Conversa com Bial debate a regulamentação e usos da maconha no Brasil

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O debate sobre a legalização da maconha no Brasil, apesar de ainda enfrentar o tabu e preconceito propagados pelo conservadorismo, recebe cada vez mais a atenção da mídia tradicional, bem como do programa Conversa com Bial que realizou uma edição especial para debater os usos e regulamentação da erva no país. Saiba mais no texto abaixo.

O programa “Conversa com Bial” promoveu nesta quarta-feira, 18/7, um debate sobre a regulamentação da maconha com a participação de MV Bill, do neurocientista Stevens Rehen, Luiz Eduardo Soares, antropólogo e especialista em segurança pública, pais de uma criança, militantes pela legalização da maconha e a pioneira no alto-cultivo no Uruguai, a argentina Alicia Castilla.

Stevens Rehen iniciou o papo e resgatou as razões históricas da proibição da planta e suas qualidades medicinais, derrubando mitos:

“Em toda a literatura médica, não há um único caso de overdose associado à maconha”.

“A base [da proibição] foi racial, econômica e política. Nenhuma base científica”.

 

O neurocientista ressaltou que a maconha tem um componente psicoativo, mas não chega a ser um alucinógeno e citou alguns dos seus efeitos no organismo:

“Os principais são: aumento de apetite, relaxamento e euforia. Depende da dosagem. Se for um pouco maior, pode causar ansiedade, taquicardia, lapsos de memória e falta de motivação”.

Projeto de lei 514

Está em trâmite no Senado Federal um projeto de lei que propõe o cultivo pessoal da planta para fins terapêuticos em quantidade não mais do que suficiente para um tratamento com prescrição médica. Rehen afirma que o empenho de pessoas que lutaram, e seguem lutando, para ter acesso a remédios com substâncias derivadas da maconha foi fundamental para promover o debate da regulamentação no Brasil:

“O preço do medicamento é muito caro para importar. Custa entre R$ 1 mil e R$ 3 mil por mês. Inviável para a maioria das famílias do Brasil”.

Do ponto de vista científico, a questão é urgente:

“É preciso liberdade para pesquisar, importar, plantar e extrair compostos. Isso que acelera a pesquisa. A partir do momento em que tivermos essa liberdade, vamos poder avançar muito para identificar novos potenciais da maconha na área médica”.

Quando a maconha é remédio!

Coordenadores da APEPI (Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal), Margarete Santos e Marcos Lins são pais de uma menina portadora de uma síndrome genética que, dentre outras questões, causa muitas crises convulsivas. Conheça a história da primeira família brasileira autorizada pela Justiça a cultivar maconha em casa:

Regulamentação

Luiz Eduardo e MV Bill viveram a guerra das drogas em lados opostos. O primeiro é um antropólogo que trabalhou na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro. O segundo é um famoso cantor nascido e criado na célebre comunidade carioca Cidade de Deus. Ambos são favoráveis à regulamentação:

“Não tem nenhuma razão para que seja proibida a produção, o comércio e o uso. Inclusive, a própria criminalização acaba aprofundando as desigualdades e intensificando o racismo. Dependendo da cor de pele, do endereço e da classe social, a pessoa é definida como traficante ou usuário.”, afirmou Luiz Eduardo.

“Eu nunca fui um panfletário da legalização, mas também nunca fui totalmente contrário. Acho que é uma discussão importante, que tem que se ampliar mais (…) No Brasil, a gente precisa primeiro priorizar a educação e a informação. Aí teremos mais condições de abrir essa discussão. O viés mais proporcional para nossa realidade é o do tratamento medicinal”, ponderou MV Bill.

“Vovó Cannabis”

Em 2011, Alicia Castilla foi presa no Uruguai por plantar maconha em sua casa. A escritora argentina acabou se tornando símbolo do movimento que culminou na legalização da erva no país latino três anos depois.

Educação e um novo olhar

Para MV Bill a legalização é importante por conta dos avanços que chegam junto com esta, mas para ele antes de tudo é preciso priorizar a educação no Brasil. “Com uma população mais educada e informada vamos ter mais condições de abrir esta discussão”.

Para o antropólogo, nós discutimos de forma equivocada o que é essencial. “Eu digo me dirigindo à Dª. Maria que tá nos vendo preocupada com seu neto ou filho. A questão não é permitir ou não que o seu neto tenha acesso às drogas, a pergunta é em que contexto institucional, jurídico e político essa experiência vai se dar. Nós precisamos pensar se o melhor é o contexto atual, em que droga é um problema de polícia, cadeia e justiça criminal, ou um contexto no qual tudo isso fosse matéria de saúde, educação, cultura e reflexão pública aberta”, e completa dizendo que “essa é a grande questão porque o acesso, infelizmente Dª Maria, existe e é franqueado e se seu neto quiser, mesmo contra a sua e a nossa vontade, vai encontrar o seu objeto de desejo”.

Posição equilibrada sobre a maconha

Segundo o neurocientista, para retirar a demonização e ou glamourização da maconha é preciso regulamentar. “Hoje em dia qualquer pessoa tem acesso à droga, mas é uma droga com uma potência sem controle e com uma qualidade, como é com o prensado, que não faz menor relação com o que de fato é a maconha”.

10 anos de Marcha da Maconha

A Marcha da Maconha em São Paulo já é uma tradição de 10 anos e a equipe do ‘Conversa’ esteve no ato conversando com os militantes que mostraram a importância da manifestação e da regulamentação da maconha no Brasil.

Respeito à Liberdade individual e às minorias

Liberdade individual e científica, respeito às minorias, educação e racionalidade são fundamentais para se chegar a um equilíbrio no debate sobre a legalização. Por fim, Bial concluiu que a maior urgência para a sociedade brasileira é chegar no fim da guerra às drogas”.

Caso algum vídeo fique indisponível no Youtube, assista diretamente na GShow.

Leia também: Programa mostra a esperança, o preconceito e os usos da maconha medicinal

#PraCegoVer: fotografia (de capa) de Pedro Bial, Stevens Rehen, Luiz Eduardo Soares e MV Bill durante o debate no programa “Conversa com Bial”.

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Sobre Dave Coutinho

Carioca, Maconheiro, Ativista na Luta pela Legalização da Maconha e outras causas. CEO "faz-tudo" e Co-fundador da Smoke Buddies, um projeto que começou em 2011 e para o qual, desde então, tenho me dedicado exclusivamente.