A maconha e os banhos quentes

a maconha e os banhos quentes A maconha e os banhos quentes

A maconha possui inúmeros benefícios medicinais e em alguns casos é o único medicamento eficaz, porém como nem tudo são flores, a erva também pode causar uma síndrome que até então era considerada um evento raro. Saiba mais no texto de Drauzio Varella em sua coluna na Folha de S.Paulo.

Nenhum medicamento é desprovido de efeitos colaterais. Esse ensinamento da medicina costuma ser contestado pelos que fazem uso regular de maconha.

Na subcultura maconheira, são ressaltados apenas os efeitos benéficos: melhora do apetite, redução dos níveis de ansiedade, das náuseas da quimioterapia, da pressão intraocular, das contraturas musculares na esclerose múltipla e um possível aumento da criatividade, entre outros.

O New York Times da primeira semana de abril trouxe uma matéria com a descrição de um efeito colateral da maconha que eu desconhecia: a síndrome de hiperemese por canabinoides (SHC).

Envergonhado com a ignorância, fui atrás da literatura científica.

Em março de 2017, Cecilia Sorensen e colaboradores da Universidade do Colorado publicaram uma revisão no Journal of Medical Toxicology, na qual resumiram os critérios diagnósticos, a fisiopatologia e o tratamento dessa síndrome.

A metanálise dos 183 trabalhos que mostravam dados mais rigorosos identificou as seguintes características: história de uso crônico de maconha (100% dos casos), crises cíclicas de náuseas e vômitos (100%), resolução dos sintomas ao abandonar o uso (96,8%), alívio da sintomatologia com banhos quentes (92,3%), dores abdominais (85,1%), frequência de uso igual ou superior a uma vez por semana (97,4%), predominância no sexo masculino (72,9%).

Até agora a síndrome era considerada evento raro.

A criminalização do consumo e o fato de os canabinoides terem sido empregados no passado para reduzir as náuseas da quimioterapia (hoje há medicamentos bem mais eficazes) confundiam os médicos e levavam os pacientes atendidos nos serviços de emergência a ocultar o uso frequente.

Em janeiro deste ano, Joseph Habboushe foi o primeiro autor de um estudo publicado na revista Basic & Clinical Pharmacology & Toxicology, realizado no Departamento de Emergências do Bellevue Medical Center, em Nova York, o hospital público mais antigo dos EUA.

Foram entrevistados 2.127 pacientes na faixa etária de 18 a 49 anos, dos quais 155 admitiram fumar pelo menos uma vez, durante 20 dias ou mais, todos os meses. Entre estes, 32,9% referiam os sintomas mais característicos da síndrome: náuseas e vômitos, curiosamente aliviados ao tomar banhos quentes.

Os autores calculam que, se esses dados puderem ser generalizados para o total de habitantes do país, devem apresentar anualmente a sintomatologia da síndrome cerca de 2,75 milhões de americanos.

O desconhecimento da hiperemese por canabinoides dá origem a exames laboratoriais desnecessários, ultrassons, tomografias e endoscopias inúteis que aumentam o risco de complicações e os custos da atenção médica.

Em alguns casos, o quadro é interpretado como crises de vesícula biliar, apendicite ou obstrução intestinal, suspeitas que podem levar ao centro cirúrgico doentes que não deviam ser operados.

Outras vezes, a falta de alterações laboratoriais elucidativas conduz a diagnósticos equivocados de transtorno de ansiedade e de vômitos de natureza psicogênica.

Essas pessoas são encaminhadas para psicoterapia e tratamentos psiquiátricos prolongados, nos quais recebem antidepressivos e ansiolíticos com efeitos colaterais que agravam o quadro.

Em quase 30 anos frequentando presídios em que os fumantes de maconha constituem a maior parte da população, vi mulheres e homens com queixas de náuseas e vômitos que se enquadrariam nos critérios da síndrome. Em alguns casos recomendei a abstinência da droga, por mera questão de bom senso: para quem está enjoado e vomitando, não pode fazer bem jogar fumaça nos pulmões.

Embora lembre de pacientes que melhoraram com essa conduta, o desconhecimento da existência da síndrome, a falta de acompanhamento rigoroso, a confusão causada pelos que não conseguiram permanecer abstinentes e a crença nas propriedades antieméticas da maconha me impediram de fazer o diagnóstico correto, passo essencial para a escolha do tratamento.

Caríssimo leitor, se você sofre de náuseas e vômitos que melhoram com banhos quentes, fique esperto: antes de correr para o pronto-socorro, experimente passar duas semanas longe do baseado.

Drauzio Varella é Médico cancerologista, e um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e autor de ‘Estação Carandiru’.

#PraCegoVer: Ilustração de uma pessoa deitada numa banheira com água quente e um baseado na mão.

 A maconha e os banhos quentes

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