Afinal, dá para ficar rico vendendo maconha nos EUA?

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Para saber se o mercado legal (ou ilegal) da maconha nos EUA realmente pode dar dinheiro, o repórter da VICE Allie Conti trocou uma ideia com os vendedores locais em busca das respostas para as questões: Qual dos dois lados da moeda é mais lucrativo? E, afinal, vale a pena se arriscar neste tipo de negócio?

Durante o colegial ou faculdade, muitos jovens do EUA pensam que vender maconha é um trabalho dos sonhos, tipo ser piloto de corrida ou pirata. O acesso a drogas daria um up no status social, você faz seu próprio horário e pode chapar sempre que quiser. Acho que muita gente entre 15 e 25 anos já considerou a possibilidade de vender drogas, ou, pelo menos, fantasiou como iria evitar a polícia enquanto nadava no doce dinheiro do tráfico. Pessoalmente eu fantasiava em vender apenas para colegas de classe de confiança, nunca falar sobre isso por telefone ou computador, só através de um código elaborado para enganar a polícia e meus pais. Um plano perfeito.

Mas na prática não é assim. Bom, para começo de conversa, as pessoas que sei que vendiam maconha quando eu era adolescente estavam longe de serem descoladas e duronas no sentido tradicional, mas claramente tinham um certo conhecimento das ruas que eu não tinha. Eu não fazia a menor ideia de onde eles conseguiam as drogas, mas acho que em algum momento, todo traficante tem que lidar com gente da pesada, que são os fornecedores ou fornecedores dos fornecedores. Todo moleque bocó traficando no Centro Comunitário Judeu está a apenas alguns graus de um cara armado. Mas mesmo pensando agora, os vendedores de erva da minha juventude parecem ter se safado. Até onde eu sei, nenhum deles chegou a ser preso, ou mesmo suspenso. Na minha cabeça, vender maconha teria me ajudado a guardar mais dinheiro do que o trabalho duro no Panera Bread, Firehouse Subs, Pollo Tropical e toda uma variedade de restaurantes fast foods.

Mas algum dos traficantes que conheci realmente ficou rico? Com tantos traficas de maconha rondando os campi e os estacionamentos de loja de conveniência dos EUA, estaria o mercado saturado? A flexibilização das leis sobre a maconha ajudou ou atrapalhou os traficantes que queriam enriquecer? Para descobrir, conversei com pessoas do mercado legal e ilegal de maconha dos EUA, para saber quem está lucrando mesmo com nesse negócio.

Comecei com um universitário chamado Darren. O nativo de Manhattan começou a vender maconha dois anos atrás, quando estava com o aluguel atrasado. Ele e um amigo deram US$ 120 cada e compraram quase 30 gramas de um antigo colega de escola, aí foram até uma loja de ferragens, compraram uns saquinhos e começaram a oferecer entregas para pedidos pequenos de até US$ 15. Como Darren estava disposto a rodar Nova York por quantias pequenas, as pessoas começaram a entrar em contato com ele devagar, mas regularmente. Além disso, ele não fuma, o que o ajudou a lucrar com o negócio. Quando ele e o parceiro dobraram o investimento inicial, eles voltaram e pediram 60 gramas, e conseguiram descolar um desconto. Duas semanas depois, a notícia se espalhou entre os outros vendedores da área.

“As pessoas começaram a notar quem entrou no mercado”, diz Darren. “Esse tipo de notícia se espalha rápido.” Outro velho conhecido mandou uma mensagem oferecendo cerca de 100 gramas e várias opções.

“Comecei a conseguir coisas como Blue Dream, Cookie Monster, Girls Scout Cookies, Platinum Kush, Blackberry Kush e White Nightmare”, diz Darren. “E pensei: ‘Caralho!’ E ele estava disposto a vender a crédito para nós.”

O novo acordo era que Darren tinha duas semanas para pagar as 100 gramas, o que foi fácil, segundo ele, já que ele e o amigo eram os únicos vendendo cepas exóticas na área. Cerca de um ou dois meses depois, outro amigo mandou mensagem oferecendo 450 gramas, o suficiente para encher uma fronha de travesseiro. E o outro amigo também não se importava que eles pagassem depois.

Esse tipo de camaradagem era inacreditável para mim, mas uma das principais coisas que aprendi com o Darren é que grande parte do mundo da maconha opera em torno do crédito. Mas como ele explicou: “Por que começar com 500 gramas que saem por US$ 2 mil, quando o potencial de longo prazo pode render muito mais?”.

