‘Antes daquele verão – um conto da Lata’

antes daquele verao um conto da lata Antes daquele verão   um conto da Lata

Há quase 30 anos, milhares de latas de maconha jogadas ao mar chegavam às praias de todo o país abrindo a melhor estação de todos os tempos: O Verão da Lata. Durante este ano, reviveremos juntos a melhor estação de todos e para abrir uma temporada de celebrações confira essa incrível narrativa sobre a época em que a maconha veio do mar, escrito pelo parceiro Gabriel Murga, exclusivamente para o SB.

Dia 12 de setembro de 1987

Praia na Bacia de Paraty, próximo ao Saco do Mamanguá

(O sol preparava a queda lenta nas areias que formam solas resistentes as bolhas) Estava sentado em um barco, que não era seu – diga-se a propósito – seu Gerônimo, que esfregava as unhas num gesto tradicional para ver o nascer da noite – como costuma falar, sozinho ou não.

Do saco de pão que sobressaltava dos bolsos, rasgou um naco na medida certa, uns 25 centímetros como pedia a ocasião após um longo dia que começou no poer da noite, logo as quatro.

De charro em brasa se afastou do barco e pôs-se na areia com todo conforto, estendendo as pernas ao máximo, com o mínimo esforço. Fumaça farta e o sol se aprochegava veloz a ponta do morro que dava acesso à praia vizinha.

Uma luz o distraiu de seus pensamentos e vindo ao largo do espelho dourado feito na água pelo que ainda restava de brilho vindo do céu, antes das estrelas. Um barco conhecido.

Reconheceu o amigo, que apesar do oficioso dever de samango do planalto central, conhecia de outras saturnálias. Já sorrindo, o convidou para sentar ao seu lado no conforto da areia e foi prontamente aceito.

Após o cumprimento enfumaçado, seu Menezes, ou Carlinhos, como preferia seu Gerô não se aguenta e tosse.

 

Carlinhos: Quero tanto te contar essa porra, que até me engasguei.

Gerônimo: Tá com pulmão enferrujado, solta o subversivo e me diz.

Carlinhos: Tem um navio com algumas toneladas de maconha. Ou vão presos ou jogam no mar. Ou como dizia tia Lurdes “Ou coma isso, ou se joga no mar”. Vamos comer?

Gerônimo: Caralho, assim eu que vou engasgar.

(Alguns tragos depois e ainda buscando entender)

Gerônimo: Mas qual a treta?

Carlinhos: Vamos dar uma volta de barquinho ou tá com medinho da água?

Gerônimo: Jamais.

 

Saíram em direção a um grande condomínio em construção a duas praias de distância. Carlinhos sabia o horário da aproximação da Marinha, além de conhecer dois tripulantes da embarcação que se aproximaria do ‘Seu Solano’.

O plano era simples: dois barcos posicionados próximos ao U da Bacia e esperar a correnteza fazer seu trabalho. As latas recuperadas seriam divididas por três. Seu Menezes, Gerô e uma outra parte, que não foi especificada, pensou Gerônimo, seria um arreglo qualquer.

Dormiram no barco de Carlinhos fumando o pouco que se tinha e a espera do que mamãe-sereia pudesse oferecer.

Menezes foi bem claro, dizendo que teriam que fazer o resgate nos próximos dois dias, depois ele teria a função de comandar, à trabalho, as patrulhas que seriam feitas nos portos do Rio, especialmente os do litoral da Costa Verde.

Gerônimo ao entender toda a história fez o que podia e exclamou compreendendo – “Caralho! ”.

Seguiu-se um sorriso mútuo entre os dois, um aceno de cabeça e sono.

Acordaram algumas horas depois, um leve catucar no barco onde dormiram serviu de despertador. Estavam no mais recente dos dois barcos, um com 16 pés, e revestimento de metal, que tilintava.

“Se fosse na Mãezinha, – exclamou Gerô – ainda podíamos continuar dormindo – disse sobre a pequena barcaça que ganhou do seu tio junto com a primeira saca de erva seca, ainda jovem.”

