações do nosso organismo ao mundo externo – emoções, humor, dores, apetite e memória, por exemplo.

“Com essa descoberta, começamos a entender por que a maconha mostrava resultado em uma série de doenças”, conta o tcheco Lumír Hanus, cientista da equipe de Mechoulan que em 1992 descobriu a anandamida, um endocanabinoide, espécie de THC produzido pelo nosso corpo e peça que faltava nesse quebra-cabeça. Esse conhecimento deu novo vigor aos estudos sobre a maconha. Na base de dados mantida pela Associação Internacional para Medicamentos com Canabinoides (IACM, em inglês), 72% dos trabalhos catalogados são posteriores à descoberta da anandamida.

Já existem mais de 70 canabinoides descritos e o desafio dos cientistas é descobrir como se beneficiar de cada um. “O CBD é um dos que mais têm chamado a atenção por ter propriedades terapêuticas interessantes, mas não os efeitos psicoativos do THC”, explica o médico alemão Franjo Grotenhermen, diretor executivo da IACM. O THC, por sua vez, pode ajudar até no controle de tumores. “Seu uso no tratamento de câncer poderá ser muito diversificado. Há testes em casos de glioma, câncer de mama, fígado, pele, pâncreas e próstata, entre outros. Mas até agora o que temos foi demonstrado apenas em modelos animais”, diz o espanhol Manuel Guzmán, pesquisador da Universidade Complutense de Madri e autor de um dos primeiros trabalhos sobre o assunto.

Essas perspectivas atraem cada vez mais pesquisadores interessados no potencial terapêutico da maconha. Um grupo de cientistas defende o uso da planta in natura, seja inalada, fumada, adicionada a alimentos ou mesmo processada na forma de óleos ou pomadas. Um dos principais representantes dessa via é Lester Grispoon, da Universidade Harvard e um dos papas damaconha medicinal – que começou a estudar a droga para mostrar seus malefícios, mas mudou de ideia durante as pesquisas. “A planta é uma opção barata e naturalmente equilibrada. Transformar canabinoides em remédio apenas encarece o processo e reduz a eficácia do produto”, diz.

Outro grupo defende que remédios com canabinoides, em vez da planta, sejam melhores para controlar os efeitos desejados. “Os pacientes desejam ter acesso a um remédio que seja prescrito, que não tenha de ser fumado ou usado a partir de preparações domésticas, que tenha composição e qualidade garantidas, autorizado por agências regulatórias para condições médicas específicas e feito por farmacêuticos”, diz Mark Rogerson, representante da GW Pharmaceuticals, dona do Sativex (marca do genérico nabiximol), extrato de canabinoides vendido em 24 países para o tratamento de esclerose múltipla.

O Sativex é hoje uma das maiores promessas da cannabis medicinal. Ele sai na frente da planta porque a empresa já financiou na última década diversos estudos clínicos que nunca foram feitos com a erva em si. “Não existem patentes no mundo da cannabis”, diz Raphael Mechoulan, explicando que não se pode ter patentes sobre produtos naturais. “Então, se uma empresa gasta 500 milhões de dólares com um teste clínico, ela não vai ter retorno”. Como esse problema não acontece com o Sativex, não falta dinheiro para investir em suas pesquisas. Ele está passando por teste clínico de fase 3 – o último antes de um remédio ir para as prateleiras – para ser aprovado nos EUA. Se isso acontecer, a empresa deve ganhar bilhões de dólares com um remédio que é, basicamente, um extrato natural da planta, com todos os seus canabinoides, não apenas THC e CBD. O fabricante também já solicitou à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) um registro para importá-lo para o Brasil, em 2011, mas não obteve resposta.

Mas, como acontece com qualquer remédio patenteado, o Sativex é relativamente caro. Um estudo publicado em 2012 constatou que isso inviabiliza seu custo-benefício no tratamento de esclerose pelo sistema de saúde do Reino Unido. Lá, a terapia com o remédio sai 17 vezes mais cara do que a oferecida pelo Ministerio da Saúde da Holanda, que regulamentou a venda de Bedrocan – maconha de qualidade controlada. Desde 2001, o país tem um programa federal que hoje atende cerca de 2 mil pacientes. “Os médicos prescrevem cannabis da mesma forma como fazem com outros medicamentos”, informa Catherine Sandvos, da Agência Holandesa para a Cannabis Medicinal. Os pacientes recebem uma receita normal, com a frequência e o tipo de cannabis que devem fumar ou inalar – existem três tipos, cada um mais adequado para um tipo de doença. Um pote com cinco gramas da droga sai por cerca de R$ 130. É bem mais cara que a dos famosos coffee shops do país, mas tem as concentrações de THC e CBD controladas, com certificação do Ministério da Saúde.

