“Com esclerose múltipla, me deram cinco anos de vida. Maconha me salvou”

gilberto castro foto em sua primeira colheita de cannabis medicinal oficialmente legalizada com habeas corpus apos tres processos judiciais 1542647333095 v2 900x506 Com esclerose múltipla, me deram cinco anos de vida. Maconha me salvou

Segundo Gilberto Castro, a legalização da maconha medicinal precisa ser urgente. “Isso é garantir a dignidade de alguém com doença. A pessoa não pode esperar. No mundo todo existe um movimento muito grande e aqui no Brasil fica essa burocracia hipócrita”. As informações são do UOL VivaBem.

Imagine ser diagnosticado com uma doença degenerativa e irreversível no auge da sua juventude, aos 26 anos. Essa é a história do designer Gilberto Castro, que em 1999 recebeu a notícia de que tinha esclerose múltipla de um médico, após relatar dormência nas pernas.

Na época, o especialista deu cinco anos de vida útil ao jovem, disse que ele teria vários problemas, como falta de visão ou dificuldade para andar e segurar objetos. “Fiquei apavorado. Meu maior medo foi quando o médico disse que eu deveria ficar de cama“, lembra Gilberto Castro.

O tratamento tradicional consistia em mais de cinco medicamentos por dia, com fortes efeitos colaterais. “Nem consigo avaliar os benefícios do tratamento nessa época. Os efeitos colaterais eram muito piores do que os próprios sintomas da doença.” O medo de piorar fez Gilberto procurar vários especialistas, até que um deles indicou o uso da Cannabis medicinal.

A expectativa de um novo tipo de terapia o animou. O designer então resolveu lutar para conquistar o tratamento que considerava mais eficaz. Depois de cinco anos, três processos judiciais, polícia batendo em sua porta e muito trabalho, em abril deste ano, aos 45 anos, ele conseguiu o habeas corpus para plantação caseira e uso medicinal da substância proveniente da maconha, planta ilegal no país.

“A Cannabis medicinal me devolveu a vida. Melhorou todos os sintomas da esclerose múltipla sem efeitos colaterais”

Gilberto acredita que sem a planta teria ficado de cama e estaria provavelmente morto. “Ela inibe claramente a evolução da doença. Esse foi um dos motivos para me tornar ativista (um dos primeiros no Brasil), pois a informação precisa ser repassada para salvar mais vidas”.

A maconha como tratamento alternativo

Dois princípios da maconha são usados na medicina:

– Canabidiol (CBD) Funciona como analgésico, sedativo e anticonvulsivo e é usado no tratamento de doenças como esclerose múltipla, epilepsia, mal de Parkinson, esquizofrenia e dores crônicas.

– Tetrahidrocanabidiol (THC) É usado como antidepressivo, estimulante de apetite e anticonvulsivo. Seu extrato tem sido aplicado no tratamento de mal de Parkinson, esclerose múltipla, síndrome de Tourette, asma e glaucoma.

O CBD normalmente é vendido em forma de um óleo extraído da planta da maconha, a Cannabis, por meio de um processo artesanal. Também é possível comprá-lo com um nível maior de processamento, mas medicamentos específicos precisam de autorização individual da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O primeiro remédio a ser aprovado foi o Mevatyl, um spray produzido na Grã-Bretanha pela GW Pharma, indicado para tratamento de contração muscular ligada à esclerose múltipla.

Em 2017, pela primeira vez, o medicamento feito com substâncias derivadas da planta foi vendido no Brasil. Mas, apesar do registro da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o remédio não é produzido em terras brasileiras e continua tendo que ser importado, o que encarece o produto, que pode chegar a R$ 2.800.

Isso faz com que, apesar de ser uma alternativa, o Mevatyl ainda seja inacessível para muitos. Por esse motivo que a extração caseira do óleo é cada vez mais visada entre os pacientes.

