Esqueça a maconha, o problema é a bebida

 Esqueça a maconha, o problema é a bebida

Uma das drogas mais nocivas à saúde e que causam mais mazelas sociais ainda faz lucrar a cada dia mais uma indústria poderosa que seduz seus jovens consumidores através de propagandas permitidas pelo governo. A sociedade conservadora contesta a legalização da maconha, mas consente o consumo das bebidas alcoólicas que matam e ferem mais que todas as outras drogas juntas. Um estudo do Ministério da Saúde demonstrou que 20% dos acidentados no trânsito apresentaram sinais de embriaguez ou relataram o consumo de álcool, e entre as vítimas de agressão, o percentual sobe para 49%. Leia e entenda mais no artigo do mestre em saúde pública pela Fiocruz Daniel Becker publicado na Época.

A medicina conseguiu provar pela primeira vez, de forma inquestionável, que a bebedeira compromete o desenvolvimento cerebral dos jovens. Confirmando indicações de estudos anteriores, pesquisadores de cinco universidades americanas analisaram o cérebro de 483 voluntários, entre 12 e 21 anos, em dois momentos: quando ainda não consumiam bebida alcoólica e até dois anos depois. Concluíram que os “grandes bebedores” – aqueles que bebem até se embriagar – tiveram redução no ritmo de crescimento cerebral e perderam massa cinzenta no córtex pré-frontal. Última região do cérebro a se formar, até os 25 anos, o córtex é associado à tomada de decisões, ao autocontrole e ao comportamento social. Ainda não é possível afirmar, com certeza, que essa perda faz alguma falta. Mas é um claro sinal de alerta: quem exagera na bebida durante a adolescência pode perder habilidades fundamentais para uma vida madura e saudável.

A sociedade debate os riscos da liberação da maconha, que já aconteceu no mundo todo, mas pouco fala sobre bebidas alcoólicas. O álcool mata e fere mais que a soma de todas as outras drogas. Num estudo do Ministério da Saúde, 20% dos acidentados no trânsito apresentaram sinais de embriaguez ou relataram consumo de álcool. Entre vítimas de agressão, o percentual sobe para 49%. Apesar de seus males, a bebida não é coibida. Ao contrário. É incentivada.

O Brasil promoveu uma das mais eficientes campanhas de combate ao cigarro no mundo. Em 30 anos, o consumo caiu à metade. Os maços ganharam advertências sobre os males do fumo e a propaganda foi proibida. O fumante passou a ser visto como um fraco, um viciado que polui o ar alheio. Tal reprovação social não se estendeu aos bebedores compulsivos. A representação social da embriaguez é muito positiva. O governo proibiu apenas a propaganda de bebidas com maior teor alcoólico. As cervejas continuam a aparecer em eventos esportivos, no Carnaval, em intervalos da televisão, atingindo crianças e adolescentes. O publicitário brasileiro foi inteligente a ponto de associar o consumo de cerveja à amizade. Os personagens estão sempre confraternizando: no sofá, no estádio, na praia, no bar. São amigos. Aí eu pergunto: qual grupo etário precisa mais da sensação de pertencimento? O jovem. Ele está saindo da casa dos pais, em busca de pares. Ele quer ser igual àquelas pessoas, que têm alegria, amizade, plenitude. A livre propaganda de cerveja deveria ser proibida. Ela estimula o consumo precoce de álcool.

Os adolescentes estão bebendo cada vez mais e cada vez mais cedo. Um manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria informa que 15% de jovens de 10 a 12 anos já provaram bebidas alcoólicas. Na faixa etária entre 13 e 15 anos, o percentual sobe para 45%. Até os 15 anos, 75% já experimentaram. A mesma pesquisa informa que 25% dos adolescentes tiveram ao menos um episódio de embriaguez nos últimos 30 dias.

O adolescente que se inicia cedo no álcool costuma encontrar permissividade em casa. Os pais, também consumidores, permitem ou não se interessam em impedir. Isso é muito grave, pois a conversa na família é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de embriaguez e consequências dela, como sexo sem proteção e acidentes de trânsito. É importante conversar sobre álcool com os filhos. Se 15% dos jovens entre 10 e 12 anos já beberam, é necessário conversar ainda antes disso. Não adianta evitar. É melhor falar de forma aberta, respeitosa, não moralista. Agir como um advogado deles – e delas, vale dizer. A embriaguez é muito comum entre meninas. A escola também perde a oportunidade de ajudar, ao dedicar muito tempo aos assuntos que cairão no Enem e muito pouco a questões como sexualidade e drogas.

Festas de formatura do ensino médio – para estudantes de 16 e 17 anos, com convidados até mais novos – oferecem, em contrato, “open bar” (bebida liberada) e ambulância estacionada na porta. Quem dera fosse para socorrer alguém que torceu o pé enquanto estava dançando… Estimulados por empresas e negligenciados pela família e pelo Estado, adolescentes bebem como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã existe – e, concluíram os pesquisadores americanos, ele pode se tornar definitivamente pior por causa dos excessos na bebida alcoólica.

Conteúdo Extra:

Vale ressaltar as palavras do autor: “Não se pretende com esse texto fazer a apologia do proibicionismo absoluto do consumo de álcool para menores de 18. Seria hipocrisia numa sociedade como a nossa, com heranças de tradições familiares onde vinho se consome desde cedo, onde é tão fácil o acesso. Mas é preciso falar sobre o tema. Mostrar que o consumo excessivo faz muito mal. E regulamentar a propaganda absurda, voltada para seduzir especialmente os mais novos.”

  • Daniel Becker, mestre em saúde pública pela Fiocruz, é médico do Instituto de Pediatria da UFRJ e ex-pediatra da ONG Médicos Sem Fronteiras. Coordenou o Programa de Saúde da Família do Rio de Janeiro, de 1994 a 1998.

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