Em Israel, onde Raphel Mechoulan pesquisa canabinoides há cinco décadas, são mais de 14 mil beneficiados. Além da flor para inalar, são vendidos alimentos e óleos contendo maconha, para quem tem a prescricão de um dos 20 médicos cadastrados no programa do governo. O Ministério da Saúde de Israel defende sua posição num comunicado em seu site: “Mesmo que ela não seja um medicamento oficial ou um remédio reconhecido ao redor do mundo, pode reduzir o sofrimento de diversos pacientes”, defendeu o órgão em comunicado oficial. No Canadá, outro pioneiro da cannabis medicinal, ela é usada por mais de 30 mil pacientes. O programa nacional está mudando para reduzir desvios de pequenos produtores para o mercado negro. A partir de 31 de março, só empresas cadastradas pelo governo terão autorização para cultivo, mas o paciente não precisará mais se registrar no governo – basta a receita médica. Quem plantava não gostou da novidade. Mas a situação deles ainda é bem melhor que a do Brasil.

Pé atrás brasileiro

“A maconha e o THC são proscritos no país porque estão na lista 1 da Convenção de Psicotrópicos da ONU, que diz que seu uso é proscrito, exceto para fins médicos e científicos”, diz a farmacêutica Renata Souza, chefe da Coordenação de Produtos Controlados da Anvisa. É seu departamento que controla a lista das substâncias proibidas no País. A exceção citada por Souza também está na Lei de Drogas brasileira (11.343/2006), que diz: “Pode a União autorizar o plantio, a cultura e a colheita dos vegetais referidos no caput deste artigo, exclusivamente para fins medicinais ou científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização, respeitadas as ressalvas supramencionadas.” Então por que não se pode plantar cannabis com finalidade medicinal no País?

“O entendimento é de que o artigo só se aplica para fins de pesquisa. O fim medicinal de que o artigo trata só é efetivo na forma de medicamento. E como não há remédio registrado no Brasil à base da planta, não há justificativa para mudar”, diz Souza. Para Luciana Boiteux, professora de direito e coordenadora do Grupo de Pesquisas em Política de Drogas e Direitos Humanos da UFRJ, a posição da agência deve ser contestada. “A Anvisa não pode ignorar ou ir contra a lei. Cabe à agência analisar os pedidos, e não negar de maneira genérica dizendo que a lei proíbe. Isso não se sustenta legalmente”.

A representante da Anvisa diz que a questão até poderia ser reavaliada. “Mas nunca houve um pedido. Por que vamos mudar algo se não tem demanda?”, diz Souza. Katiele Fischer, mãe da menina Anny, contratou um advogado para importar o extrato de CBD legalmente e pode se tornar a primeira brasileira a contestar a agência na Justiça. Apesar de o canabinoide não ser tóxico nem psicoativo, e de não constar na lista de substâncias controladas, ele é proibido, segundo a coordenação de substâncias controladas, porque a regulamentação vigente proíbe “todas as substâncias obtidas a partir das plantas” da lista negra. Ou seja, qualquer coisa que a cannabis contenha é proibido no país, mesmo que não seja conhecido ou que não haja evidência de que faça qualquer mal. Interpretada ao pé da letra, a portaria da Anvisa proíbe até água.

Emílio Figueiredo, consultor jurídico do Growroom, fórum de internet que agrega cultivadores da erva e reúne dezenas de pacientes clandestinos demaconha medicinal, lamenta a posição da agência. “Tenho a impressão de que no Brasil é mais fácil conseguir autorização para pesquisar urânio ou plutônio do que para usar cannabis medicinal.”

O cientista brasileiro Elisaldo Carlini, psicofarmacologista da Unifesp que pesquisa a maconha desde a década de 1960, defende a criação de uma agência reguladora específica para a cannabis medicinal. Em 2010, ele organizou um seminário internacional sobre o assunto e seus participantes encaminharam ao Ministério da Saúde uma proposta de criação da agência. “Tenho a impressão de que nem examinaram os argumentos. O fato é que não se mexeram”, diz.