A segunda lição que aprendi foi que os intermediários fazem boa parte de seu lucro vendendo grandes quantidade de maconha por pouco dinheiro para traficas abaixo deles. Parece óbvio pensando agora, mas eles estão basicamente vendendo o fato de terem uma conexão.

“Tem um cara que compra 28 gramas por US$ 200”, ele me diz. “Ele literalmente vende isso para outro cara por US$ 220, e são US$ 20 fáceis por menos de 30 minutos do tempo dele, então ele volta e faz o rolê de novo logo de cara. Às vezes parece que você nem está vendendo maconha.”

Darren está vendendo maconha há três anos agora, ele negocia de 450 gramas até o dobro disso por semana. O cara acima dele negocia algo entre 9 a 22 quilos por semana, mas ainda não se considera um chefão do tráfico.

Darren não quer chegar a esse nível; ele quer passar seu negócio para outra pessoa quando se formar. Mas se ele continuar, pode acabar como um cara que vou chamar de Brian, que faz uma grana considerável vendendo drogas em período integral.

“Brian diz fazer meio milhão por ano, o que rende cerca de US$ 250 mil limpos depois de acertar a folha de pagamento e outros gastos.”

Brian está no negócio da maconha há cerca de três anos e viu isso se tornar ainda mais lucrativo com o tempo. Quatrocentos e cinquenta gramas custavam US$ 4.500, mas agora ele consegue a mesma quantidade por US$ 3.330 ou US$ 3.800. “Mas o preço de varejo não mudou”, ele diz. “Isso significa que muita gente está lucrando agora porque o preço de atacado caiu bastante.”

No papel, Brian ganha muito pouco, cerca de US$ 15 mil por ano. Ele tem uma LLC em Delaware, onde os impostos são mais baixos, e agora emprega um contador discreto e um punhado de entregadores para fazer os corres que ele fazia antes.

Brian diz fazer meio milhão por ano, o que rende cerca de US$ 250 mil limpos depois de acertar a folha de pagamento e outros gastos. Apesar disso, ele não se considera um grande traficante.

“Os caras grandes estão na Califórnia e têm contatos com várias fazendas”, ele insiste. “Eles voam para lá, arranjam as coisas, voam de volta e verificam se tudo está embalado corretamente. Eles fazem isso duas vezes por ano, fazem um milhão por vez e ficam descansando o resto do tempo na Califórnia.”

Brian diz que conhece algumas pessoas que já foram roubadas, o que mostra um dos lados ruins de vender maconha ilegalmente. Pensando nesse risco iminente, assim como nos comentários sobre os chefões terem conexões na Califórnia, fiquei imaginando como seria o outro lado do negócio da maconha – o lado legítimo. É mais fácil ficar rico vendendo maconha legalmente?

Para responder essa pergunta, liguei para Anthony Franciosi, o empreendedor por trás da Honest Marijuana Company, que se mudou de Nova Jersey para o Colorado quando tinha 18 anos para se tornar um grower de maconha. Enquanto aprendia a cultivar, ele trabalhou como especialista em irrigação e como garçom num resort em Steamboat Springs.

Ele começou vendendo brotos extras de sua colheita para um dispensário local. “Descobri que o estoque deles sumia rápido e logo eles queriam ainda mais”, ele me conta. “Pensando agora, eu devia ter investido algum dinheiro em licenças de venda naquela época.”

Em vez disso, ele começou uma fazenda por conta própria. Sua primeira oportunidade veio na forma da família de um amigo, que confiou em Franciosi um investimento de US$ 300 mil. A ideia era controlar o produto da semente até a venda, eventualmente abrindo uma loja própria. Mas logo ficou claro que eles não tinham dinheiro suficiente para montar esse tipo de operação.

“Eles não estavam felizes com o produto que receberiam usando essa quantia de dinheiro”, diz Franciosi. “Basicamente, o plano inteiro virou de cabeça para baixo.”

Mas ele encontrou um segundo sócio de Nova Jersey, alguém com um pouco mais de capital que estava disposto a gastar US$ 1,5 milhão para construir uma instalação de cultivo numa área rural. O lugar deve abrir no começo deste mês, e vai empregar cinco pessoas em período integral além de ajuda auxiliar, como o pessoal da poda. Esses funcionários vão ganhar cerca de US$ 45 mil por ano, diz Franciosi, o que é um bom negócio considerando que esses trabalhos não exigem curso superior.

