Em Chefchaouen, um dia feliz para os turistas em busca de maconha

 Em Chefchaouen, um dia feliz para os turistas em busca de maconha

Na colorida cidade marroquina, os ocidentais podem comprar e usar a erva livremente. Saiba mais no artigo da Carta Capital.

Cercado pelo azul das paredes, do chão e do céu, Mohammad acende um cigarro, tabaco e haxixe mesclados, enquanto aguarda, acocorado e contemplativo, os turistas na porta do albergue. Um a um, brancos, atrasados e indolentes, repletos de granola e cerveja, os jovens surgem. Com eles, o indefectível cheiro de protetor solar mesclado a repelente, que os protege da agressão domesticada que é o Marrocos.

Após o adeus à dona do hotel, que organiza o passeio, o norte-americano, o italiano, a polonesa e o brasileiro partem atrás do guia marroquino, sorriso no rosto. Mohammad serpenteia rapidamente pelas ruas tortuosas de Chefchaouen (olhe os picos, em berbere), entre muros, portas e janelas azuis. “Les gusta el azul?”

Reza a lenda que, nos anos 1920, os judeus de origem andaluza passaram a pintar assim as paredes para espantar mosquitos. A vila, fundada em 1471, seguiu azul, pobre e sob domínio espanhol até a independência, em 1956. Mas foi a partir dos anos 70, com a abertura do país, que se percebeu que o azul que repelia pernilongos também atraía turistas.

 Em Chefchaouen, um dia feliz para os turistas em busca de maconha

As cores espantam mosquitos e atraem visitantes

Desde então, novas camadas de tinta ganham, todo ano, cada centímetro da cidade. “Do you like blue?”, insiste o guia, orgulhoso de falar línguas diversas, bom marroquino que é. “Aimez-vous le bleu?” Ofegantes, todos sorriem amarelo.

Até que, com o suor a escorrer pelo rosto (são 10 horas da manhã e faz 39 graus), o grupo chega a uma cabana com três cabras a balir. “Meu irmão”, diz Mohammad e aponta um homem ainda mais baixo e franzino com as mãos cobertas de resina preta. “Ele vai mostrar como faz o haxixe.” Ou seja, como se faz, no Marrocos, manualmente, desde sempre.

 Em Chefchaouen, um dia feliz para os turistas em busca de maconha

Uma experiência única para esta polonesa (Foto: Willian Vieira)

Ahmed volta com um saco cheio de flores secas de maconha, que despeja sobre uma bacia com uma tela de tecido, logo coberta com o saco. Com duas varetas nas mãos, anuncia, em francês: “Agora, a música”. E começa a bater as baquetas como se tocasse bateria.

Retirada a tela, o fundo aparece coberto com um finíssimo pó ultraverde. É o kief explica Mohammad, a resina que concentra os tricomas, repletos de THC. O pó passará por uma prensa e virará o pequeno tijolo verde-escuro que cinco entre dez jovens oferecem a cada turista branco em cada esquina azul de Chefchaouen.

Após baixar o celular no qual registrara tudo, o americano pergunta: “Quanto custa o grama?” Logo surge um grosso baseado. O italiano tosse violentamente. “Essa merda é boa.” A polonesa chama as galinhas, ocupadas, por sua vez, em buscar restos de maconha para ciscar.

A mulher de Ahmed, de avental, sai pela porta e as escorraça, em árabe. “Elas querem ficar chapadas”, explica Mohammad. Todos gargalham e retomam os celulares, no conforto exótico do Marrocos.

O guia, 48 anos esculpidos no rosto, fuma haxixe desde os 10. “Aqui é assim há 500 anos”, afirma. “É a nossa cultura.” O comércio é, no entanto, recente. O tio trocou a fazenda de trigo por maconha nos anos 70, quando a demanda europeia por haxixe explodiu com a chegada dos turistas. “Mas há quanto tempo você traz gente aqui?”, pergunta o italiano, os olhos feito cerejas. “Uns cinco anos, quando os albergues me convidaram.”

No Rif, pequena região no norte do Marrocos, 130 mil hectares de maconha são plantados todo ano, mais de 40% da produção mundial, e empregam 800 mil trabalhadores. Diferentemente de cidades como Ketama, perigosa capital do tráfico, Chefchaouen é segura.

Há policiais em cada rua da cidade, mas nenhum no morro onde os turistas podem comprar droga com terroir, diretamente das mãos dos produtores. “Pergunto-me se estamos ajudando ou ferrando essa gente”, diz o americano, em um átimo de consciência sobre o poder devastador do turismo sobre a vida local. “É quase um show ecologicamente correto.”

 Em Chefchaouen, um dia feliz para os turistas em busca de maconha

O cultivo da erva ocupa 130 mil hectares (Foto: Willian Vieira)

Da cabana, o grupo parte morro acima. Vinte minutos de subida e o paraíso surge: uma plantação encarapitada no topo do morro, com milhares de pés de Cannabis sativa em flor. “É a porra do paraíso”, grita o americano, pulando entre as plantas como uma criança.

Mohammad toma seu iPhone 6 e dirige. “Segura a folha assim e faz cara de louco.” Realiza, em minutos, um ensaio fotográfico made in Marrocos, pronto para fazer a alegria dos amigos nos bares de Nova York.

No albergue, após quatro horas de tour, cada turista compara seu haxixe com aquele dos outros hóspedes. “25 dihrams o grama, tipo 2 dólares e meio”, comemora o norte-americano. “Você comprou quanto?”, pergunta uma canadense, enquanto sorve uma salada de frutas. “Cem gramas.”

Não seria muito? Quando é seu voo de volta? “Amanhã”, responde o nova-iorquino, o olhar fixado no troféu. Todos gargalham, inclusive a dona do albergue. O americano, recomposto do excesso reflexivo, responde. “Let’s party tonight!” Vamos fazer a festa, sugere, para o aplauso geral. “A gente está no fucking Marrocos.”

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