“Bastaria colocar a maconha no mesmo patamar da morfina e de outros opioides, que podem ser prescritos com receita amarela. Já criaria uma possibilidade para os pacientes”, diz o médico Eusébio, que faz extratos para seus pacientes, observando que não seria necessário mudar a lei. “Como médico, quero ter acesso a todas as ferramentas possíveis para trabalhar. Se eu sei que tem um tratamento disponível no mundo, vou aonde for para aprendê-lo. Seja uma técnica cirúrgica, seja um remédio como esse. É muito ruim saber que isso acontece lá fora, e aqui, não.”

Além dos médicos, cada vez mais pacientes estão informados sobre o potencial terapêutico da maconha e gostariam de recorrer a essa opção para aliviar seu sofrimento. “A gente sabe disso”, diz Renata Souza, da Anvisa. “No cenário nacional, pessoalmente, tenho visto essas histórias nas reportagens. A primeira demanda que vier será o ponto de partida para começar essa discussão.”

“EU USO MACONHA COMO REMÉDIO”

Veja os depoimentos de alguns pacientes que passaram a fazer uso medicinal da erva – e melhoraram suas vidas depois disso.

Alexandre Thomaz, 44 – Publicitário – Canoas (RS)

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Foto Gustavo Schramm Roth

“Aos 33 anos, recebi o diagnóstico bombástico: tinha um câncer no pescoço. Fiz uma cirurgia na semana seguinte e comecei a quimioterapia. Seriam oito sessões, e depois 25 de quimioterapia. Na segunda sessão, começou a cair o cabelo e vieram enjoos fortes. Na sexta, eu já vomitei antes de colocar o catéter com a medicação. Como eu não suportava, os médicos resolveram interromper a quimio. Na radioterapia, perdi todo o paladar, não conseguia me alimentar direito. Foi quando tive a ideia de tentar a maconha e perguntei ao oncologista. Ele disse que não podia prescrever, que em países de primeiro mundo usam mesmo cannabis para atenuar esses sintomas. Já tinha fumado algumas vezes, mas esse tempo passou. Procurei amigos que ainda fumavam e comecei esse tratamento paralelo. Logo percebi mudanças: comecei a me alimentar melhor, dormia melhor, gradualmente até minha autoestima melhorou. Então decidi plantar no meu sítio sementes importadas, indicadas para uso medicinal. Era tão mais limpa que passei a fumar menos e comecei a usar em chás, bolos e outras receitas. Um dia, sem mandato e na minha ausência, a policía arrombou as portas e revirou minha propriedade. Não acharam armas nem dinheiro, mas roubaram coisas minhas e levaram os dez pés da maconha que aliviava meus síntomas. O delegado denunciou os policiais por abuso de autoridade. O Ministério Público não levou a acusação em frente, alegando que eles estavam cumprindo sua função, mas me indiciou por tráfico. O tratamento deu certo: segundo meus médicos, as chances de o câncer voltar são mínimas. Mas ainda respondo processo e posso acabar preso. Se a Constituição Federal diz que todo ser humano tem direito à dignidade, fico me perguntando por que o Estado, que deveria cuidar do meu bem-estar, é justamente quem me pune.”

Gilberto Castro, 40 – Designer – São Paulo (SP)

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Foto Rafael Jacinto

“Tenho esclerose múltipla, uma doença sem cura e progressiva. Tudo o que a medicina sabe, atualmente, é prolongar o tempo de vida de quem tem essa enfermidade. Eu estou no grau 4 da doença, de uma escala que vai até 10, quando o paciente está morto. Os médicos não chegam a falar em morte comigo, mas consideram que mais cedo ou mais tarde eu fique acamado. Quando recebi o diagnóstico, me disseram que isso aconteceria em dez anos, no máximo. Mas isso já faz 15 anos e sigo bem. Para os médicos, eu sou “ganhador da Sena”. Para mim, se estou assim, é por causa da maconha. Comecei a usar pouco depois de descobrir a doença, em 1999. Em uma consulta, depois de relatar o que sentia, o médico virou para mim em voz baixa e disse: “Se você fumar um `baseadinho¿ vai ajudar”. Desde então, faço o que se faz em vários lugares do mundo, mas é proibido no Brasil. E não sou o único: conheço muita gente que também recebeu a recomendação dos médicos para fazê-lo, “por baixo dos panos”, claro. Os sintomas mais comuns que sinto são dormência, choques, sensação de quente-frio, cansaço e formigamento. Tudo isso melhora quando uso maconha. Os choques e espasmos praticamente desaparecem e as dores caem pela metade. Nas duas vezes em que passei períodos prolongados sem maconha, os sintomas progrediram rapidamente. Parece que a cannabis foi feita para a esclerose múltipla. É impressionante: assim que você fuma, a paz volta. Tem muito paciente de esclerose múltipla que não sabe disso e está na cama, desesperado, sem saber o que fazer. Fico pensando: A maconha é só uma planta. Não pode ter uma planta em casa?”