Atualmente, apenas 27 pessoas obtiveram habeas corpus para plantar maconha em casa sem que corram o risco de ser presas –Gilberto Castro é uma delas. “Se compararmos esse número à quantidade de pessoas que precisam urgentemente da planta para viver, é um péssimo índice”, diz ele.

O fato inclusive de o acesso à maconha medicinal não ser democrático faz com que muitos façam o plantio ilegal ou recorram à boca de fumo. “Pacientes têm que usar maconha de péssima qualidade, com mofo. Eles já estão em um estado de vulnerabilidade por conta da doença e o Estado os coloca em uma ainda maior situação de risco. Se essa proibição [da maconha no Brasil] tem nome, é hipocrisia”, afirmou Margarete Brito, presidente da Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal, ao UOL.

A família de Brito foi a primeira no país a conseguir o habeas corpus para o plantio. Mãe de Sofia, que tem a síndrome CDKL5, que provoca convulsões sucessivas, ela desafiou a justiça em 2013 ao importar ilegalmente o CBD para o tratamento da filha, que na época tinha cinco anos. Hoje, desde que começou a usar o medicamento, Sofia tem menos da metade das convulsões.

Para Gilberto, o óleo de CBD feito em casa controla seus espasmos e suas dores. “Eu faço quimioterapia todo mês porque minha doença é muito grave, mas a Cannabis me ajuda muito. Ela controla meus espasmos, coisa que os remédios tradicionais nunca fizeram, e diminui minhas dores.”

“Para quem não ia passar cinco anos vivo, já estar há 20 de pé por causa da maconha não é pouca coisa”

Plantando em casa

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#PraCegoVer: Fotografia mostra o interior de uma tenda de cultivo com alguns pés de maconha florindo sob uma iluminação amarelada. – Foto: Arquivo Pessoal

Antes de conseguir o habeas corpus, Gilberto utilizava a versão prensada da Cannabis, que pode conter quantidades desconhecidas de THC e CBD, além de substâncias tóxicas. O medo fez com que o designer começasse a plantar em casa ainda em 2014, mesmo sem a liberação da justiça. “Era a única coisa que me dava esperança”, lembra. “Nem cogitei importar o medicamento porque o preço é inviável para mim”.

Ele ainda teve que lidar com o Denarc (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico) em sua casa. “Acharam que eu estava traficando, mas no fim viram que não se tratava de algo criminoso”, explica ele.

Com o habeas, o designer está liberado para plantar em casa, mas precisa avisar a justiça quando parar de usar o óleo proveniente da erva. Para extrair a substância, ele colhe a flor e a deixa de molho no azeite em banho-maria por cerca de três horas. “É muito fácil. O Hospital das Clínicas ainda me ajuda a controlar as doses exatas para meu tratamento. Tomo duas vezes ao dia”.

Segundo ele, a legalização da maconha medicinal precisa ser urgente. “Isso é garantir a dignidade de alguém com doença. A pessoa não pode esperar. No mundo todo existe um movimento muito grande e aqui no Brasil fica essa burocracia hipócrita.”

“As pessoas têm na cabeça a ideia simplista de que maconha é droga que mata neurônio, mas ela pode salvar vidas, assim como salvou a minha”

Na última semana de novembro, a notícia de que a Comissão de Assuntos Sociais do Senado aprovou um projeto de lei que descriminaliza o cultivo da Cannabis sativa para uso terapêutico animou os que precisam do medicamento. Mas a pauta ainda precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ser votada no plenário do Senado. Caso seja aprovado, o texto segue para a Câmara dos Deputados.

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#PraCegoVer: fotografia (capa) mostra alguns pés de maconha florindo sob uma iluminação de cor violeta, no primeiro plano, e ao fundo outros pés de maconha sob iluminação amarelada e na direita vemos parte do torso de Gilberto Castro vestindo uma blusa de frio preta com vários ícones da cultura canábica na cor branca e sorrindo ao observar o cultivo. Créditos da foto: Arquivo Pessoal.

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