E tomando um sinalizador de mão, tratou de acender para complementar o que a Lua e as estrelas já indicavam.

Latas de Alumínio batiam no casco.

E num salto súbito ele se atirou no mar.

Naquele momento embora Gerô não pudesse ver, o sorriso de seu Carlos Menezes iluminava toda a bacia junto com os enfeites do céu. Voltou trazendo duas nos braços com alguma dificuldade. Um canivete e o olhar ansioso de ambos os separavam da quase certeza.

Abriram.

Gritos.

Euforia.

Um sinalizador para o alto.

Dezenas de latas batendo.

Euforia.

Torpor.

E aquele cheiro.

Vamos fumar, e agora.

E sacaram cachimbos.

Dois cachimbos.

Um tiro. Seco. No Mar.

Gerô não resistiu de felicidade e pegou a arma sobre a mesa.

O Fumo?

Era só para testar.

Acordaram horas depois com o sol surgindo e o barulho magnifico de latas e latas no casco. Buscaram redes. Encheram os barcos e voltaram. Algumas vezes. Algumas dúzias de vezes. Contaram 126 latas fechadas. Duas abertas, com um cachimbo em cada e em excelente uso.

Não parecia com nada que ambos já tivessem fumado. Doce. Intenso. Uma porrada suave na cabeça. Com tons de marrom-dourado quase imaginários. Da Lata.

Seriam divididas em três partes.

Quarenta e duas latas para cada um dos barqueiros caçadores de latas.

Carlinhos ficou na dúvida e perguntou:

 

Gerônimo: E as outras quarenta e duas latas? Quem é o felizardo?

Carlinhos: Estão naquela sacola. Tem um papel ali em cima. É só tu fazer o que tá escrito ali com elas. Eu preciso voltar ao trabalho. Fica com meu barco, você vai precisar. Vamos precisar não dar bandeira, então depois de usar, afunda ele. Daqui uns meses eu volto e fumamos mais disso. Se cuida, pirata!

 

Num tom solene de despedida, foram até o cais em silêncio e se despediu com um abraço do Inspetor Carlos Menezes.

No papel estavam as instruções penduradas nas latas:

 

Do Cachadaço até a Praia do Pontal, enterra uma lata em cada praia da Baia de Paraty, em algum lugar de fácil reconhecimento. Deixa uma em cada praia, duma forma que não dê na cara, mas não seja uma celeuma para encontrar.

Vamos pensar nisso como um presente para o futuro.

Fica bem e tranquilo porque com meu barco você está seguro da Marinha.

Naufraga ele perto de Antiguinhos, única que você vai deixar duas latas.

As outras faça no seu rumo. Vai dar tudo certo.

Fica bem, grande Gerô.

Até qualquer dia

CM 1987

 

“30 anos Da Lata”

Para relembrar e celebrar três décadas de uma época ‘Da Lata’, o Smoke Buddies lançou, no dia 12 na Ganjah Lapa, sua nova coleção Verão da Lata – Especial 30 anos.

Confira abaixo os clicks, de Marcello Freire, deste B-Day da Ganjah e do lançamento da segunda coleção Sb:

Fotografia de capa: Lúcio Marreiro/11-10-1987 (O Globo)

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Sobre Gabriel De Lucia Murga

Assessor de imprensa, relações públicas e jornalista freelancer formado pela UERJ. Já trabalhou na Folha de São Paulo, no jornal Lance!, na assessoria de imprensa da Árvore de Natal da Bradesco Seguros (entre 2012 e 2014) e no escritório brasileiro da Anistia Internacional (entre 2016 e 2018). Colabora regularmente para a Smoke Buddies e Socialista Morena. Já colaborou com a revista Cáñamo na Espanha e no Chile, a Diga Communications UK, o Prêmio Gilberto Velho Mídia e Drogas 2017, entre outras organizações públicas e privadas. Lançou seu primeiro livro em 2018, "Brisas" pela Autografia Editora, e seu primeiro trabalho como compositor de música brasileira, o EP "77 Rotações". Contato, críticas e sugestões em: gabrieldeluciamurga@gmail.com