Maria Antonia Goulart, 65 – Artista plástica – São Paulo (SP)

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Foto Rafael Jacinto

“Abril de 2007. Nessa data comecei uma luta para viver. Foi quando soube que teria de fazer quimioterapia, radioterapia e cirurgia para tratar um câncer. Foi também quando comecei a usar maconha medicinal. Ao pedir aos médicos, não encontrei resistência. Eles não podem receitar, mas apoiaram. Só pediram que não abandonasse o tratamento convencional, e foi o que fiz. Minha diferença para os outros pacientes logo tornou-se visível. Eu comia melhor, dormia melhor, meu humor era melhor e minhas dores eram bem menores. O problema foi quando fiz a cirurgia. Nesse período, fiquei 15 dias internada e não pude usar a erva. Sentia dores muito fortes, que os médicos tentavam controlar com morfina, não tinha apetite e o soro que me injetavam machucava ainda mais minhas veias, frágeis por causa da quimioterapia. Após o tratamento contra o câncer, parei de usar maconha. Mas dois anos depois comecei a sentir uma dor insuportável. Tinha fibromialgia. Propuseram o tratamento com antidepressivos, vitaminas e analgésicos muito fortes. Comecei seguindo-o, mas os efeitos colaterais estavam me fazendo tão mal que resolvi tentar a maconha mais uma vez. De novo, consegui dormir melhor e os sintomas amenizaram muito. Com acompanhamento médico, aos poucos parei com os outros remédios e fiquei só com a planta. Os problemas para conseguir a maconha seguem. Tenho muito medo de ficar sem ela e ter de voltar ao tratamento convencional e aos seus efeitos colaterais. Sei que é proibido, mas minhas dores são maiores do que a lei.”

Marco Antônio, 26 – Comerciante – Governador Valadares (MG)

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“A maconha me beneficia duplamente, pois tenho doença de Crohn, uma inflamação crônica do intestino, e epilepsia. Chegava a ter até quatro crises epiléticas num único dia, com desmaios e convulsões. Em 2011, cheguei a ter uma parada cardíaca. Com a maconha, elas quase acabaram – em 2013, tive apenas uma crise. Mas o efeito é bem maior na doença de Crohn. Quando ela surgiu, há quatro anos, cheguei a perder 20 quilos. Tinha muitas dores abdominais, diarreia, fadiga extrema, dores nas articulações, febre e falta de apetite. Um dia antes do vestibular, acabei internado. Não tinha mais condição nenhuma de trabalhar ou estudar. Passei 40 dias no hospital e por duas cirurgias para colocar uma bolsa no meu intestino. Usava maconha de vez em quando desde os 16 anos e quando descobri a doença decidi parar de fumar, com medo de piorar. Qual não foi minha surpresa quando busquei o assunto na internet e vi que ela era um tratamento indicado para a doença que eu tinha! O uso regular me fez melhorar muito. Meu médico sabe e acompanha os resultados: há quase dois anos não sou internado e a doença de Chron está em remissão. Voltei a trabalhar, tenho um emprego de meio período na parte da tarde, e voltei a ter uma vida social. Antes não saía de casa com vergonha de que os outros não entendessem minha doença. Tomava três tipos de antidepressivos e agora não uso mais nenhum. Quando descobri que a cannabis me ajudava, fiquei muito feliz. Mas isso não passa na mídia, e nem todo mundo que tem minha doença vai ter essa mesma descoberta.”

