A cidadania em não ter direitos – Ou: como é ser galho e escolher o incêndio para lhe refrescar em dia quente

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Enquanto países do mundo todo estão seguindo a tendência de descriminalização e legalização da maconha e outras drogas, o Brasil segue na contramão de um caminho que talvez leve ao abismo com o ministro da Cidadania do próximo governo. Entenda mais sobre o assunto no artigo do jornalista Gabriel De Lucia Murga.

“Essa história de defender maconha medicinal demonstra um profundo desconhecimento”, pensa o médico e futuro ministro da Cidadania.

O Deputado Federal do MDB-RS Osmar Terra foi anunciado hoje, 28 de novembro, como o futuro ministro da Cidadania (pasta que no próximo governo vai englobar Cultura, Direitos Humanos, Esporte e Desenvolvimento Social). Ou seja, será mantido no governo, já que foi Ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, entre 2016 e abril deste ano, quando foi reeleito deputado federal. O futuro ministro é médico e não acredita no potencial terapêutico da maconha.

Hoje pela manhã foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, um projeto que descriminaliza o cultivo caseiro de maconha para fins terapêuticos, cuja relatora foi a Senadora Marta Suplicy (sem partido – SP). O caminho que o projeto deverá seguir passa pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, pelo plenário do Senado Federal e posteriormente pela Câmara dos Deputados.

Existe um otimismo de grande parte dos ativistas sobre o avanço deste projeto em especial, que acreditam que a sociedade brasileira e os deputados eleitos serão “conservadores, mas não insensíveis” como pensa a senadora Marta Suplicy, relatora do PLS 514/2017, aprovado hoje com sete votos favoráveis e dois contrários. Na outra ponta – apagada – desta discussão está o novo-ex-ministro que tem como uma de suas principais bandeiras a criminalização dos usuários de maconha.

Para o futuro Ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, a próxima legislatura não será nada verde. Em entrevista dada ao site Poder 360, no último sábado (24/11), ele se colocou contra o uso medicinal da maconha. “O projeto não passa, não passa, não passa. Isso (PLS 514/2017) não tem como passar. A próxima legislatura será antidrogas. Eu tenho um projeto que endurece a política e só não avançou porque os senadores seguraram. Vamos ver em 2019”, afirmou.

Essa declaração foi dada antes de ele ser anunciado como Ministro, o que aconteceu hoje, 28 de novembro, na parte da tarde.  Na mesma entrevista, Osmar Terra apontou que “a médio prazo, a maconha traz danos permanentes: déficit cognitivo, de memória, uma espécie de retardo mental, quando não ficam esquizofrênicos”.

Cabe pontuar e ressaltar que Brasil e Israel estão na vanguarda da pesquisa sobre maconha medicinal, inclusive com o pesquisador e professor da Unifesp Elisaldo Carlini que, com mais de 50 anos de pesquisa e 88 anos de idade, foi intimado após abertura de um inquérito policial em fevereiro deste ano por “apologia ao crime”.

O motivo: um convite do professor Carlini ao fundador da Igreja Rástafari Brasileira Geraldo Antônio Baptista, o Ras Geraldino – que se encontra preso desde 2012 –, para falar em uma mesa sobre Cannabis e religião durante o 5ª Congresso Maconha – Outros Saberes. O convite não foi aceito e o professor condecorado duas vezes pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (em 1997 e 2000) foi parar no 16ª Delegacia de Polícia, na zona sul de São Paulo, em 21 de fevereiro deste ano.

As falas do futuro ministro vão de encontro ao conhecimento médico, acadêmico, empírico e científico desenvolvido em mais de 25 países, que aprovaram ou estão propondo a aprovação do uso medicinal da Maconha como a Coréia do Sul, Tailândia, África do Sul, Lesoto, Israel, Estados Unidos, Uruguai, Argentina, Canadá, México, Colômbia, Reino Unido, França, Itália, Peru, Austrália, Nova Zelândia, Portugal, Grécia, Zimbábue, Bélgica, Áustria, República Tcheca,  Polônia, Croácia, Alemanha, entre outros. Todos os especialistas e legisladores destes países, na visão do ministro, estão errados, pois não têm conhecimento sobre maconha como ele.

Os “sinais, fortes sinais”, estiveram bem descritos e expostos aos eleitores antes, durante e agora, após o pleito. Mas a escolha foi retirar o Partido dos Trabalhadores, com a ideia do custe o que custar. Sendo este ponto defendido, inclusive, por alguns ativistas do movimento canábico, familiares de pacientes que necessitam de maconha para obter ganho em sua qualidade de vida e empreendedores do meio.

Nessa fábula brasileira fica a seguinte moral: O mato está pegando fogo aqui em volta, mas se assoprar ele vai apagar, tenho certeza. Pensou o galho antes de virar cinza.

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#PraCegoVer: fotografia (capa) de um grande incêndio onde se vê várias folhas de maconha em chamas em foco ao centro e ao fundo a continuação do fogo e a mata.

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Sobre Gabriel De Lucia Murga

Assessor de imprensa, relações públicas e jornalista freelancer formado pela UERJ. Já trabalhou na Folha de São Paulo, no jornal Lance!, na assessoria de imprensa da Árvore de Natal da Bradesco Seguros (entre 2012 e 2014) e no escritório brasileiro da Anistia Internacional (entre 2016 e 2018). Colabora regularmente para a Smoke Buddies e Socialista Morena. Já colaborou com a revista Cáñamo na Espanha e no Chile, a Diga Communications UK, o Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2017, entre outras organizações públicas e privadas. Lançou seu primeiro livro em 2018, "Brisas" pela Autografia Editora, e seu primeiro trabalho como compositor de música brasileira, o EP "77 Rotações". Contato, críticas e sugestões em: gabrieldeluciamurga@gmail.com