As despesas são um negócio muito mais complicado para empreendimentos legítimos; Franciosi tem que bancar não só os salários dos empregados, mas vários impostos, e sem muitos abates a que negócios legais federalmente têm direito. Ainda assim, ele está otimista.

“Assim como a indústria ilegal, a indústria legal de maconha parece ser abastecida por dinheiro de Banco Imobiliário.”

“Sinto que as margens estão encolhendo, e que as pessoas que entraram na indústria antes puderam lucrar muito”, ele diz. “Acho que seguir em frente continua sendo um negócio rentável, mas a prática precisa melhorar. Quero ter uma instalação tipo butique – 650 metros quadrados, diferente de outros negócios locais com 18 mil metros quadrados.” No final, ele espera produzir 40 quilos por mês em flores e ter um preço de varejo de US$ 200 por 30 gramas em Denver e de US$ 300 nos arredores.

Claro, ter um sócio com US$ 1,5 milhão ajuda. O que aprendi com Franciosi é que assim como a indústria ilegal, a indústria legal de maconha parece ser abastecida por dinheiro de Banco Imobiliário. O que é chamado de “crédito” na primeira, é chamado de “capital de risco” na segunda.

Eddie Miler é um dos caras interessados em ver empreendedores de pequena escala como Franciosi terem sucesso. O profissional de marketing, que fez seu primeiro site do porão dos pais em Long Island quando tinha 16 anos, é um dos novos entusiastas do comércio legal de maconha, quase um evangelista de sua paixão pelas duas verdinhas. Ele me diz que acha uma boa ideia parar a faculdade por um ano e ir para a Califórnia ou Colorado, que ele conhece um cara que investiu US$ 4,5 milhões em cultivo e espera recuperar isso já no primeiro ano, e que o setor mais rentável da maconha é a tecnologia – por isso ele é o CEO da InvestInCannabis.com, uma empresa que visa vender infraestrutura para companhias de crescimento rápido.

Mas seu otimismo desenfreado me deixou meio cansada. Se todo mundo seguir o exemplo de Miller, todos esses novos negócios e todo esse capital de risco não criariam uma bolha da maconha? E quando algumas empresas se tornarem gigantes, as Mercedes e Starbucks da erva?

Quando perguntei o que aconteceria com empresários pequenos que abrissem lojas menores, Miller respondeu simplesmente que eles seriam engolidos por algo como a Apple Store da maconha.

O que isso faz sentido. Afinal de contas, grandes empresas como a Anheuser Bush InBev passaram por cima de muitos outros negócios até se tornarem grandes conglomerados globais. Em 2015, a ABIV comprou a maior operação independente da Califórnia, a Heineken comprou 50% da Lagunitas e a MillerCoors adquiriu a maior parte da Saint Archer Brewing. É de se imaginar que a indústria da maconha vá pelo mesmo caminho que a da cerveja.

Na visão de Miller do futuro, vender maconha não será diferente de vender DVDs ou papel. O que provavelmente vai ser bom para ele e outros que investiram na base da indústria.

“Daqui 20 anos, você não vai chegar numa loja e pedir um grama de Khalifa Kush Bubble Hash, você vai pedir um maço ou uma caixa disso”, diz Miller. “Tudo será empacotado de acordo. Novas medidas serão criadas. Assim que houver uma legalização federal, as indústrias de tabaco, álcool e farmacêutica vão investir na cannabis.”

Considerando a inevitabilidade da legalização e consolidação, parece improvável que os adolescentes do futuro terão a chance de se tornarem foras da lei da erva. Talvez eles acabem trabalhando na Starbucks da maconha ou na Starbucks comum.

Franciosi, o grower, diz que logo a maior parte da maconha no mercado será de nível farmacêutico, e que as pessoas com galpões de 18 mil metros quadrados serão obrigadas a usar pesticidas e outros químicos para se manter no jogo. Ele espera que as pessoas interessadas em fugir disso optem por comprar seu produto, que ele comparou a uísques exclusivos. Mas ele também acha que o mercado negro continuará sendo uma opção num futuro próximo.

“O preço para os traficantes é US$ 50 um quarto, não importa o que aconteça”, ele diz. “Isso é uma piada aqui. É tipo: ‘Bom trabalho, você conseguiu uma grama por US$ 9 e esse outro cara pagou US$ 17’, mas compare os dois, e um deles vai ter alguma porcaria amassada que pareceu ter saído do bolso de alguém. Ainda assim, os locais que estão há mais tempo na Califórnia dizem que as lojas nunca vão poder competir com os preços do submundo.”

Tradução: Marina Schnoor.

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