Katiele Bortoli Fischer, 33, mãe da Anny, 5 – Portadora da síndrome de CDKL5 – Brasília (DF)

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“Minha filha Anny teve a primeira convulsão com 45 dias e logo passou a ter dezenas de crises por semana. Só conseguimos um diagnóstico da síndrome de CDKL5 quando ela tinha 4 anos. Mas nenhuma medicação funcionava e ela teve um atraso cognitivo. Só conseguiu andar com 3 anos e balbuciava algumas palavras. Com 4 anos, ela piorou e voltou a ser um bebê. Parou de andar, de sentar, de fazer sons. A cada crise, ela pode aspirar vômito e pegar uma pneumonia. Então é risco o tempo todo. Às vezes, a crise não para e vamos ao hospital para ela ser sedada. Quando conseguimos o diagnóstico, pesquisamos na internet e descobrimos um grupo de pais de crianças com a doença. Um americano disse que sua filha tinha melhorado com um extrato de maconha com canabidiol (CBD). A gente já tinha tentado de tudo, todas as combinações existentes de remédio para a epilepsia, com efeitos colaterais horríveis. Fizemos até uma cirurgia no cérebro, e nada funcionou. Então compramos o produto de uma empresa nos EUA. É uma pasta, sem o negócio que dá barato, e ela toma uma vez por dia. Há dois meses, quando começamos, minha filha tinha 60 convulsões por semana. Semana passada, teve três. É uma coisa milagrosa. Ela está esperta, fazendo sons, movimentos com braços e pernas. Ficamos surpresos. A imagem que a gente tinha da maconha era essa da Globo, de morro e traficante. Ninguém pensa que pode ser algo medicinal. Quando soube do CBD falei: “Será?” Mas aprendemos muito, não temos mais preconceito. É emocionante, impressionante, surpreendente. Quando você encontra algo que faz efeito, você coloca isso no seu coração, na sua alma. Quando dá certo é um alívio muito intenso. Estamos passando por um momento muito feliz, porque o CBD trouxe uma qualidade de vida para a Anny que ela não tinha há muito tempo. Isso mudou a nossa vida.”

PARA QUÊ SERVE?

As aplicações da maconha medicinal podem ser divididas em três níveis, segundo a qualidade das evidências disponíveis em cada caso.

 

Nível A

Recomendação baseada em consistentes evidências científicas, com testes em pacientes.

Náusea e vômito, anorexia e perda de peso, dor neuropática, fibromialgia, espasmos causados por esclerose múltipla ou lesão da medula, síndrome de Tourette, dor em decorrência do câncer e de seu tratamento.

Nível B

Recomendação baseada em evidências científicas limitadas, com testes em pacientes.

Dor pós-operatória ou causada por processos inflamatórios, como doença de Chron, asma, glaucoma e epilepsia.

Nível C

Recomendação baseada em consenso médico ou pela prática clínica, sem testes em humanos.

Gliobastomas (tipo de câncer de cérebro), controle das alterações causadas pelo Alzheimer.


 

FARMÁCIA CANÁBICA 

Existem diferentes formas de acesso à cannabis medicinal. Todas que contêm THC podem ter efeito psicoativo

 

Sativex® (Nabiximol)

Extrato natural de maconha em spray, para uso oral e nasal. Dos medicamentos aprovados, é o único com todas as substâncias da planta. Sua formulação permite a administração da mesma proporção de THC e CBD.

Onde: Venda aprovada em 24 países para alívio de sintomas da esclerose múltipla.

 

Marinol® (Dronabinol)

Remédio em cápsulas com THC sintético.

Onde: Nos EUA, para pacientes em quimioterapia e para anorexia em pacientes de aids.

 

Cesamet® (Nabilona)

Remédio em cápsulas com nabilona, molécula sintética similar ao THC. Sua eficácia é menor que a dos canabinoides naturais.

Onde: Aprovado no Canadá (desde 1985) e nos EUA (2006), para náusea e vômito em pacientes de quimioterapia.

 

Maconha em estado natural

Flores da planta fêmea da cannabis, rica em canabinoides. Dependendo da variedade, ela pode conter mais THC, mais CBD ou um equilíbrio de ambos. Fumada ou vaporizada (inalada sem combustão com instrumento adequado) produz efeito imediato.

Onde: Nos programas medicinais do Canadá, de Israel e da Holanda, e nos vários Estados norte-americanos com uso medicinal regulado.

 

Extratos e alimentos

Concentrados de um ou mais canabinoides estão disponíveis em soluções, óleos ou pastas, para consumo via oral ou vaporização. Eles também podem ser adicionados em alimentos. Produtos com CBD, apenas, não causam efeito psicoativo.

Onde: Em Israel e nos Estados dos EUA que autorizam o uso medicinal.

Capa Fabrício Lopes

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Sobre Smoke Buddies

O Smoke Buddies é a sua referência sobre maconha no Brasil e no mundo. Aperte e fique por dentro do que acontece no Mundo da Maconha. http://www.smokebuddies.com.br